bonança

enchente

prefeitura vai mandar os botes. cabe quatro por vez. cinco quem sabe apertando seis. já têm gente no ginásio. na igreja tá lotado. a escola também encheu. é mesa-cadeira-caderno espalhado. aula só ano que vem. ou nem. o dinho veio e prometeu. dinho filho da puta. vai drenar o caralho. subiu vazou encheu. porra, dinho. vai pedir voto para puta que o pariu. é claro que perdi tudo, homi, num ta vendo. cama-armário-sofá tudo carcomido, enlamado tudo já. acabou. menina, sandália havaiana num pé, o outro nem. até o chinelo chuva levou. o irmão, lama até no peito. doença do rato, meu deus, moça do posto diz que mata. igual o outro, meu deus, num pode. helicóptero da tevê zumbindo no céu. tá ficando preto que nem. será que chove mais? volta aqui menina!

ele tá ali. agora eu achei. ali preso nas pedras. coitadinho dele, nem sabe nadar. volta aqui Ted, o que você tá fazendo aí, Ted. vou aí te buscar, vou aí te salvar, pera aí que já vou.

bota tudo pra cima. aquele ali talvez consegue salvar. caminhão da marabrás trouxe, o rio levou. ai, que tá começando a feder. que comprar novo o quê, homi. esses aí eu nem paguei ainda nem. dezoito prestações aquele ali, meu deus. dinho, filho da puta. cabe mais gente na igreja. pastor veio avisar. mulheres crianças primeiro. os velhos talvez dê pra encaixar. carai, homi, sai da frente. sim, homi perdi tudo, to fudida to na merda to na lama. vizinha vai ajudar a limpar. agora não, mais tarde talvez. urso de pelúcia, homem bom jacaré na camisa que deu, enganchado nas pedras, correnteza levou. raio pipoca no céu negrume da porra. vai voltar por bem ou a chinela vai ter que cantar, menina?

aguenta firme, Ted, tá dificil, mas eu já vou. tem muita lama aqui, Ted. minha perna tá afundando, mas calma que eu já vou. vou tentar me segurar ali. como é que você foi parar aí, menino?

rabo da ratazana passeia pelo pé do prematuro no berço. o colchão molhado fede as larvinhas começam aparecer. o menino nadando na água lama bosta que só cresce. os pingos de chuva voltam. corre. puxa que lá vem mais água. porra de céu preto. olha que lá vem raio trovão. agora fudeu de vez. e esse bote que não chega. vai para puta que o pariu, dinho. valei-me santa bárbara-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem. que cachorro, homi. cachorro morreu eu vou lá pensar em cachorro. cheiro da bosta chega a arder o nariz. cameramen pede pra parar. tanta água assim dá vontade de mijar. a correnteza só aumenta. urso de pelúcia desprende da pedra e se vai. para de berrar, menina. porra, menina… ela tá se afogando! ai, meu deus, socorro… alguém ajuda a menina!!!

Ted, tá dificil, eu não aguento. eu vou cair. a chuva voltou, Ted. a água tá muito forte, Ted. Ted? Ted, não. volta aqui, Ted. não vai embora, Ted! Ted, nããão! meu deus, quanta ág… socorro!

hoje já não chove nem. moça boa ajudou com as despesas tudo. hoje a tevê não veio. todo mundo em volta pra olhar. braços fechados da menina morta nem mesmo urso tem para abraçar.

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Foto de Ingo Penz – Enchente de 1974, em Tubarão.

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