Daquilo que o vento traz

5691067074_7dc6f07d48_nNaquela noite, na avenida sempre tão rumorosa, só se ouvia a voz do vento.

O comércio fechou as portas assim que começou a gear e as pessoas, encapotadas como podiam, buscavam o abrigo de suas casas. A névoa branca, mal permitia divisar alguns centímetros a frente dos olhos. As luzes dos postes tremeluziam, amarelas e confusas, iluminando parcamente a farmácia de plantão.

O homem de jaleco branco vestia o uniforme por cima de um par de blusas volumosas, tornando sua figura inusitadamente rotunda. Com as mãos enfurnadas nos bolsos, mantinha o olhar atento ao relógio. Quatro horas, vinte minutos e quarenta e sete segundos para poder trocar o turno e se resguardar daquele frio aterrador. A cada rajada de vento que sorrateiramente entrava pelas frestas da roupa, o homem se perguntava o motivo de ter escolhido aquela profissão. Até mesmo o dono do botequim da esquina, sempre esperançoso por embriagar algum retardatário, já havia fechado suas portas e, àquela hora,  é certo que estava entocado em suas cobertas, assistindo ao telejornal noturno. Ele não. Em nome dos enfermos desprevenidos, e obedecendo à rígidas normas contratuais, tinha que se manter de portas abertas e com o estoque sempre cheio. Este era seu dever.

Também era seu dever zelar pela caixa dos Necessitados.

De tempos em tempos, um caminhão com o símbolo da Instituição vinha e deixava aquela caixa aos seus cuidados. Nela, ele tinha que recolher cachecóis, casacos, cobertores e toda sorte de vestuários para aquecer os friorentos despossuídos. O homem, acostumado a lidar com psicotrópicos, analgésicos e antiespasmódicos, não tinha a menor familiaridade com aquilo, mas sabia que receberia severas sanções superiores se não zelasse pela famigerada caixa. O dever, sempre o dever. Afinal, mais cedo ou mais tarde, o caminhão com o símbolo da Instituição retornaria para levar tudo aos Necessitados.

Lá fora, o vento uivava. O homem empurrou a caixa para debaixo da cobertura junto à porta e entrou rapidamente. Seus ossos pareciam trincar por dentro. Queria fumar. Aquele frio pedia um cigarro. Só de imaginar a fumaça a lhe envolver o rosto, já conseguia sentir pequenas migalhas de felicidade. Mas havia a maldita profissão. De novo ela. Um boticário visto em meio aos prazeres do tabaco podia ser facilmente denunciado. A ideia foi tragada pelo vicio do dever.

Sem cigarros e sem companhia. Só havia o frio. O homem circulava pelas prateleiras pensando nas horas de gélida solidão que teria pela frente. Nas noites de calor, ainda havia mães desesperadas por antipiréticos infantis ou inaladores descongestionantes, mas nas noites frias como aquela, nem elas apareciam. Até mesmo a doença podia esperar climas mais aprazíveis.

Foi quando eles surgiram.

Eram dois.

No começo, o homem que estava com o pensamento distante e com os ouvidos ocupados pelo gemido do vento, não dera pela presença deles. Mas aos poucos foi notando que ali havia mais do que vento. Do fundo da farmácia, que era onde sua peregrinação absorta o havia levado, dirigiu seus olhos para a porta. A caixa. Eram dois e mexiam na caixa.

O maior não parecia ter mais do que dez anos. O menor, a metade disso. Tremiam. Ambos de calças que não lhe chegavam na metade das canelas e camisas sem mangas, com buracos tão grandes que seria possível transpor uma cabeça por eles. Seguravam a caixa pela borda e olhavam para seu interior. Tremiam.

O homem apertou ainda mais as mãos nos bolsos e caminhou em direção à porta. Aqueles meninos não deveriam estar ali. Deveriam estar em casa dormindo. A culpa era do governo, daquele maldito governo. O dono do botequim já o alertara. Aquela avenida estava sendo invadida por aquelas réplicas  de marginais. A culpa era do governo.

Ao sentir que alguém se aproximava, o menino mais velho levantou o olhar da caixa e mirou o homem de jaleco que já estava diante deles. O bater de dentes, não o permitia falar. Apenas apontou com olhar suplicante para uma das blusas da caixa e encolheu os braços junto ao corpo, num clássico gesto de quem tem frio. O mais novo, assustado, escondeu-se atrás do mais velho. Tremiam.

– Saim já daí, pivetes! Voltem para suas casas e não mexam no que não é de vocês! Não veem que esta é caixa da Instituição para os Necessitados? Vamos, saim!

O menino mais velho ameaçou insistir, mas foi desencorajado pelo outro que o puxou para fora. O olhar do homem do jaleco exibia a severidade e a satisfação de quem cumprira o seu dever e não encorajava questionamentos.

Foi então que caminhando abraçados os meninos sumiram na névoa, pela avenida sempre tão rumorosa, que acabava de ficar ainda mais fria.

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