O mendigo que tinha olhos de abismo

mendigo

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado pragueja. Pragueja contra a sovinice dos fabricantes de sacolas, malditos avarentos que não fazem sacolas decentes. Que usem eles sacolas transparentes! Todo mundo vê o que ele vai fazer, o que ele vai comer quando chegar em casa. Com que cara vai ficar quando o mendigo lhe pedir um trocado e ele lhe disser que está liso? E o mendigo sempre está ali. Maltrapilho na saída do mercado. Sentadinho, esperando. E o whisky, meu deus, quem está liso não compra whisky, ele vai perceber. Mas não é da conta do mendigo. O senhor de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado trabalha oito nove horas por dia, cinco dias na semana, paga todos seus impostos, iptu-ipva, como-a-classe-média-paga-imposto-nesse-país-meu-deus, pode muito bem tomar um whiskisinho de vez em quando e, convenhamos, pedir é fácil né, se esse homem trabalhasse não estaria nessa condição deplorável, meu deus. Todo santo dia plantado nesse canto imundo. Era só ele sair do mercado mais distraído que lá vinha o mendigo a lhe mendigar, justo a ele que não conseguia dizer não quando via cara de mendigo. Esses malditos fazem curso de atuação em Hollywood, não é possível. Por isso não olharia. Daquela vez não. Ao menor sinal de um vulto mendicante, ele fixaria o olhar pra frente, com cara de não-é-comigo e seguiria sua vida, contribuindo sem peso para a não proliferação daquela gente, não dê esmolas, não alimente este hábito, a gravação do metrô sempre o adverte. A polícia. Onde estava a polícia numa hora dessas?  A polícia é quem tinha que enxotar aquelas criaturas dali, era cada cara triste, meu deus, e ele não conseguia lidar bem com aquelas cara tristes. Do caixa do mercado já podia perceber a movimentação na calçada, a fila de passantes em linha reta balançando a cabeça e olhando pra frente, a linha de produção dos negadores de esmola e vez ou outra algum desavisado quebrando o fluxo e atirando uma moeda, um resto, uma sobra. Malditos alimentadores de mendigos, decerto tinham olhado. Decerto também eram suscetíveis a olhos de mendigo… ah, aqueles olhos… ficavam impregnados em sua mente pelo resto do dia, por isso não olharia, naquele dia não. Ainda no caixa, reforçou a compra com mais uma sacola, a transparência disfarçada, rótulos virados pra dentro, se orgulhava de sua sagacidade, não haveria olhos de mendigo que lhe agourasse o whisky. Andaria bem na beira da calçada, rente a rua, para não haver o risco de um atentado, sei lá, essa gente não tem nada a perder, né, podem muito bem se magoar – essa gente se magoa fácil – e tentar violentá-lo, essa gente agora está sempre com uma faquinha, um canivete escondido e sei lá, essa gente mata por quase nada. Se a gente não acaba com essa raça, essa raça há de acabar com a gente. Sim, a cidade precisava de mais policiais. A Rota. Isso, era preciso espalhar a Rota nas ruas. Sim, sem dúvida era isso. Passos decididos na porta do mercado. Um passo, dois passos, três. Não, não olharia. Pôde ver o vulto, imaginar o corpo magro, o olhar virado pra ele, lhe estudando, lhe medindo, lhe implorando para que virasse o rosto e caísse no abismo daqueles olhos de mendigo. Não. Não olharia. Ontem mesmo ele olhou. Olhou e viu o que não queria. Aqueles olhos, meu deus, aqueles olhos eram tão desgraçadamente iguais aos seus, aquele mendigo era tão desgraçadamente igual a ele, por isso não, de novo não, não olharia, por nada nesse mundo, aquele olhar de novo não.

Mas olhou.

Foi só o mendigo começar a falar que ele olhou, foi só sobrou-uma-moeda-qualquer-dez-centavos-serve-pra-eu-comprar-um-marmitex que ele olhou, aquela voz desgraçadamente tão humana. E pensar que faltava tão pouco. Mais dois ou três passos e o mendigo já não seria problema seu, mais cinco ou seis e ele já poderia ler as manchetes que adornavam o jornal esportivo e nem se lembraria mais do mendigo, mais dez ou doze e seus passos largos já teriam alcançado a esquina da rua em que estava seu carro. Com as sacolas no banco do carona, ele ligaria o rádio numa estação de músicas tranquilas e tomaria o rumo de casa. Em casa, beijaria a esposa e juntos tomariam whisky. Dormiria uma noite de sonhos serenos. Mas ele olhou. Um vacilo e ele olhou. Face a face com o homem que lhe pedia. Face a face consigo mesmo. E como era insuportável olhar para si mesmo.

A garrafa de whisky na sacola. A garrafa de whisky em suas mãos. O olhar triste do mendigo.

sobrou-uma-moeda e pá – era a garrafa estilhaçada na cabeça do mendigo.

qualquer-dez-centavos-serve e pá – era o olhar do mendigo, o olhar que também era o seu, todo marcado, ensaguentado, dilacerado pelos estilhaços da garrafa.

pra-eu-comprar-um-marmitex e pá – era o mendigo delirando, as pessoas se acercando e aquele olhar, aquele maldito olhar teimando em continuar ali.

Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Som de sirene ao fundo. Mais três ou quatro chutes dos passantes no mendigo. Solidariedade ao cidadão tão bem apessoado, tão brutalmente violado. A violência desta cidade não tem limites, meu deus. Não se pode nem fazer compras tranquilo. Homens fardados carregam mendigo delirante pro fundo do carro cinza. Nunca antes tanta gente olhou pra ele. Multidão se dispersa. Cheiro de álcool e sangue nauseiam os que ainda passam. Funcionários do mercado, vassoura, rodo, pano ligeiramente úmido e sabão, muito sabão, para limpar tudo aquilo, toda aquela fedentina. Os fregueses, essa catinga pode afastar os fregueses. Melodia de sirenes enervam cidadão de bem que bebe água com açúcar na porta do mercado. Gentileza gera gentileza. Respiração arfante pelo terrível esforço. Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar!

Cai a noite dormida sem whisky.

(…)

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado já não pragueja. Sai do mercado aliviado e confiante. No canteiro da calçada, flores com espinhos recém plantadas. As pequenas gotas da chuva que agora se incia não atrapalham o caminhar leve do homem. Hoje ele não terá que lidar com o abismo.

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