Esperança

15892I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir. Eram gritos horripilantes, pareciam uivos de animal a beira da morte, testemunhou um vizinho. A rua estava cheia pra ver. Dois homens saíram de dentro carregando a maca. Marcas de arranhões por todo o corpo.

– O melhor plano de saúde é viver. 

O segundo melhor é Unimed.

Gritava. Debatia-se. Convulsionava. Os mais atentos juravam que entre um espasmo e outro podiam ouvir uma canção de letra ininteligível, porém cadenciada, que saia da boca babada da criatura na maca. A melodia, porém, podia ser facilmente reconhecida por qualquer um. Um jingle. Era isso. Não restava dúvidas de que aquelas notas compassadas eram de um hipnótico jingle publicitário.

II.

Tudo começou com a carta e isso faz muito tempo. O apresentador do programa televisivo a convenceu. Ele olhava tão profundamente em seus olhos e falava tão aos seus ouvidos, que ela ficaria até constrangida em lhe dizer não. Há muito que não lhe tratavam com tamanha intimidade e simpatia. Respondeu-lhe num sussurro que esperasse um segundo, que só se ausentaria para buscar logo ali caneta e papel. Gentil como ele só, passou a resolver ali no palco algumas amenidades, com o objetivo claro de matar o tempo e esperá-la. No intervalo de um suspiro, ela voltou. Anotou tudo, de modo quase mecânico. Amanhã mesmo a carta estaria nos correios.

– Colorado RQ – imagem e som de presença total 

com Reserva de Qualidade

III.

O único inconveniente era que não sabia exatamente o que pedir. Olhou ao redor e constatou que não precisava de nada. Vivia só e feliz desde a morte do marido e nunca foi mulher de grandes extravagâncias. O televisor tinha sido quase uma exigência da filha para que não se sentisse tão sozinha. Até então nunca tinha dado importância a essas tecnologias da moda. Pediria algo para os netos. Sim, para o par de netos recém-nascidos. Gêmeos. Que ótima ideia! Podia antegozar o momento em que o apresentador com aquela voz profundamente aveludada sortearia sua carta, entre aquelas milhares de cartas, e falaria seu nome e sobrenome para todo o país. Podia antegozar o momento em que ela seria chamada ao palco, profundamente bem iluminado, e veria surgir emocionada, de todos os cantos do estúdio, caixas e mais caixas de brinquedos, peças e mais peças de roupas, dos mais variados tipos de roupas, além do elegante mobiliário infantil que certamente viria a seguir. Como os netos ficariam felizes! Podia antegozar o sorriso de inveja das vizinhas, diante de tanta elegância que ela certamente demonstraria na tevê, ao lado daquele apresentador tão bem apessoado. Teria apenas, é claro, que passar a acompanhar aquele programa todos dias, não queria correr o risco de deixar passar aquela oportunidade por um mero descuido.

– Não adianta bater que eu não deixo você entrar,

 nas Lojas Pernambucanas você vai aquecer o seu lar!

IV.

Estava cumprindo suas promessas com diligência. Depositara a carta na manhã seguinte e no mesmo dia, pelo fim da tarde, deu inicio à sua rotina diária. 

– Lojas Cem: felicidade encontra também! 

Ainda bem que tem Lojas Cem!

V.

Ela estava convicta: Mariano devia morrer. Trair a esposa com a amiga do casal tinha sido demais. E os filhos, meu Deus? A menina dedicava profunda devoção ao pai e agora sofria este trauma! E o que faria Mercedes com a morte tão prematura de Emanuel? O acidente, aquele maldito acidente, tinha que acontecer justo agora em que ela descobrira que estava grávida? Próximo capítulo-próximo capítulo-próximo capítulo! Como eles querem que a gente aguente até o próximo capítulo?

– Guarde o nome, não se engane:

Groselha vitaminada Milani! 

Também com sabor morango e framboesa!

VI.

Aquilo estava demorando demais: a carta já tinha sido enviada há mais de um mês e nada dela ser sorteada, mas não perderia as esperanças. Por nada no mundo deixaria de acompanhar todos os dias aquele espetáculo de luzes e cores e sorrisos. O bom é que logo depois começava a novela das seis, uma ótima distração para se manter bem desperta até a hora de dormir. Tinha dias em que o capítulo estava tão empolgante, que não ousava se levantar para preparar o jantar. Jamais. Poderia perder momentos decisivos se cometesse uma tolice dessas. 

– Compre Baton, o seu filho merece Baton!

VII.

A era das compras começou um pouco depois disso. Era incrível o poder daqueles espremedores e batedeiras e misturadores e torradeiras. Como facilitavam a vida aqueles acendedores e fritadeiras e amaciadores e furadeiras. A apresentadora do Show da Tarde, tão distinta, tão moderna, tão inteligente, tinha a alertado para a necessidade de se adquirir aqueles maravilhosos eletrodomésticos, supra-sumo da modernidade vigente. 

– Pensou eletrodomésticos, lembrou Arapuã.

– Arapuã: ligadona em você!

E como se facilitava-parcelava-predatava. Os-dez-primeiros-que-ligarem-ainda-ganham-um-brinde. Era tudo realmente muito exclusivo! E agora que os netos já ganhariam o deles no Show de Prêmios podia aproveitar a aposentadoria e se presentear, por que não? Ela merecia! Foi quando as caixas começaram a chegar, uma-duas-três por mês, e era um tal de vizinho aparecendo na janela pra ver. Ver e babar, se envenenar de tanta inveja. Que delicia! E nem havia mais tanto espaço assim para guardar tudo aquilo, toda aquela modernidade exuberante. Paciência. Isso se resolveria depois. No Show da Manhã sempre havia um especialista em domesticidades que a ajudaria com esta questão menor. Uma pena que não soubesse usar nada daquilo. Mas havia de aprender. E como havia! 

– Instituto Universal Brasileiro:

Quem quer, consegue!

VIII.

Um ano e nada. Mandaria mais cartas. Umas quinze, vinte talvez. Aproveitou a data e foi naquela tarde mesmo aos correios. Voltou a tempo de acompanhar o sorteio daquele dia. Não foi dessa vez.

– Café Seleto tem sabor delicioso!

Cafezinho gostoso é o Café Seleto!

IX. 

Foi então que vieram os instaladores. Uma gangue de salteadores e estupradores e contrabandistas e malfeitores estavam dominando a cidade. Ela viu no Show de Horrores – edição da manhã e ficou estupefata, realmente alarmada. Não falou disso com os vizinhos, porque àquela altura já não conhecia mais nenhum. Precisava ficar atenta às noticias, às novidades, às variedades e não poderia perder tempo com trivialidades entre vizinhos. Contratou os instaladores. 

– Intelbras: seu patrimônio cercado de segurança!

Era até bonito de ver a exuberante cerca elétrica serpentando altiva ao redor de toda sua residência. E como eram fascinantes as câmeras de segurança. Instalaram quatro. Uma em cada canto do portão de entrada e também nos fundos. Agora tinha um canal em seu aparelho televisor dedicado apenas à transmissão dessas imagens. Como se sentia protegida! O bom era que nem precisava mais sair de casa para ver a rua, podia fazer isso do conforto de seu sofá, sem nem mesmo mexer os pés. 

– Eu quero imagens! Cadê as imagens?

– Bandido bom é bandido morto!

– Porrada nele! Porrada nele! Porrada nele!

X. 

O nome de hoje até parecia com o seu. A respiração ficou suspensa até o último sobrenome. Mas era outra a maldita pessoa da carta. Uma viagem pra Disney, uma maldita viagem pra Disney era sorteada e seus míseros chocalhos e carrinhos de bebê não. Cinco anos de espera. Ao menos a programação era bastante atraente e ela podia se distrair bem enquanto esperava.

– Atenção agora para o resultado parcial da

Tele-Sena de Páscoa: zero-um, zero-sete,

 treze, vinte e nove, trinta e dois e quarenta e cinco!

XI.

O apresentador do programa de variedades anunciou que o galã coadjuvante da novela das sete estava tendo um caso com a protagonista da novela das oito que era casada com o vilão da novela das seis que transava com o apresentador do programa de variedades que jurava até a morte que nem tinha entrado na história.

– Quem bebe Sukita não engole qualquer coisa!


XII.

Há anos que não recebia uma visita. A última tinha sido justamente a dos netos gêmeos, que há muito não cabiam em carrinhos de bebê e que não precisavam mais de chocalhos e ursinhos de pelúcia.  Ela não os deu muita atenção, é verdade. Nem percebeu quando eles saíram, atabalhoados, tropeçando em uma pilha de caixas de eletrodomésticos que nunca tinham sido abertas. Nada mais compreensível: estava muito ocupada, afinal, com os olhos vidrados e os ouvidos atentos no apresentador de voz decrépita e cabelos pateticamente grisalhos, que tinha a constrangedora mania de nunca pronunciar seu nome. 

– Lojas Marabraz: preço menor ninguém faz!

– Visa: onde você quiser estar!

– Heinz: ninguém faz melhor que Heinz!

XIII

Foi então que deram a noticia fatal – Doriana – Devido a problemas internos, – Coca Cola – Nestlé –  acarretados pela grande crise econômica pela qual passava o país – Havaianas – Mc Donalds – Folha de S. Paulo – tornava-se impossível à emissora – Nutella – Avon – Casas Bahia – Honda Civic – continuar com o tradicionalíssimo Show de Prêmios – Jequiti, jequiti, jequiti, jequiti…

___

I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir.

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Crédito da imagem:

Edvard Munch, litografia “O grito” (1900)

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