Só para gulosos

A Julio Ramón Ribeyro

gula

Saindo do consultório, com olhar decidido, entrou no primeiro bar que encontrou. Ela estava lá. Do jeito que ele gostava. A parte de baixo deliciosamente protuberante, já insinuando as delicias que continha em seu interior. A parte de cima afilava-se aos poucos, garbosa. O bico apontando para o infinito. João Roberto não pôde conter a torrente de saliva que se formava em sua boca, antecipando o gozo que seria abocanhar aquilo tudo.

– Eu quero aquela ali. A mais moreninha – disse indicando ao balconista.

– Boa escolha, meu rapaz. Essa aí está fresquinha.

Aquela seria sua última coxinha. Estava resoluto. Ou precisava estar. A doutora acabara de lhe informar os números. Glicose 103. Colesterol 242. Triglicerídeos 197. Estas eram suas novas medidas. Mais tarde faria uma fezinha. Há pouco passado dos 40, não fazia um exame médico desde o tempo em que era obrigado a fazer a educação física no colégio. Sua magreza incorrigível, além dos mais sofisticados apelidos, sempre lhe dera a certeza de que tudo corria bem. Era a maldita genética se manifestando, opinara a doutora. Não fosse pela exigência da repartição, que passara a cobrar de seus funcionários exames periódicos, jamais saberia que era um forte candidato a sofrer um infarto do miocárdio, sempre nas palavras da fatídica doutora. Aquela definitivamente seria sua última coxinha. E bem, já que seria sua última coxinha, que fosse também seu último refrigerante de cola. Ou melhor, um guaraná. Guaraná é fruta. Fruta é saudável. Teria de começar de algum lugar. Faltava pagar. Não sem antes um último chocolatinho, souvenir do tempo em que era comedor incontrolável de guloseimas. Agora não. Agora era saudável. Escolheu o menorzinho, com recheio de frutas secas. Orgulhou-se de sua escolha.

Despediu-se do bar rumo a uma vida mais leve, longe de açucares, gorduras e carboidratos. Iria emagrecer ainda mais, é verdade, mas estava na moda ser magro, lera na revista de atualidades que folheara na sala de espera da doutora. O dia era de folga. Depois da consulta, um dia livre e saudável pela frente. Inauguraria aquela sua nova fase fitness com uma caminhada pelo parque. No caminho pela rua, o olhar sempre para a frente. Olhar para os lados poderia ser muito perigoso para seus novos objetivos. Padarias, docerias, lanchonetes, rotisserias, pizzarias e bistrôs por todos os lados. Todos estes estabelecimentos, seus velhos conhecidos, tinham um único e bem claro objetivo: lhe empanturrar de gulodices até que seu coração estourasse. Mas não. Não conseguiriam. João Roberto não lhes dava bola. Mirava para frente. Para o futuro.

Até que ouviu. Nem bem andara cem metros e ouviu. Claras e retumbantes eram as vozes. Feira. Havia uma maldita feira em seu saudável caminho. No maldito caminho que escolhera para ir ao benfazejo parque naquela manhã. Pastel. Era alucinado por pastel. Bauru. Não resistiria a um maldito pastel de bauru. Assim como a coxinha, precisava se despedir também de um pastelzinho de bauru. Comer pastel na feira é algo cultural e ele não podia se safar assim de sua cultura. A cultura era algo que não se podia negar. Ao menos por uma última vez. A cultura não podia morrer. Não seria ele o arauto do fim de uma tradição de comer pastel na feira e, é claro, acompanhado de seu indissociável caldinho de cana com limão. O último, é claro.

Agora seguiria com fones de ouvido. Não daria mais atenção aos vendedores ambulantes, porta-vozes da obesidade desenfreada. O olhar fixo adiante e música de academia entrando pelo aparelho auditivo. Como era bom ser saudável. E além do mais, haviam os números. Eles precisariam cair muito se não quisesse sofrer sanções da repartição. Do jeito que a crise estava feia, temia até mesmo uma demissão. Seria o primeiro demitido por excesso de gordura no sangue, mas era bom não duvidar. A repartição estava em crise. O país estava em crise. O misto quente subira de preço duas vezes naquele ano e as fatias de queijo estavam cada vez mais finas. Era bom não duvidar de nada. Os números tinham que cair. E cairiam. Ele era agora um homem muito saudável que caminhava rumo ao parque.

Não fosse pelo fato de ser segunda-feira e o parque estar fechado, é claro.

Só lembrou-se deste pequeno inconveniente diante do cadeado trancado que parecia lhe sorrir sarcasticamente. Aquilo estava ficando difícil. É claro que os funcionários do setor lúdico precisavam descansar. Não havia sábado, domingo ou dia santo em que eles não estavam de prontidão, aguardando os saudáveis usuários como João Roberto, com um sorriso no rosto. Mas tinha que ser justo no dia em que ele resolvera mergulhar de cabeça num mundo sem calorias? Sim, aquilo estava ficando muito difícil.

A frustração lhe abrira o apetite.

Almoçaria. Em frente ao parque, santo Deus, um restaurante vegano. A coisa estava ficando mesmo séria. Lembrou-se dos números e atravessou a rua. Mas não. Estancou na porta do recinto. Aquilo podia ser perigoso. Seu organismo podia estranhar um baque tão forte. Teria que ir aos poucos. Devagar e sempre. Uma alimentação saudável tinha que ter constância, planejamento. Andou meia quadra e entrou num quilo. Ali podia controlar melhor o cardápio. Ter uma alimentação saudável, como não, mas com ligeiras notas lipídicas, com traços de carboidratos para trazer ao paladar um pouco de sua vida pregressa, aquela que tivera fim na manhã daquela segunda-feira sem parque. Avistou a couve com bacon. Por que não? Aquele restaurante sabia das coisas. Como era boa a sensação de estar comendo bacon sem culpa, podendo falar pra todo mundo que tinha almoçado um nutritivo prato de couve. Também comeu cenoura e pimentão, a dupla que recheava seu bife a role. Uma delicada fatia de bacon como adorno. Berinjela. Sim, comeria berinjela. Agora ele comia berinjelas. Ficavam ótimas sob queijo derretido e um suculento molho de tomates. Como era bom ser saudável. Para assentar melhor a comida, um cafezinho. A doutora não falara nada a respeito de cafezinhos. Açúcar ou adoçante? Açúcar, sim. Um fundinho de açúcar pra quebrar o amargo. Amarga já era a vida. E aspartame, a doutora certamente saberia, dava câncer. João Roberto não queria ter câncer. Açúcar, açúcar. Seguramente açúcar. Uma ou duas colherzinhas até lhe fariam bem, depois de tudo o que passou com a história do parque.

Já podia voltar para casa. Faria agora um caminho alternativo. Não queria dar de cara com a feira e seus pasteis novamente. Queria chegar logo em casa e tirar uma boa soneca. Não comeria nada até o fim daquele dia. Os números. Precisava baixar os números. Agora não tinha mais desculpas. Não depois daquele dia. Não depois de ter deixado uma vida inteira de gulodices para trás. Mas o problema estava na frente. Bem na sua frente. Com letreiros coloridos e luzes hipnotizantes, a duas quadras de sua rua, surgia em toda a sua glória o carro dos churros. Doce de leite, chocolate ou avelã. Com cobertura ou sem. Crocante por fora e macio por dentro. Embrulha-se para viagem. Não podia resistir a isso. Pediu três. Devoraria um agora, na frente do homem que o preparava. Na cara mesmo da sociedade. Devoraria de modo explícito. Lamberia a pontinha saliente de doce de leite, depois mordiscaria aquela massa crocante, deixando a canela se espalhar pelo rosto. Devoraria em homenagem à doutora. Uma mordida ao Colesterol, outra à Glicose e outra aos Triglicerídeos, aqueles danadinhos! E uma mordida farta ao infarto! Viva o miocárdio! Os outros dois levaria para comer à noite, antes de dormir. Nem mesmo escovaria os dentes.

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