Não lugar algum

Por Airá Fuentes

Eu não saio do lugar
dentro do carro, do ônibus, do trem, do metrô
dentro de mim, não saio do lugar,
nem quando caio, caminho, corro ou fujo
não saio

mas num copo de café me afundo nos grãos de açúcar mal dissolvidos no buraco negro da xícara um colapso de tempo-espaço me invade as narinas e movo-me adentro de um cafezal em colheita de um terreiro em dia de sol de um fogão à lenha ao lado de um moedor acoplado à pia velha e volto arrependida em direção à cafeteria gourmet em que me encontro. Olho a atendente enojada de sentir aquele cheiro de café todas suas horas do dia e, se usam café em perfumarias para renovar o olfato, é possível dizer que esta moça certamente gostaria de inverter a situação e cheirar um perfume bem forte para esquecer que está ali, mas talvez fosse mais eficiente baforar lança-perfume nesse caso, eu acho. Já eu não uso drogas porque tenho medo de não voltar para casa, de me perder pelas ruas de São Paulo e bater uma bad monstra capaz de me fazer preferir enfiar-me em um bueiro fedido junto à comunidade de roedores nos subterrâneos da cidade. Não levo jeito para ratazana.

Por isso pago uma puta grana num expresso só para ter o direito ao olhar repressor dos funcionários pelo uso infinito da mesa enquanto passo o tempo ocioso entre uma coisa e outra, porque nunca compensa voltar para casa entre uma coisa e outra. E são esses momentos, esses vãos do dia, que descarrilam a linha de raciocínio de qualquer diabo, que depois tenta reencontrar o fio da meada em algum borrão de caneta sobre a palma da mão ou refazer trajetos mentais que insistem em agarrar-se a esquinas imaginárias para lembrar onde estava mesmo… onde eu estava mesmo? Ah, sim. Não levo jeito para perfumes.

Prefiro mais o cheiro do café que anula o cheiro do perfume, ou da água de cheiro, que seja. Hoje junto de meu café veio uma água saborizada para acompanhar, daquelas que tem gostinho diferente, mesmo que digam que água boa tem de ser insípida, inodora e incolor. Mas não está mais simples nem ser água hoje em dia. Não levo jeito para água.

E na água turva sempre pode ter algum bicho submerso que não se vê no rio, no mar verde-escuro, tanto faz, sempre pode ter algum animal para roçar a perna da gente ou uma alga para assustar qualquer coitado que fica ali paralisado enquanto a bicharada dá risada de sua cara de cidadão de cidade grande ou enquanto um bem-te-vi insensível, variando o vocabulário, diz ao longe, lá do fundo da minha cabeça: “E daí? E daí?”.

Daí, então, corro em falso atrás daquele raciocínio perdido, daquele fio da meada, daquele cafezal, daquele lança-perfume, daquela água turva, mas apenas me engastalho em algum lugar desconhecido com uma mesma pergunta inconsolável:

… onde eu estava mesmo? … onde eu estava mesmo? …onde eu estava mesmo?

HopperAutomat
Automat, de Edward Hopper

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