Gota d’água

gotas
– Guarda-chuva, senhor?

– Um dos grandes, por favor.

– Vai um pro menino?

– Ah, não vê que ele quer ir abraçado comigo? Um só basta.

O avô tinha resposta pra tudo. Até mesmo para disfarçar sua sovinice. Pois bem, andariam abraçados.

A chuva lhes pegara de surpresa. Saíram rápido do parque, seguindo pela avenida em direção a casa do avô. Sorte ter aparecido um vendedor.

– Vô, de onde eles vêm? – o menino apontava para trás.

– Eles quem?

– Eles. Ali. Aqueles homens oferecendo guarda-chuvas…

– Ora, você não sabe? – perguntou o avô, um pouco para criar suspense, um pouco para ganhar tempo.

– Não, vovô. Estava sol e eles não estavam ali. Foi só começar a chover e eles apareceram. Parece mágica… já perguntei isso pro papai e ele mudou de assunto…

– Mas isso todo mundo sabe. Eles são gotas de chuva que se transformam em vendedores assim que caem na calçada. As pessoas estão tão preocupadas com suas coisas que nem percebem quando eles surgem. Por isso tem tantos desses por aí.

– Mas vô… – o menino ficou pensativo. Queria encontrar alguma falha na história do avô, mas não conseguiu.

O avô, afinal, tinha mesmo resposta pra tudo.

Cruzaram a esquina. Um homem se aproximou. Um saco plástico na cabeça fazia as vezes de guarda-chuva. Estendeu ao avô um chapéu com moedas.

– Uma moeda, senhor?

– Não tenho –  disse o avô a resposta automática.

Seguiram caminhando. O avô apressando o passo e obrigando o neto a fazer o mesmo. O menino olhando pra trás sem perder o ritmo. Mirava o homem das moedas cada vez mais longe.

– Você não tem moedas, vô?

– Não… – detestava mentir ao neto, mas não quis cair em contradição.

– Então porque não aceitou a moeda que aquele moço te ofereceu? Ele tinha tantas!

– Ele não estava me dando moedas, querido..

– Hum… é verdade… estava vendendo, né, vovô? Ele também deve ser gota de chuva. Deve ter se transformado em vendedor de moedas assim que caiu na calçada… As pessoas estão tão preocupadas com suas coisas que nem percebem quando eles surgem… por isso tem tantos desses por aí, não é, vovô?

Sem que houvesse resposta, chegaram em casa. Naquela tarde, o avô não quis brincar. Passou a tarde toda sentado, olhando pro vazio. O neto brincava tranquilo com seus jogos de montar.

Aquele menino tinha resposta pra tudo.

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2 comentários sobre “Gota d’água

  1. Pingback: Muito bom… – escreversonhar

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