Tolstói na condução

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Enfim, começaria a ler o livro.

Sentou no único lugar vazio do ônibus e começou ali o ritual. Primeiro passava a ponta dos dedos pela capa, sentindo a suavidade que somente aquelas encadernações lisas e duras proporcionavam. Estancou no pequeno declive que havia entre a capa e a lombada. Percorreu a ranhura de alto a baixo com a ponta do indicador. De relance, olhou para os lados para assegurar-se que não estava sendo observado e só então levou o grosso volume em direção às narinas. Inalou fundo a fragrância que vinha do interior. Sem perceber estava de olhos fechados. A frequência cardíaca sensivelmente alterada. Deslizou o tomo em direção à boca, obedecendo ao desejo repentino de mordiscar, de lamber aquela capa. A brusca freada do coletivo o trouxe de volta. A senhora ao seu lado o olhava com um misto de reprovação e interesse. Enfim, começaria a ler o livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira. Adorava ler as primeiras frases dos livros, sobretudo as impactantes como aquela. Percorria estantes inteiras de bibliotecas e livrarias colecionando inícios. Muitos dos livros que leu, o fez motivado pela força da primeira linha. Julgava um bom critério. Não raro o livro desandava passadas algumas páginas, mas a força da frase inaugural compensava. A senhora ao seu lado se levantou pedindo licença. O ônibus já tinha vencido boa parte do caminho e ele nem percebera. Lá fora, as pessoas se acotovelavam no ponto para garantir seu lugar no coletivo. Trago seu amor de volta. Pague após resultado. A frase estampada no poste chamou sua atenção. Aquele podia ser outro bom começo de livro, de um livro que ele ia querer ler. Seguramente um livro sobre pessoas que, a sua maneira, eram infelizes. As operações comerciais envolvendo amores liquidados não lhe parecia fonte de grande felicidade, seja da parte que requeria de volta o amor, seja da parte que estava tendo o amor requerido. O único feliz da história toda parecia ser a pessoa remunerada para fazer a curiosa transação. Um senhor de pé junto ao seu banco, no corredor, lhe acertou com a maleta. Àquela altura, o ônibus já estava bem cheio. Ofereceu-se para carregar o objeto que lhe agredira. O senhor aceitou. Retornaria ao livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira. Não gostava de ser interrompido e tampouco de se perder em digressões. Aquela frase, contudo, solicitava ser mastigada, remoída, ruminada, ainda que a quantidade de páginas que tivesse pela frente não fosse encorajadora de longas divagações. Se eu tiver que voltar, eu paro no meio do caminho e compro uma faca para cortar a garganta dele. Virou-se para trás. A moça franzina diminuiu o tom de voz. Gritava ao celular. Que mania aquelas pessoas tinham de berrar ao celular. Agora ele sabia bem mais daquela mulher do que gostaria, do que seria necessário saber sobre alguém com quem apenas se divide a condução. Uma assassina. Uma infeliz assassina que compra facas para cortar gargantas alheias e que usa sua própria garganta para gritar em conduções lotadas, fazendo saber a todos que não passa de uma assassina infeliz. Qual teria sido o crime do candidato à degola? O hobbie de acumular prelúdios literários talvez só se equiparasse ao de tentar adivinhar biografias de desconhecidos. A moça não queria voltar. Decerto que tomara aquele ônibus buscando evadir-se para sempre. Aquele mundo que deixava não era mais o dela. Uma tolice ter deixado o celular ligado. Agora a solicitavam (a chantageavam?), mas ela não voltaria. Se tivesse que voltar, iria armada. Pararia no meio do caminho e compraria uma faca para cortar a garganta dele. Mas não, não voltaria. Agora ele teria que se virar sem ela. Mas ele nunca aprendera a ser independente. Usaria de todos os recursos para que ela voltasse. Nem que tivesse que recorrer a um desses anúncios de poste. Trago seu amor de volta. Pague após resultado. Mas não. Ela não voltaria.

O senhor de pé ao seu lado pediu a maleta de volta. Iria descer. Santo Deus! Já estavam ali! O ponto final já se aproximava e ele não tinha passado da primeira frase. Retornaria ao livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são… O tremor, que parecia vir de dentro de seu próprio corpo, o interrompeu no meio da frase. Também ele deixara o celular ligado. Pensou em ignorá-lo, mas a curiosidade não o permitiu. Podia ser algo importante. Além do mais, não suportaria sentir aquilo vibrando. Fechou o livro e apanhou o aparelho do bolso. Os cabelos brancos e o sorriso cansado do pai iluminavam a tela. Não atenderia. Com um toque, desligou a ligação e, ao fazê-lo, sentiu-se desligando o próprio pai. Mas também… por que sempre o ligava nos momentos mais inoportunos? O tempo, os remédios, a violência, eram sempre os mesmos assuntos, justo com ele que não se interessava nem pelo tempo, nem por remédios, nem por violência. Assim ele só murmurava concordâncias, mas nem lembrava da última vez que tinha prestado atenção ao que o pai falava. Justo com ele que tinha tantas coisas importantes pra fazer. Justo com ele que tinha aquele livro pra ler. Mas e se daquela vez fosse importante? E se ao pai tivesse ocorrido algo de urgente? E se não fosse ele quem lhe buscava, mas alguém que o encontrou na rua desacordado e localizou o contato do único filho na agenda do telefone? O pai sempre vinha com aquele papo de que pressentia a morte breve e que aquela sempre podia ser a última ligação. Claro que podia. Todas podem, ora. Mas teria que retornar. O remorso lhe incomodaria mais do que tempo, remédios e violência. Malditas relações pautadas pelo medo de perder. Malditas eram as famílias felizes, todas elas tão iguais entre si, todas elas tão diferentes da sua. Maldito era aquele livro.

O ônibus parou. Com o livro nas mãos, ele caminhou rápido em direção à porta e saiu. Junto à calçada, homens despejavam entulho em uma caçamba. Ele olhou mais uma vez para aquele livro e o lançou para junto do entulho. Deu às costas e seguiu o seu caminho.

Foi ser infeliz a sua maneira.


Créditos da imagem: Jhonatas Jesus Silva

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