Gira-gira-pirilampo

O sangue escorre em grito mudo. Desfeito o coágulo, vaza o medo. Dispo a mancha, esparadrapo o peito, costuro o sorriso. Você corre e me acalma.

Passou. A voz ecoa longe, sem agudos. Eu sei, volta à noite, mas agora estamos sós. Dedos que zunem inventando histórias. Pés que giram, sobem nas pontas, se lançam ao ar. Sons desafinados de vontade.

Logo me torno escuro que não se importa, mas ainda enxergo. Dói não ver seu caminho. O absurdo do dia em que não estremeço com seu choro. O fio desatado, o nó esquecido. Você solto na claridade. Gira-gira-pirilampo-olha-a-luz-vai-se-queimar. E eu sem cabelos para afagar, sem perguntas desnudas. Sem nem chorar distâncias. Se faltam braços, falta tato para sentir ausência. Percebe a atrocidade?

Não quero que perceba. Menino que acredita em estrela ganha um ponto no céu. Para olhar, zelar, bisbilhotar, culpar. Você vai me odiar, um dia.

Estrela não abraça.

A serenidade de folha ao vento não é entrega, é apego. Aparece em mim, mas vem de você. Porque é na falta de continuidade que o egoísmo berra. Nesse mundo que orbita em torno do meu umbigo (o único que existe), você completa o vácuo. Fé pega, ou esfarelamos.

Não se zangue quando ele esvaziar meu armário. O que vivemos, sopro.

As roupas agora já me são estranhas. Nelas vejo olhos, mãos, o problema do que fazer com panos e couros e traças que esfriam de sentido e de mim. Acúmulos de vida e pó, a mesma massa. O chapéu desbeiçado de bons dias, o vestido de flores em tentativa de voltar os anos e agora transparente de descabimento. Sapatos feitos para andar.

De caixas abertas brotam suvenires de viagens apagadas. Pegue o que agradar, recorte e cole, distribua, venda sobras. Lembre-se: capim-cidreira em sachê perfuma e afasta insetos, depois mofa; o pequeno quadro da menina com o coelho passa de geração em geração sem dizer nada; já não se usam marfins, e paquidermes agradecem.

Não estranhe. Acenda a luz. Gire, por favor.

Foto: Bia Lopes em Flickr

(Foto: Bia Lopes em https://flic.kr/p/oMBhc)

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