Marola

E se as ondas me prendessem? Nunca tão solta, tão mar, e por isso atada. O mundo pronto para me tragar e eu submersa na euforia da madrugada de quarta-feira. Tentada a desfazer malas, cancelar planos, ficar. A seu lado. Do lado do sol. Da praia que desperta grão a grão. Do vestido disforme na areia.

Os primeiros rostos da manhã invadindo nosso território cavado na água salgada. Guto dançando na rebentação. E nós dois suspensos no oceano, cegos de tanto nos ver, despidos de olhos alheios. Repletos dos dias que foram o início do fim.

O corte no joelho já nem parece existir. Enfim, o que resolveu foi banho de mar. O mais longo banho de mar. Não funcionou, a vodca sobre o sangue. O tio disse: joga, é álcool, vai limpar. Mas só ardeu mais. Música alta, saliva, empurrões e o machucado latejando. Estava errado, o tio.

Dobraram o vergalhão sobre a calçada para rasgar quem passasse? Lembrança metálica do Carnaval paulistano.

Seria melhor ter vindo antes. Se bem que tem limite. Satura, tanto sal. Quando chegamos, eu mal via seu rosto. Agora essa luz que reflete nos dentes. Mas ainda a água fresca… E os cílios cobertos de orvalho.

Já muita gente na praia. Carrancas. Nos veem, eu, você e Guto. Que olhem. O melhor fim de festa. De nós dois. Porque vou mesmo. Nem você quer que eu fique; você não sabe, só eu sei. Essa gana é também por termos prazo para acabar. Mantemos o programado.

Guto não está bem.

Só um último mergulho e vamos, pingando pela estrada.

Você levanta o Guto?

Algodão enrosca no corpo molhado, os botões não alcançam as casas. Se eu soubesse que viríamos, tinha trazido toalha. Mas nossos rumos são assim. Acontecem. Aposto que sua mãe nem deu falta do carro. Engraçado foi seu primo acompanhar. Quatro dias com você na multidão dos blocos e, quando escapamos, ele vem junto. Na despedida. O resto da semana não conta, será limbo.

Gotas na pele evaporam rápido, mas a calcinha encharcada vai me incomodar até São Paulo. Se você encostar, desço e jogo no lixo.

O que a gente tem não seca, Vi.

Nos veremos sempre, duas férias por ano, Carnaval, Corpus Christi, Semana Santa. Mentira. Não posso deixar que você me pese. Logo vamos esquecer. Eu pelo menos vou. Ou esqueceria se tivesse tempo. Porque morremos hoje.

Não entendo mais do que seu pânico. Guto nem abre os olhos enquanto pairamos como ondas macias depois da rebentação. Desviamos para a encosta salpicada de marias-sem-vergonha. Tocadas, elas explodem suas bolsinhas intumescidas de sementes e se arremessam para a posteridade.

Sua mãe não vai gostar de ver o banco molhado.

mar
Foto: Luiz Deliz – https://flic.kr/p/beanUn

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