Sem piedade

A frase dita reverberou, invadiu a mente feito a erva da vez primeira esticados na areia, aquela pegada, puta trepada, doce era o suor, a vida um tapa na dobra do tempo. Pediu que repetisse, outra coisa saiu de sua boca. Meses passados desde que decidiram juntar os trapos, deram uma banana para os empecilhos da família, o sonho da felicidade compartilhada. Aquelas palavras soltas no nada, encheram seu rosto como se tivesse levado uma bofetada, se sentiu um farrapo qualquer atirado no lixo, o cheiro do que se transformara não era nada agradável, percebeu que carregava um peso maior sobre os ombros, a divisão deixou de ser igual, não era possível reciclar coisa alguma ou resgatar o que estava perdido. A casa aos poucos passou a receber acochambramentos cotidianos, com o tempo tudo necessita de certo retoque, ficaram assim feito portas e janelas destrambelhadas, empoeirada se tornou a poesia dos dias anteriores, o amor resultava em transpiração azeda, era um fim de caso, não seriam como os velhinhos que caminham de mãos dadas pela praça, nada de filhos, nem cães ou gatos, caixão não tem gaveta, espaço único, nada Romeu e Julieta, goiabada com queijo, que sabor acentua na boca, o que fica?

– O que você quiser imprestável. Foi o que falou diante dos frangos resfriados, na fila do açougue, naquele mesmo lugar já haviam escolhido o que serviriam para os amigos, chamavam os açougueiros pelo nome, não ousou repetir, isso era pior do que qualquer coisa. Pediu um bom filé, sussurrou no ouvido dele que faria a cavalo, por dentro ele se encheu de brio, se animou ainda mais quando ela mesma pagou pelo nobre pedaço de boi. Pegou em seu braço como nos tempos de namorados, flanavam pelo meio fio, nem se importavam com o aroma de bosque que exalava o córrego no caminho, contornos de uma paz que jamais houvera. Abriu a casa, foi para a cozinha, pegou velha faca que estava com a lâmina como nova, aparou com pequenos talos as pontas de gordurinha que ele tanto amava, frigideira quente, azeite, o filé, a fumaça invadindo as narinas, que sabor ganhava aquele espaço. Aproximou-se dela, encostou por trás, mastro armado, era ela o pendão, seria sim, diminuiu o fogo, o afastou um tanto para que não se queimasse, ficou de joelhos, pulcro genuflexório, desceu as vestes, passou a lamber delicadamente os testículos, gemido para a eternidade, quando percebeu que ele ergueu a cabeça, pegou novamente a faca, sem piedade, debaixo para cima meteu em seu frenesi, empurrou o corpo asqueroso, não se preocupou em apagar a carne que começava a queimar, limpou o sangue das mãos na toalhinha da mesa, sem olhar para trás pegou a carteira, as chaves, trancou a porta e partiu.

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