Preste atenção, querida

Gray city - foto de Diego Torres SilvestreO acidente na estação. A moça caiu, e eu lembro da cidade vivida pela primeira vez. A trilha sonora das manhãs com cheiro de Derby. Ó, olha o trem… Em pé na plataforma, eu aberta para o mundo, até para o fedor de cigarro vagabundo, para a programação musical repetida diariamente nos alto-falantes, para a mágica da coincidência provável de o comboio aparecer quando Raul cantava: olha o trem. Recém-chegada, eu palpitava com o caos, gozava cada lambida fria de vento, entrava satisfeita nas multidões sonolentas e perfumadas que se deslocavam abrindo o dia. Feliz de estar perdida. Antes de toda a luz implodir e eu passar anos trancada com medo do mundo e de mim. Antes de conhecer o irreversível. O pensamento que volta sempre ao mesmo ponto. A voz que sai disforme, em soluços, aguda, sobe e desce. A incapacidade duradoura de merecer um caminho.

Um erro é um momento mas também uma sequência. O erro sou eu. Segundo o jornal, a mulher tropeçou e quebrou o fêmur nos trilhos. Eu mergulhei no mundo porque quis. Baixei um pé, depois o outro, pulei. Acordei resfolegante, cercada de sangue seco. Escada, não vi.

Depois do trauma, fui acometida por uma enorme capacidade de entender e perdoar. Não confundir com bondade: é retitude cega, santidade hipócrita. Sob ela, permanece a vontade de apagar, de dizimar, de matar. Mas não vontade de morrer. Só de me torturar com estilhaços de esperança. Rememorar sins que poderiam ter sido nãos e a esperteza que era cristalina burrice. Parte do tempo, nem lembro de quando virei pó, apenas sustento a sensação de derrota e fraqueza. Tento calcular quantas vezes por dia penso no abismo. O tempo todo. Hoje não pensei. Agora pensei.


Vem. E eu vou. Senta. E eu sento. Agora rola. Eles riem.

O pior de tudo foi o riso. Porque eu ri junto. Foi como um tapa. Um tapa que tomei, depois peguei a mão agressora e lambi, percorrendo com a língua cada um dos dedos e chupando os nós duros de articulação. É isso, só isso que você é, gritava o riso. E eu ria junto. E todos riam.


Quando acordei, nasci outra. Como se o choro clichê sob o chuveiro tivesse apagado traços que, durante a madrugada, algum sacana sem talento refez. Ou como se as horas de sono tivessem desmantelado adornos. Meu olhar de ressaca escondia um buraco sem oceano. As sobrancelhas cansaram de simular desafios. Os dentes rangidos perderam o corte.

Sobrou uma versão embotada, ou enxuta, de mim. Menor e mais pesada. O que não significa densa. Caminha vacilante. Os olhares que antes me atiçavam agora querem me estraçalhar. Rasgariam minha carne com o pouco caso da adolescente que masca chiclete diante de mim no assento do trem. Eu poderia desistir. Assumir a derrota. Ou construir um mundo sobre este mundo. Ruas, casas, parques e comércios que soterrassem a arquitetura duvidosa, os terrenos baldios, as bugigangas plásticas das lojas de descontos, os moinhos abandonados, as lanchonetes fedendo a gordura velha. Mas o lodo continuaria ali. Um dia, brotaria nos gramados, contaminaria a água de beber, retornaria pelos encanamentos e, para horror das donas-de-casa, empestearia os banheiros perfumados por sachês.

Não quero tanto ódio. Por isso afundo mais. Ele me chama e eu vou. Bato à porta, espero. Dos escrotos, o menor. Mostro os dentes quando ele abre.


Fugiram todos. Sobrei somente eu na piscina vazia da casa suja e vazia. Ou quase eu. Enfim acordei e parti.


Levantei da poça sem querer limpar as crostas grudadas na pele. Eram memorabilia mórbida do que eu fui. Não das noites vermelhas cegas de giros e quedas, mas da garota que olhava tudo sem ver nada.

Não sabia pedir ajuda. Sozinha, cuidei das manchas. Acariciei, cheirei, pus para dormir. Temia que, se desaparecessem, levariam o que restava de mim. Enquanto eu visse o sangue, o sêmen e o cuspe, poderia dizer que ainda enxergava alguma coisa. Ainda tinha alguma coisa.

Talvez não sobre nada. Talvez as lâminas dos acontecimentos tenham me raspado por dentro, criado uma maçaroca mal-cheirosa de ressentimento e raiva que é tudo o que sou.

Foto: Diego Torres Silvestre

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