Elevado

Foto: Denilson TakedaDeus, aquele falastrão, agora é um zunido indistinto como o silêncio.

Nada de motores, marteladas, vozes. Inútil buzinar: o homem no viaduto não escuta. Com a cabeça agigantada pelo embrulho de trapos, ele tem forma e ouvidos de flor. Sob pétalas de pano, o corpo haste anda ereto, riscado por costelas e manchas recentes e remotas de ruas e poças e praças e refeições que se misturam na pele como na memória. Os motoristas que passam não veem os olhos. Nem os cabelos, a boca, o nariz que aparecem nas frestas dos tecidos desbotados. Desviam os carros, assustados com aquela presença suja e inesperada na contramão.

Não percebem a expressão satisfeita, o passo resoluto, o tronco projetado para a frente, as narinas dilatadas de excitação. Pés descalços, short roto. A cidade é um tapete áspero, mas, agora, mudo. Quanto tempo gastou na amarração? Não importa, porque valeu. Estava certo em insistir na busca pela toalha amarela. Faltava um elemento, e era esse. Amarelo como o tergal empelotado da colcha florida dos pais. Como o sapato, com lustre de quindim, do primeiro aniversário da menina. A camisa marrom, o lençol cinza, o retalho esverdeado e agora a toalha amarela. No meio dos panos enrolados com precisão, já não escuta. Sozinho, enfim, o homem segue em paz.

Foto: Denilson Takeda em https://flic.kr/p/cLEVnq

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s