Morro amanhã

Valmir Junior

Não podia passar daquele dia, tanta gente já passou por essa experiência, alguns não tiveram sucesso, isso é terrível, além da solidão já existente é o olhar de pena dos outros. Primeiro aquele bom café na padaria, pãozinho fresco, o rebolado de Cibele, tão gentil garçonete, aquele jornal de sempre, que o antigo amor chama com certa razão de imprensa golpista, o rito de todos os dias, insuportável caminhada, voltou para casa com a cabeça no inevitável momento, como fazer? que tipo de instrumento? puxa, morava no primeiro andar, qualquer tentativa de salto impossível, o velho calibre guardado, perfeito, daria uma utilidade para aquela coisa, era sexta-feira, ia destruir o final de semana das pessoas mais chegadas, a família teria que se deslocar lá do sul, o churrasco do domingo é religioso, essas tradições todas que ele não era muito apegado mas, que morando longe e, ainda com os fundilhos doloridos pelo pé que levou da amada, acabava por sentir saudade daquela tosca reunião familiar. Adiou para o dia seguinte, achou o poeta num butiquim, amigo novo, ficaram deslizando numa Boazinha por horas, versos, poeminhas do Bandeira que pipocavam, um tema qualquer poesia pronta em guardanapo de bar, coisa ébria que não se aproveita diziam, a garrafa se foi, a noite também, nova manhã, não seria justo abandonar a causa justamente no dia da criação, ecoava em sua cabeça a declamação do santo Vinicius, após abrir a porta com certa dificuldade se atirou no estofado em sono profundo. Despertou lá pelo meio da tarde, o sol batia feroz na sala, foi até uma birosca comprar o almoço, se sentia um desses escritores que fazem da vadiagem uma arte, ria por dentro enquanto arrastava o chinelo pela calçada, decidiu comer por ali mesmo, não queria deixar louça suja, um corpo já era demais, como as pessoas são fúteis poderiam utilizar certo desleixo com a higiene para nem pesquisarem com mais atenção a causa pelo ato fatal, o povo do lugar era de doer, a comida boa, as coisas nunca são como a gente deseja né não? sacou do telefone um filme sobre um casal existencialista, chegando no apê jogou o filme em sua tv modernosa, abriu uma Baden Baden, acendeu o charuto, felicidade total, ficava pensando se a preparação de todos aqueles que talharam a vida teriam sido assim, uma despedida feliz e coisa e tal, abriu outra, última, não seria justo que bebessem a sua cerveja, ainda mais uma Red Ale, uma esticada num documentário sobre o filósofo Diógenes, fresca noite, certo cansaço lá se foi guiado pelo sono. Domingão azul, praia de paulistano, pastel na feira, a menina também estava lá, ela sempre sensual, óculos escuros, as marcas da noite, puxa já brincaram entre lençóis, palmito, legal, garapa doce, língua nos lábios, caiu na área é na cal, partiram os dois para a horizontal, ladinho da feira, a casa dela, sozinha, separada tinha bom tempo, essa gostosa brincadeira, passear pelado, almoçar o “restê dontê”, ouvir um Coltrane, chupar a fruta até caroço, fica pedia ela, não disse ele, amanhã volto das férias, nem ia, já sabia que era chegar em casa pegar o velho 22 e meter uma bala na cuca, foi uma maratona, o corpo, estava assim como diz a rapaziada, só o pó, pegou a arma na gaveta, sujo, barba por fazer, corpo assim não deve ser encontrado, barbeado, cheirosinho, foi ver os gols da rodada, dormiu, quando acordou com o despertador do telefone celular berrando, viu a arma sobre a mesa, não hesitou, colocou pronta para finalmente com um estampido se despedir de tudo, com um estrondo acordar a vizinhada chata, botar abaixo os alicerces de condomínio pacífico, era segunda e, por detestar esse dia, resolveu deixar para terça.

Valmir Junior escreve sobre vísceras abertas do nada. Mais textos do autor em: http://inacioval.blogspot.com.br/

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