passarinhos

passarinhos

mancha vermelha colore os bigodes do gato que dorme no pé da mangueira. restos de penas trançadas nos dentes paralisa as pernas do menino que corre. penas verdes. verdes como as penas do periquito australiano. hoje ele não cantou com a chegada do menino. não presta nem pra cuidar de meia dúzia de pássaros mesmo. é disperso como o avô. gaiolas espalhadas pelo quintal. os canários também se foram. a maritaca. a maritaca agonizante no vão entre duas pedras. menino petrificado com o inferno diante de si. crianças gargalham no muro, fazem troça do menino que chora. chamam o gato de volta. o pai surge na porta da cozinha. para de chorar, menino, seja homem! Ande, limpe toda essa sujeira e vem almoçar! 

mancha azulada colore a poeira da calçada cinza e faz brilhar os olhos da menina que corre. três quatro anos e ainda se impressiona com manchas azuladas em calçadas cinzas. olha o carro, menina, já disse pra olhar pros lados. homem aborrecido com a menina que corre, olha as horas. precisa trabalhar e o parque já tomou a manhã toda. venha cá, criatura, nossa casa é por ali. seus olhos já não reparam em manchas azuladas. passarinho, papai, olha só um passarinho dormindo ali!

menino que perdeu a fome tenta alimentar a maritaca morta, o grão de milho inerte no bico da ave. o peso da culpa em sua costas, não prestava nem para cuidar de aves. essa passarinhada toda só servia pra fazer barulho mesmo, pra me emporcalhar o quintal! Ande logo, rapaz! lágrimas do menino escorrem no corpo imóvel da ave em suas mãos. para de chorar seu menino maricas, não botei homem no mundo pra chorar por maritacas! era o pai furioso a lhe arrancar a maritaca das mãos. era a ave morta atirada aos cães que passavam. A maritaca, papai, era a maritaca do vovô… eu prometi pra ele…

o pai caminha em direção a menina e custa a descobrir o azul entre as folhas. menina se agacha e toma a pequena ave com as mãos em concha. olhos fechados da ave, a cabeça inclinada pro lado. meninos correm medrosos dali. somente o pai os percebe. correm diante da visão do homem e da menina, o estilingue toscamente escondido nos bolsos. quero levar ele pra casa, papai, a gente pode fazer uma caminha, brincar com ele, olha como dorme papai, deve estar com muito sono. o pai olha pros lados como em busca de um auxilio, ignora o que fazer, o que dizer para a menina que não sabe o que é a morte. ele também não sabe. a situação é urgente e ele desiste de ter pressa. querida, este passarinho… 

penas de todas as cores se juntam à poeira de um quintal em fim de tarde. menino empoleirado na mangueira já não chora. era homem e não devia chorar por simples maritacas. eram apenas passarinhos e ele nunca mais perderia seu tempo a brincar com passarinhos. o avô nunca tivera juízo mesmo, nunca foi um homem sério. barulho e sujeira, seu pai o ensinara, apenas barulho e sujeira e ele não devia se ocupar com essas coisas tolas. devia estudar, ser um homem que se ocupasse de coisas realmente importantes, um homem como seu pai, um homem que não se importasse com a morte de passarinhos.

…querida, este passarinho está morto. menina surpresa, o olhar demorado pra ave nas mãos, os dedos passando suave pela plumagem azul. os olhos vermelhos do pai, olhos que não podem chorar por passarinhos. como o pezinho de feijão, papai? menina olha séria pro homem que já não consegue falar. ele olha pra baixo, pra longe, olha pra dentro de si. olha pra uma tarde. para uma mangueira no centro de um quintal cheio de penas e gaiolas espalhadas. olha pro seu avô. sim, querida…como o pezinho de feijão. a voz embargada do pai, o olhar sereno da menina. terra, papai, vamos enterrar ele debaixo daquela árvore. obediente, o pai cava o buraco sob o olhar atento da menina, o buraco pro passarinho azul que some por baixo dos punhados que caem. silêncio. pai e menina não se olham, os olhares ocupados com o montinho de terra no chão.  finda a tarefa, as mãos sujas de terra, a menina abraça o pai em sábio silêncio. o passarinho está enterrado e o pai chora, chora no ombro da menina que afinal tudo sabe. chora como nunca chorou, chora por todas as coisas miúdas do mundo, o pranto feliz dos que aprendem a chorar pela morte de passarinhos.

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