Senhora de Si

Nada é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso do que o homem… Respiro o pensamento de Montaigne sem sentir a menor ponta de orgulho de ser uma a mais, na fila de sempre. Lá vem mais uma.

Ela chega gingando, atirando os cabelos para trás, ombro à mostra de um lado, braço nu do outro, generoso decote ovalado realçando os seios querendo saltar. Poderia muito bem ser modelo das passarelas das grandes cidades. Não, não era só um simulacro de modelo. Na moda a democracia fizera seus milagres: deu conta de igualar o visual dos jovens de Paris, Milão, Tóquio, Moscou e de Campo Limpo.

Campo Limpo era o destino do ônibus cuja fila, num átimo, dobrara a esquina. Agora do meu lado, pertinho de mim, a garota dava mostras de que a democracia não avançou para o essencial da vida: hálito de fome ou dente doente, pele manchada, cabelos sem brilho, olheiras e outros vestígios, denunciavam faltas acumuladas. Trazia nas mãos um volante que abria e fechava de maneira irrequieta e, nos olhos, expressão ansiosa de quem queria me mostrar uma preciosidade.

Peguei o papel que passou as minhas mãos como uma relíquia todo enroladinho. Acolhi seu olhar e com ele a fala em jorro. Disse-me ter encontrado, ali pertinho no chão, o que sonhara e procurava há tempo, seria em breve a patroa de si mesma; faria seu próprio horário, andaria por onde quisesse, falaria com quem desejasse, não iria viver de salário, viveria do lucro de suas vendas. Ao perceber meus olhos arregalados de indagação, continuou explicando seu alívio porque agora sim, não repetiria a sina da mãe empregada doméstica que não voltava para casa no final do dia, e desconjurava o destino do pai pedreiro, preso num descuido, não sabia bem a razão.

Contou-me ter feito 18 anos ontem, agora sim seria senhora de si. Voltaria ao abrigo, sua casa até hoje cedo, só para pegar as roupas e visitar os quatro irmãos menores que lá ficaram. Ah! Esses filhos de rato que nascem pelados, precisava fazer alguma coisa pra tirá-los daquela vida…

Abri o volante devagar, incrédula com tal bem-aventurança nestes tempos sombrios. Em caixa alta estava escrito: ESTAMOS SELECIONANDO MOÇAS PARA TRABALHAR NA VENDA DE YAKULT. ESSA É UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE SER AUTÔNOMA. ÓTIMA MARGEM DE LUCRO.

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Leila Bomfim, assistente social, doutorou-se em psicologia social, atuando em projetos sociais e como perita no sistema judiciário, encontra na literatura uma das melhores chaves para mergulhar na realidade existente e imaginar realidades potenciais.

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