Eco

6ba690643bc4ffa066846798405e5221

Vagando em pensamentos ela repousa seu olhar no chão, o som das portas se fechando parece tão longe quanto seus devaneios e o rumor de vozes compõe uma harmonia hipnótica. É despertada de sua inércia quando seus olhos finalmente focalizam o objeto de seu despejo, o pé sobre o chinelo, repara em seu formato, suas veias finas levemente azuis e a sua magreza aguda, bonito a sua maneira, ao contrário dos seus, sempre tivera vergonha dos seus. Uma mulher se levanta e começa a balbuciar ajuda, diz que perdeu tudo na enchente, um garoto no colo do pai toca sua guitarra de brinquedo, hoje é feriado. Paixão de Cristo, o nome soa engraçado para ela que não conhece bem nem um nem o outro, o trem aumenta sua velocidade e adentra as entranhas da terra deixando tudo mais escuro, o zunido em seus ouvidos incomoda e ela busca refúgio na janela agora desprovida de paisagem. Surpreende se fitando outros olhos que devolvem o espanto na mesma intensidade, olhos que parecem receosos mas que não se desviam, mal piscam, seriam olhos antigos ? Não, eram olhos no meio do caminho, olhos que carregam mas que também querem ser levados, duas rapinas a beira de um mergulho, sentindo se invadida ela os fecha.

A voz do trem anuncia a chegada da próxima estação. Outono. Abre os olhos. O reflexo volta a ser janela.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s