Só para carecas

christophaigner

A primeira vez de Antônio foi numa loja de departamentos, numa dessas paredes espelhadas que utilizam para constranger más intenções. Antônio percorria as prateleiras a esmo, sem procurar nada específico, quando seu próprio reflexo o assustou. Faltava alguma coisa na imagem refletida no espelho. Aquele ali era certamente seu reflexo, mas faltava alguma coisa. Sim. E era no cabelo, percebeu confuso. Faltava-lhe o próprio cabelo. Não todo o cabelo, é verdade, mas sem dúvida um belo chumaço. Aquela parte de seu couro cabeludo não deveria estar assim tão a mostra, logo na frente. Sentiu-se como se, de repente, tivesse percebido a braguilha aberta. Sentiu-se nu, vergonhosamente nu. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém o observava, e rapidamente arrumou os fios com as mãos. Uma leve ajeitada e pronto. Lá estava seu cabelo no lugar de sempre. Um susto. Apenas um susto. Deve ter sido a luz, o ângulo ou até mesmo o espelho. Sim, era isso. Nunca acontecera aquilo no espelho de sua casa. Para economizar, as lojas compravam aqueles modelos vagabundos que deixavam algumas pessoas gordas e outras carecas. Carecas, não, despenteadas. Não queria nem pensar naquela palavra horrorosa, que não tinha e nunca teria nada a ver com ele. E ademais, Antônio tinha apenas vinte e três anos e nessa idade, qualquer ser minimamente dotado de inteligência sabe, ninguém no mundo fica careca.

Naquele dia, entretanto, Antônio saiu depressa da loja de departamentos e foi direto pra casa. Confiava que não havia nada de errado com ele, mas queria  ter certeza. Queria garantir que tudo não passara de um engano, de uma piada de mau gosto daquela loja mequetrefe, onde nunca deveria ter posto os pés. Entrou em casa esbaforido, sem nem olhar pro pai, que aquela hora ressonava no sofá da sala. Foi direto ao banheiro e colocou-se frente a frente ao espelho. Até aquele dia, tal objeto nunca representara nada de muito especial para Antônio. Era apenas mais um objeto como outro qualquer, uma interrupção reflexiva na sequência de azulejos coloridos. Os cabelos encaracolados nunca exigiram de Antônio grandes cuidados. Apenas os lavava e vez ou outra aparava suas pontas. Jamais os penteava. E de fato isso não era necessário, já que era um cabelo que se moldava perfeitamente à cabeça de Antônio e se mantinha em sua forma angelical desde a hora em que o rapaz acordava. Uma passada de mão aqui e ali eram mais do que suficientes. Por isso tudo, Antônio jamais se detivera por muitos minutos diante de um espelho.

Daquela vez foi diferente. Daquele vez Antônio se postou diante do espelho como um pecador diante de Deus, no dia do juízo final. Depois de uma olhada geral, onde sem dúvida não se percebia nada de diferente, Antônio foi abaixando pouco a pouco a cabeça, deixando o couro cabeludo se revelar. Com as mãos, foi afastando um pouco os cachos para ver a tragédia em toda sua completude. Um choque. Como não havia percebido aquilo antes, afinal? A sinuosidade dos cabelos encaracolados decerto vinham disfarçando a triste realidade, mas um olhar mais detido, como o que ele dava agora, era suficiente para perceber a lacuna, a clareira, o verdadeiro descampado que havia em seu couro cabeludo pateticamente branco, visivelmente mais pálido do que o resto de seu corpo. Calvo. Vinte e três anos e calvo, ridiculamente calvo. Calvo como nunca fora seu pai, como os dois avôs também nunca tinham sido. É certo que deve ter herdado um gene maldito de algum antigo ancestral, de algum maldito bisavô careca, que a uma hora dessas refestelava-se de alegria no caixão ou no inferno, orgulhoso da herança que tinha deixado ao bisneto. Justo a Antônio, o rapaz metido a comediante que tanta troça fazia de gordos, baixinhos, e por que não, carecas.

Olhou-se de novo no espelho. Dessa vez sem abaixar tanto a cabeça e, para falar a verdade, olhando até um pouco pra cima. Viu que nem tudo estava perdido. Era só  um esboço de calvície ou nem mesmo isso. Talvez só uma queda repentina, fruto de uma má ingestão de cálcio. Sim, ele vira algo parecido na tevê. Tomaria mais leite e os fios voltariam a crescer. E, além do mais, bastava ajeitar os cachos com a ponta dos dedos, que a clareira era coberta sem grande prejuízo ao conjunto. Era só preciso tomar cuidado para ninguém reparar, teria que garantir que nada estivesse a mostra. Chapéu? Era o chá dos carecas, diria o velho Antônio. Não, ele nunca usou chapéus, lhe pinicavam, lhe incomodavam, lhe faziam suar. Não, não era agora que usaria. E se não conseguisse esconder, como explicaria calvície tão prematura? Não, não precisaria explicar nada. Ele tomaria o devido cuidado até que tudo voltasse ao normal.

Foi por essa época que Antônio deixou de olhar pra frente.

Só olhava pros lados. Até então nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de espelhos. Os vidros fumês das lojas, os insulfilmes dos carros, as poças de água na rua e, por que não, as lentes dos óculos de seus interlocutores. Com a tola impressão de que as pessoas não reparavam, Antônio parava em absolutamente toda e qualquer superfície minimamente reflexiva e conferia se não faltava nada em seu couro cabeludo. Quase sempre faltava. E Antônio, sempre olhando pros lados para garantir privacidade, alinhava com os dedos os fios revoltos que, acidentalmente, haviam se deslocado do lugar de origem. Era sua famosa ajeitada, quase um tique nervoso recém adquirido. E assim, nova questão logo lhe ocorreu, se por um lado tinha que evitar a todo custo que qualquer pessoa reparasse no ridículo roçado que tinha sido aberto em sua cabeça, por outro lado, e com importância análoga, tinha que cuidar para que as pessoas não notassem suas cada vez mais constantes ajeitadas nos cachos. Não queria ser visto nem como careca, nem como esquisito. Por isso, a precaução se redobrou, se valia dos espelhos, sim, ajeitava os cachos, sim, mas com parcimônia e sobretudo com muita discrição, olhando sempre pros lados antes de cada nova investida capilar. Com o tempo, Antônio tornou-se perito nisso, valendo-se de técnicas cada vez mais sofisticadas como o uso da função selfie de seu aparelho celular, quando podia olhar-se a vontade para aquela sua nova versão de espelho, enquanto qualquer passante apenas pensava que se tratava de um jovem fotógrafo interessado em registrar a cidade.

O problema mesmo era quando ventava. Quando ventava  era realmente desafiador. Quando ventava, Antônio virava um verdadeiro autômato.  Não havia espelho que desse conta. A coisa virou intuitiva. A cada rufada, uma ajeitada. A cada ajeitada, uma rufada. A mão indo e voltando para o topo da cabeça num intervalo de microssegundos. Um movimento ridiculamente compassado e mecânico. Antônio estava se tornando o pior tipo de careca, o careca não assumido, aquele que Antônio sempre gozou em suas piadas. Aquilo não podia ficar assim. E o pior. Era nítido que suas ajeitadas não estavam mais sendo assim tão eficientes. Agora elas precisavam ser mais demoradas e meticulosas, uma bagunçadinha rápida já não bastava. Se pegava emprestado os cabelos de trás para cobrir os da frente, era o cocoruto que ficava desprotegido. Se puxava os cabelos das laterais para acobertar o topo desnudo, ficava com uma aparência bizonhamente artificial, um falso moicano completamente alheio aos seus costumes. Aquilo estava ficando realmente incontrolável, cada vez mais indisfarçável.

E assim passaram-se alguns anos, dois ou três, e Antônio ia tentando se adaptar àquela vida. É certo que não do jeito que mais gostaria. Os relacionamentos humanos minguaram nesse período. A calvice havia se escancarado. Antônio foi se retraindo, saia pouco de casa (os bicos de tradução que arrumou naqueles anos foram fundamentais em sua nova fase reclusa) e era conhecido pelos poucos que ainda o viam pelo singelo apelido de Che. Isso porque, coisa fácil de se supor, Antônio se rendeu ao desconforto seguro e passou a ser visto apenas de boina na cabeça, o que era bastante inconveniente no verão tropical em que vivia. Só em casa que era diferente. Em casa estava numa posição mais segura, com um espelho privativo sempre à disposição e as boinas eram dispensáveis. Foi quando numa tarde, num momento de pura distração e descuido quase infantil, Antônio se abaixou para pegar algo no chão. A mãe estava perto e viu. E ao ver, falou. Antônio, você está ficando careca, meu filho. E voltou aos seus afazeres, deixando Antônio desconsertado. Aquilo o apunhalou. A mãe decerto era a primeira de muitas pessoas que passariam a reparar em seu infortúnio. Não tinha mais volta. Foi quando decidiu pedir ajuda.

(…)

Na sala de espera do dermatologista chinês, Antônio brincava de adivinhar  as mazelas de cada um dos pacientes ao seu redor. Aquilo o acalmava, paciente sem paciência que era. Espinha. Pereba. Pereba. Espinha. Calvície. Pereba. Sem dúvida espinha. Calvície. Sem dúvida pereba. Eram dois calvos fora ele. Ambos uns quinze anos mais velhos ou mais. O mais azarado era ele mesmo. Pelo menos não tinha mais espinhas. Deus me livre ficar que nem o sujeito que está lendo a Contigo logo ali. Aquilo o acalmava. Dois perebentos mais tarde, Antônio foi chamado. Pode entrar, senhor Antônio, a recepcionista assim o disse. Se-nhor. O chamaram de senhor. Nunca antes na vida o haviam chamado de senhor. Tudo culpa daquela legítima vereda exposta em sua cabeça. Maldita recepcionista. Maldito bisavô careca.

Nem bem entrou no consultório e alguma coisa naquele médico despertou sua atenção. O chinês era absolutamente careca, nem um fio de cabelo. Aquilo não tinha começado bem. Não houve, entretanto, tempo para grandes lamentações. Antes mesmo de Antônio se sentar, o doutor foi tirando uma folha timbrada de um bloco e escrevendo com letras miúdas, porém legíveis: alopécia androgenética. Todo seu infortúnio rapidamente reduzido a apenas duas palavras. Alopécia Androgenética. E o chinês não parava de falar, sem olhar para Antônio, ia dizendo tudo aquilo que ele precisava parar de comer, todos os shampoos que precisava evitar, as boinas que jamais poderia usar e sobretudo, o remédio que teria que tomar, um miligrama por dia, por todos os dias de sua vida, se não quisesse perder o resto que tinha e, quem sabe, se tudo desse certo, se as recomendações fossem seguidas a risca, quem sabe assim uns trinta ou quarenta por cento do que já foi perdido talvez pudessem ser recuperados. Finasterida. Era o nome do remédio. E sim, é claro, não há remédio sem efeitos colaterais. Diminuição da libido, disfunção erétil e diminuição do volume ejaculado, estava lá escrito na bula, Antônio pôde conferir nela as palavras do doutor. Um cabeludo brocha, este era o futuro de Antônio.

Foi por essa época que Antônio voltou a olhar pra frente.

E tudo aconteceu logo após sua ida ao médico. Antônio saiu do consultório sem ter pronunciado uma palavra, já que o doutor careca jamais lhe deu a vez. Mal carimbou a receita e já foi chamando o próximo. Outro careca. Outro brocha que nem ele, coitado, logo ia descobrir. Antônio saiu triste, derrotado, guardou a boina na mochila e saiu pela rua com a cabeça desnuda. Era a primeira vez depois que a calvície havia se tornado indisfarçável. A careca estava ali, para quem quisesse ver, tão lustrosa e brilhante que poderia ser usada como espelho. Uma superfície perfeitamente polida, uma bola de bilhar que pedia pra ser alisada, acarinhada, por que não. E agora, pela primeira vez assim tão a mostra, tão a vontade, tão vulnerável, Antônio pôde sentir orgasmos capilares toda vez que uma rufada de vento entrava pelos seus poros livres. Na esquina, uma farmácia. A receita em suas mãos. Finasterida. Um miligrama. Trinta ou quarenta por cento de cabelos ou sua libido de volta. Se isso fosse mesmo bom, aquele chinês não seria careca, pensou, e com um movimento decidido rasgou de ponta a ponta a receita. Mil pedacinhos de Finasterida pelos ares. Sentiu-se nu, deliciosamente nu, um pelado sem culpa, vitimado por um gene que sabia das coisas. Oh! Bendito bisavô careca. As pessoas o olhavam, era difícil não se atentar para um sujeito em tamanho estado de êxtase, as mãos mecanicamente dirigindo-se à cabeça careca, os dedos alisando deleitosamente o topo nu. As pessoas o olhavam sim e eram gordos e eram feios e eram baixos e sim, também eram carecas, carecas de todos os tipos.

E Antônio, até então determinado a só olhar para os espelhos, nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de carecas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s