desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

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