A prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura

trevoDesde muito pequeno, Fortunato Dias de Ventura descobriu que tinha uma relação bastante estreita com a sorte. Foi logo em seu primeiro verão, na pequena cidade de Quimera, quando sua mãe lhe deixara desfrutar de seu primeiro picolé, que tal intimidade com as coisas do destino se revelou pela primeira vez. O menino refestelava-se com aquele bloco róseo de gelo, corante e açúcar (sobretudo açúcar, muito açúcar) quando sua mãe, a atordoada Sra. Lenora Dias, pôde ler no palito de madeira que o rebento tinha direito a outro sorvete igual aquele, numa daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece, mas que de fato, de verdade mesmo, ninguém nunca ganhou nada. A mãe, que aos trinta e tantos anos já se considerava pessoa bastante azarada, sobretudo quando se lembrava de suas escolhas matrimoniais (o que não vem ao caso neste relato) nunca tinha ganho nada nesta vida, além de maridos infames e contas para pagar. Enquanto pegava o menino lambuzado pelo braço e caminhava de volta à sorveteria para retirar o grande prêmio, lembrou-se da vez, muito parecida com aquela, em que era menina, cercada de outras tantas meninas, suas amigas, e dera um pulo de alegria ao perceber que tinha uma mensagem escrita no palito de sorvete. As meninas logo se acercaram e começaram a rir às gargalhadas, ao lerem que aquilo não dava direito a nada, a não ser a alguma sensação de consciência tranquila, já que o que estava escrito no pequeno palito lambuzado não era nada mais benfazejo do que um “Este palito foi feito com madeira de reflorestamento. Preserve a natureza: não o jogue em vias públicas”. A pobre Lenora, depois de meses sem ter coragem de botar a cara na rua, nunca mais dera bola para promoções e palitos. Até o dia em que nasceu o pequeno Fortunato Dias de Ventura.

O mais curioso, e o que talvez aqui ninguém acredite, é que o sorvete que Fortunato Dias de Ventura ganhou naquela manhã, também havia sido moldado em torno de um palito premiado, para grande azar do sorveteiro, que viu seu faturamento sensivelmente atingido por aquele acontecimento apoteótico. O fato é que a partir daquele dia todos os sorvetes que o menino ganhava vinham afortunadamente com o palito premiado (e olha que Fortunato gostava muito de sorvetes!). O dono da sorveteria, muito desconfiado, sensivelmente temeroso de sua falência iminente, teve como ideia abrir uma ou outra embalagem de sorvete, de modo aleatório, para ver se aquilo era mesmo sorte ou erro do fabricante, algum lote que viera desgraçadamente mais sortudo que os outros, quem sabe. Logo se viu, no entanto, que esta hipótese poderia ser facilmente descartada. O sorveteiro, a  esposa do sorveteiro e os netos do sorveteiro entupiram-se por dias e mais dias de sorvetes e de decepções, e nada mais liam ao final de cada uma daquelas guloseimas geladas, do que a decepcionante inscrição “tente outra vez” nos palitos de madeira. A tristeza estava estampada em seus rostos melados, sobretudo quando entre um fracasso e outro, viam entrar pela sorveteria aquela figura cada vez mais rechonchuda e rosada que apontava do colo da mãe para qualquer um dos picolés da geladeira que, invariavelmente, vinham premiados.

O sorveteiro, resignado, resolveu tirar proveito daquilo e apostou numa estratégia de marketing, palavra até então desconhecida entre os habitantes de Quimera. Botou na fachada da sorveteria, em letras vermelhas e garrafais, uma faixa com a seguinte inscrição “Sorvete premiado. O prêmio já saiu aqui 47 vezes!”. No começo até que deu certo. Os moradores de Quimera, sensivelmente atraídos por aquele dado expressivo e profundamente incomodados pelo forte calor que fazia naquele triste e tenebroso verão, fizeram filas na porta da sorveteria para adquirirem também o seu tão sonhado palito premiado. Só que todos os outros habitantes da cidade eram pessoas de sorte apenas mediana e, portanto, jamais conseguiam o direito a outro sorvete. Alguns saiam cabisbaixos, lamentando a pouca sorte, outros saiam furiosos, muito irritados, xingando o sorveteiro e toda sua família de embusteiros de uma figa, que não deviam brincar assim com a esperança das crianças. E foi assim que começou a guerra fria, a verdadeira, assim chamada pelo gelo com que os moradores de Quimera passaram a tratar toda a família do vendedor de gelados. Uma injustiça, é preciso que se diga, um comportamento realmente deplorável dessa gente, já que como se sabe, o sorveteiro não tinha poderes sobrenaturais que o permitisse conhecer de antemão onde estavam os palitos premiados. O único aspecto sobrenatural dessa história toda era realmente a prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura.

Chegou a hora, como haveria de chegar, que o menino cansou de tomar tanto sorvete e passou a recusar até mesmo os sabores mais extravagantes e açucarados, aqueles que sempre o atraiam. Seus pais resolveram então guardar como um troféu o último dos palitos premiados para se lembrarem no futuro daquela fase áurea do garoto. A sorveteria, no entanto, não resistiu ao verdadeiro boicote exercido por seus antigos clientes e fechou suas portas. O sorveteiro e sua família fizeram as malas e se mudaram para a Sibéria, de onde eram seus parentes mais próximos, e nunca mais voltaram para Quimera, de modo que nunca souberam que seu antigo estabelecimento havia se transformado numa espelunqueira lanchonete, dessas que mais parecem um botequim, com banquinhos no balcão e vitrine de coxinhas, torresmos e ovos azulados na entrada. O que distinguia o recente estabelecimento dos demais de sua espécie era a presença, um tanto sorrateira e disfarçada, nos fundilhos mesmo do recinto, já próximo aos banheiros, de uma bancada para o jogo do bicho, a nova tendência no submundo do entretenimento da cidade.

A viúva Noêmia nunca fora mulher de grandes vícios (e tampouco de grandes virtudes) mas apaixonou-se perdidamente pelo bicheiro, o atarracado Sr. Osório, desde a primeira vez que, saindo distraída do banheiro do bar, dera de cara com aquele sujeito que acabava de atender um cliente (um senhor que arriscou uma bolada no burro). Dona Noêmia, que era muito inteligente, decidiu apostar naquela relação e passou a frequentar o bar regularmente, nunca se esquecendo de fazer sua fezinha, nunca sem ver Osório. Isso seria apenas mais uma história, como tantas outras histórias, de alguém apaixonado que se vê cometendo insanidades nunca antes imaginadas, apenas pelo simples deleite de passar um tempo a mais ao lado da pessoa amada, não fosse a viúva Noêmia avó de um menino tão sortudo, o ditoso Fortunato Dias de Ventura, protagonista desta história.

Ciente das alvissareiras conquistas que o neto já realizara no mercado das guloseimas geladas, a viúva Noêmia resolveu contar com o garoto para suas ótimas intenções no mercado matrimonial. Todo sábado levava ao neto a cartela colorida do jogo de bicho e pedia ao menino rechonchudo que apontasse com os dedos para a imagem do animal que mais lhe apetecesse no momento, que fizesse uma escolha aleatória como outrora já fizera com os picolés. Não há quem não conheça a máxima que diz que um raio não cai mais de uma vez no mesmo lugar, mas como todos aqui já sabemos, essas coisas só funcionam para pessoas de fortúnio medíocre, como a grande maioria de nós. Para pessoas magistrais como Fortunato Dias de Ventura, o raio cai exatamente no local em que ele quiser e no momento em que ele quiser. Assim, como é fácil de se supor, a viúva Noêmia passou a ganhar no bicho absolutamente todos os sábados. E só não jogava todos os dias porque tinha pudores, tinha receio de que a boca pequena melasse o clandestino negócio de Osório, como já tinham feito antes com os açucarados sorvetes.

De tanto ganhar no bicho, a viúva Noêmia comprou uma modesta fazenda e chamou Osório para morar com ela. O atarracado Osório gostava muito de sua vida clandestina, sempre conhecendo gente nova, conversando com os apostadores de saída de banheiro, aquela gente aliviada que nunca fazia sua vida cair na rotina. Entretanto, a possibilidade de se unir a uma pessoa tão bem aventurada, tão primorosamente afortunada, fez com que Osório pesasse bem e decidisse pela vida no campo, longe dos bichos, ou melhor, longe do jogo do bicho e perto dos bichos de carne, osso e úberes e também perto da sorte da viúva Noêmia. Mas como a sorte de Noêmia não era de Noêmia, mas sim de seu neto, e como o seu neto não era algo que se pudesse carregar por aí, o interesseiro Osório acabou se desinteressando por Noêmia, que nunca mais ganhou nada fácil nessa vida, e viu o seu negócio agrário se desmoronando tão fácil quanto veio. Numa tarde de sábado, quando tudo parecia que não podia piorar, Osório caiu do burro. Era um burrinho pedrês, último bicho que sobrara na fazenda, já velho, sem dentes e que não aguentou o peso do atarracado Osório e o lançou longe. Osório morreu na hora e a viúva Noêmia ficou viúva de novo.

Enquanto isso, Fortunato Dias de Ventura crescia. Sua avó Noêmia foi morar com ele e com seus pais. A velhinha já não saia de casa, temerosa de se apaixonar de novo e de contrair uma nova viúves. Estava, digamos, um pouco confusa das ideias e passava o dia repetindo sequências de números e bichos e anotando obscuros hieróglifos em seu bloquinho cor de abóbora. Fortunato Dias de Ventura, agora um rapaz de pelos emergentes, olhava tudo aquilo muito assustado, mas buscava não contrariá-la. Deixava a velha senhora em paz – avestruz, águia, burro, borboleta – e saia todo dia para cuidar de sua própria sorte, sempre ao lado do pai, o agitado Sr. Eduardo de Ventura, porque a mãe, muito religiosa, não gostava de se envolver naqueles assuntos escusos, que já haviam levado à falência uma família de pessoas tão honestas, como era a do sorveteiro, além de ter deixado louca sua sogra, antes pessoa de ideias tão razoáveis, salvo pelo fato não desprezível de ter educado seu ignaro marido.

Se antes o menino Fortunato Dias de Ventura apenas se refestelava com inocentes picolés de palitos premiados ou gostava de apontar seu dedo roliço e rosado para uma cartela colorida cheia de animais – como teria gostado de fazer qualquer criança de dedos menos roliços e de sorte menos promissora – agora a coisa estava um pouco mais séria, um tanto mais profissional. O Sr. Eduardo de Ventura havia se tornado uma espécie de empresário, manipulando a sorte do filho em casas de apostas, em corridas de cavalos e até mesmo, por que não, no bingo da paróquia de nossa senhora de Monte Serrat, frequentado desde sempre pela Sra. Lenora (que se enchia de vergonha toda vez que via o marido, aquele desqualificado, chegando com o menino naquelas sagradas tertúlias dominicais). A estratégia do pai era bastante clara e sagaz. Por mais sorte que Fortunato tivesse, por mais certo que fosse que ele poderia ganhar o que quisesse e quantas vezes quisesse, isso não poderia acontecer sempre. A estupenda sorte chamaria muita atenção e poderia pôr a perder aquele negócio tão auspicioso. Então o segredo era manipular os palpites do rapaz e perder de vez em quando, às vezes até mesmo um dia inteiro, tudo para não causar suspeitas. Nesses dias inglórios, se Fortunato escolhia uma cartela, o pai logo tratava de substituí-la. Se o rapaz apostava num puro sangue lusitano, o pai declarava apoio a um quarto de milha qualquer. O segredo era sempre fazer apostas miúdas nestes casos de derrota certa e deixar os palpites polpudos para quando Fortunato tivesse a liberdade de escolha. Nessas horas eles quebravam a banca, como dizem nesses meios, e imediatamente voltavam pra casa, para grande desgosto de Fortunato, que não gostava de se ver tão castrado em suas venturas com o destino.

Nos primeiros meses do negócio a economia doméstica foi sensivelmente progredindo. A casa ganhou uma reforma de arquitetura primorosa, com três andares e um mirante com vista para as montanhas mais distantes. Até mesmo a viúva Noêmia saiu beneficiada dessa história toda. Construíram para ela um altar em um quartinho nos fundos da casa, onde ela adorava imagens em tamanho real dos vinte e cinco animais do jogo de bicho, inclusive o elefante que sozinho já ocupava quase a metade do ambiente. A velha senhora, cada vez mais enrugada e com olhar progressivamente mais sombrio, caminhava em círculos pelo recinto, carregando um castiçal de velas coloridas com nauseante odor de flores mortas. Repetia palavras impronunciáveis e quase não se alimentava mais. O prato de comida que a Sra. Lenora deixava todo dia na porta de seu quartinho, quase sempre voltava intocado. A mãe de Fortunato, aliás, a despeito do vertiginoso progresso econômico pelo qual passava sua família, não conseguia concordar com a origem sibilina daquela fortuna toda e se mantinha ainda mais afastada daquele ser abjeto que era seu marido, conforme ela fazia questão de lembrar. Aproveitando-se das grandes proporções que havia atingido sua residência e das grandes distâncias de corpos que isso proporcionava, certa vez mandou colocar os pertences de seu abominável cônjuge para fora do quarto e mandou a criatura se instalar em um dos novos dormitórios do terceiro andar, bem longe dela, que desde sempre havia se recusado a sair do térreo. Nem acreditava que depois de tantos anos conseguiria passar uma noite sem ter que ouvir aqueles barulhos – e os consequentes odores – que vinham dos mais recônditos buracos do marido.

Fortunato Dias de Ventura, por sua vez, a despeito de sua sorte tão prodigiosa, andava pela casa taciturno e cabisbaixo, tropeçando em trevos de quatro folhas que somente ele conseguia enxergar no jardim. Não tinha amigos e não ia para escola, já que o pai não queria que suas energias fossem desperdiçadas em expressões de álgebra e no estudo de línguas pouco úteis para os negócios do destino. O Sr. Eduardo de Ventura passava o dia longe do casarão, envolto em atividades nunca bem esclarecidas, sabido que sempre foi para todos que ele não trabalhava desde antes do nascimento do menino. A economia doméstica sempre fora capitaneada pela mãe, que mesmo agora com o advento dos prodigiosos desígnios do filho, continuava a produzir mandalas e filtros dos sonhos que vendia nas feiras de artesanato da cidade. O casarão passou tempos assim, da mais modorrenta rotina, com cada um de seus ocupantes suficientemente distantes uns dos outros, a ponto de mal se cumprimentarem quando, por ventura ou descuido, calhavam de se trombar em algum corredor. Com a vizinhança, tampouco, exerciam qualquer tipo de relacionamento desde os tempos já saudosos dos palitos de sorvete. A casa era uma ilha na cidade de Quimera e passaria despercebida pelos vizinhos, não fosse o quadradinho sempre iluminado do quarto da mãe no térreo, os estranhos ruídos que vinham do quartinho da viúva Noêmia nos fundos e as saídas furtivas do menino com o pai, sempre que este aparecia, vindo sabe-se lá de onde, mal a noite começava a se pronunciar, para buscar o menino e levá-lo cidade afora a fim de explorar sua estrondosa sorte.

Certa vez, no entanto, o Sr. Eduardo de Ventura não apareceu para buscá-lo. A lua aparecia no céu de Quimera e Fortunato já se mortificava ante a perspectiva de mais uma noite perdida em casas de apostas e mesas de pôquer. Chegou até mesmo a dormir no banco de cimento diante do portão do casarão, onde sempre esperava seu pai. Mas naquela noite ele não apareceu. E tampouco apareceu na noite seguinte e sequer mandou algum recado para explicar suas ausências nas noites e noites seguintes. Fortunato, sempre obediente, não deixou de esperá-lo, noite após noite, diante do casarão. Sua mãe, compadecida e sempre em silêncio, aparecia de tempos em tempos com um prato de comida, um cobertor para as noites frias e depois de algumas semanas, quando percebera que o filho passara a dormir a madrugada toda ao relento, trouxera-lhe um de seus filtros dos sonhos, para lhe proteger a noite.

Passados três ou quatro meses de espera ininterrupta, certa noite o menino foi novamente surpreendido pela figura da mãe, que de camisola branca e com uma vela na mão, apareceu diante dele, que já dormitava no banco de pedra, ao relento, e pronunciou solene “Já não se ouve mais nada. Ela também se foi”. Fortunato olhou para mãe confuso, sem saber se estava acordado ou ainda dormindo, mas logo deu-se conta de que tudo estava num absoluto silêncio, um silêncio inaudito, como há anos não se fazia. Já não se escutava mais os incompreensíveis murmúrios da viúva Noêmia. No quartinho dos fundos, apenas as chamas de velas pela metade e o olhar penetrante de vinte e cinco animais que agora poderiam dormir tranquilos.

Muito se especulou sobre o sumiço repentino da viúva Noêmia. A reinauguração do silêncio não poderia passar incólume na pequena Quimera, já que os murmurosos lamentos da velha senhora podiam ser escutados até mesmo das cidades vizinhas, assim como se podia sentir de longe o cheiro nauseabundo de suas velas coloridas. Alguns afirmavam, e juravam certeza, de que tinham avistado a viúva Noêmia se esvanecendo como fumaça, pela chaminé nos fundos do casarão, até se perder entre as nuvens mais distantes do céu noturno. Outros juravam que tinham visto Noêmia em uma praia do Marrocos, comprando tapetes e outras quinquilharias junto a um bem apessoado senhor, que muito parecia ser o pai de Fortunato Dias de Ventura. Nada disso, porém, conseguiu alterar a rotina de Fortunato, que noite após noite, sempre no mesmo horário, se punha diligente diante do portão de ferro para esperar atento o seu tão demoroso pai.

O tempo fizera do casarão um prédio decrépito e cinzento. A despeito da imensidão da casa e do pó que se acumulava nos móveis, a ponto de não ser mais possível vê-los, a mãe se recusara a ceder às pressões da especulação imobiliária. Em todos aqueles anos, após o sumiço do marido e da viúva Noêmia, sempre a atormentavam com milionárias propostas de compra do antigo imóvel, para construir em seu lugar um gigantesco shopping center, o arauto da modernidade que teimava  em contaminar a pequena Quimera. Os anos haviam passado e a sorte de Fortunato Dias de Ventura há tempos que não dava mostra de sua portentosa presença.  Há anos que ele não entrava em casa, temeroso de que o pai podia aparecer em algum momento de descuido, para se valer uma vez mais de sua prodigiosa sorte. A Sra. Lenora, mesmo com o alivio que sentia pela ausência do marido, passou a dormir ela também todas as noites ao relento, ao lado de Fortunato, o acompanhando naquela espera, revezando com o filho os momentos de sono e vigília. Certa vez, enquanto Fortunato dormia com a cabeça em seu colo, reparou que pela primeira vez na vida se sentia cansada. Olhou para as mãos, com a atenção que nunca costumava olhar, e notou que tinham lhe aparecido manchas marrons e veias calibrosas, que a vida sempre tão agitada e envolta no mais rigoroso trabalho, a tinha impedido de perceber. Ela envelhecera. Olhou também para as mãos do filho, para seus dedos magros de unhas encravadas e lembrou-se do menino de dedos roliços que apontavam certeiros para sorvetes de palitos premiados. Ele também envelhecera. Estavam velhos e sós, em uma cidade que não mais lhes pertencia. Eram somente os dois naquele imenso casarão abandonado, cercado por filtros dos sonhos e lembranças. Foi quando Lenora recordou-se da única boa ideia que seu desprezível marido um dia já teve na vida, que foi a de guardar como lembrança o último dos palitos premiados, na época em que o pequeno Fortunato Dias de Ventura passou a se desinteressar por sorvetes.

Na manhã seguinte, ainda antes do sol aparecer por inteiro no céu de Quimera, Fortunato Dias de Ventura despertou com o toque suave de sua mãe em seus cabelos ralos e grisalhos. Nem bem Fortunato a olhou e já compreendeu tudo. A Sra. Lenora lhe disse de forma terminante, sem margem para contestações “Vamos, venha comigo. Ele já não voltará mais”. Fortunato a olhou sério, tão fundo como jamais a tinha olhado, e nem por um segundo pôs em dúvida as palavras da mãe. Reparou que ela trazia o velho palito premiado nas mãos. A sorte é que essa era uma daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece e que nunca, absolutamente nunca acabam. E foi por isso, que mesmo quarenta e tantos anos depois, que Fortunato Dias de Ventura pôde entrar novamente em uma sorveteria, ao lado de sua mãe, para trocar um palito premiado por um sorvete. O já alquebrado Sr. Fortunato  hesitou um pouco diante da geladeira de picolés, com sabores ainda mais açucarados que os de sua infância, e resolveu não titubear muito, dando apenas vazão a sua antiga intuição. Escolheu o seu favorito, o de groselha, e saiu com sua velha mãe em direção à praça, onde sentaram no mais absoluto silêncio para tomar sorvete e mais nada, destreinados que estavam da prática do diálogo. Foi então, passadas algumas bocadas, dadas com cautela já que os dentes de Fortunato já não suportavam mais aquelas baixas temperaturas, que ele pôde ver incrédulo, que nenhuma letra havia impressa naquele palito totalmente desprovido de sorte, adornado apenas pelo logotipo da centenária fábrica de sorvetes de Quimera. A mãe não se assombrou. Pelo contrário, sem dizer uma só palavra, mas com o olhar que tudo evidencia, parecia já saber desde sempre que nada daquilo importava. Foi então que Fortunato Dias de Ventura olhou fundo nos olhos da mãe e se lembrou de tudo, de sua presença muda, porém tenaz, absolutamente eterna, até mesmo nos atos menos venturosos de sua vida. Foi quando teve a certeza, como jamais tivera antes, de que tinha realmente uma sorte prodigiosa.

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Enquanto o infarto não vem…

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Preciso desabafar. Ontem mesmo eu vi uma reportagem no jornal das dez dizendo que é muito importante desabafar, que as pessoas que não desabafam são mais propensas a desenvolver toda sorte de úlceras e cânceres, então eu vou desabafar, preciso falar, falar tudo, porque eu sou muito jovem e não quero ter câncer, não agora, quer dizer, não quero ter câncer nunca, Deus me livre! Um momentinho… tem alguma coisa de madeira neste ônibus? Preciso bater três vezes na madeira para afastar esses pensamentos, ah, eu nem devia ter pronunciado essa palavra, ontem mesmo, depois do noticiário eu fui dar uma coçadinha no pescoço, assim, como quem quer apenas ocupar um pouco os dedos, e senti um negocinho, um carocinho sabe? Hoje parecia até um pouco maior, talvez seja só uma saliência do osso, não sei, mas é justamente sobre isso que preciso desabafar. Não, não sobre as saliências dos ossos, mas sobre o fato de que sou muito influenciável, muito impressionável com as desgraças alheias, sabe? Sim, principalmente quando fico sabendo que alguém morreu, principalmente se quem morreu tiver mais ou menos a minha idade e mais ou menos meu tipo físico. Sim, é só eu ficar sabendo que alguém morreu, que começo a sentir todos os sintomas que levaram aquela pessoa a morte. É terrível! Tudo começ… sim, claro, vai lá, eu espero, segurar essas coisas é terrível, meu tio mesmo… bom, vai lá, vai lá, eu espero…

(…)

Imagine, essas coisas demoram mesmo, e ainda mais naquele aperto todo, com tudo chacoalhando, a gente vai pensando que vai ser rápido, mas sempre tem uma surpresa que faz a coisa ficar demorada, né, ah, me desculpe, é que eu já sofri muito com isso, quando soube que meu tio estava com pedras e urrava de dor sempre que ia mijar. Foi só saber disso que passei a ir ao banheiro de cinco em cinco minutos e sempre sentia um ardorzinho, uma pontada aguda em todo o canal da uretra, sabe… isso só foi passar quando fiquei sabendo de outra tragédia, do aborto espontâneo da minha vizinha, você acredita que comecei a sentir um rebuliço enorme na região do baixo ventre? Sim, é claro que sei que não tenho útero. É claro que sei que nenhum homem tem útero, e nem ovários e nem trompas de falópio, nem nada disso… sim, sim, eu vivo pesquisando na internet o nome dessas coisas todas, a gente precisa conhecer bem o nosso corpo, né? A gente nunca sabe que surpresas pode ter no dia de amanhã… enfim, eu dizia que por mais que não tivesse um útero, me imaginei tendo as dores no meu, digamos, útero virtual, na região em que eu teria um útero se eu fosse mulher, sabe? Não sei se estou sendo claro. Isso é horrível, horrível mesmo e é por isso que eu preciso desabafar. Eu não quero ter câncer. Não, jamais. Então eu preciso falar, falar, falar… mas eu ia dizer que tudo começou com o infarto do meu avô. Eu era menino ainda, tinha 14 ou 15 anos, não me lembro bem agora, devo estar com alzheimer, ultimamente eu não consigo me lembrar de nada direito, troco tudo, mas foi ainda adolescente que eu soube que eu estou destinado, fadado, sentenciado a morrer de infarto. É uma tradição familiar, pelo lado paterno, e que eu desconhecia totalmente até aquela data. Meu avô, meu bisavô, meu tataravô e toda uma linhagem a perder de vista havia morrido de infarto no miocárdio. Meu pai já tomava remédios a tempos e nunca me disse nada, imagine que vantagens eu teria se já tivesse me precavendo desde o nascimento? Sim, um belo dia meus antepassados estavam tranquilos em suas casas, ou na rua ou trabalho, vivendo apenas mais um dia, como tantos desses que venho vivendo e que vão se escasseando agora mesmo enquanto falo com você, e sentiram uma dorzinha, uma pontada, uma explosão dentro do peito e depois mais nada. E desde esse dia… sim, claro, pode ser importante, atenda, pode ter acontecido um acidente, uma tragédia, pode ser seu filho te ligando debaixo de algum escombro, Deus me livre, mas tudo pode acontecer, sim, atenda, eu espero, valha-me Deus…

(…)

Ah, que bom que era só telemarketing, digo, eu também odeio telemarketing, por mim morriam todos, quero dizer, não morrer-morrer, mas apenas sumir um pouco ou só deixar de encher meu saco que já estava bom, mas podia ser coisa pior né, a violência dessa cidade está terrível, mas eu dizia, sim, eu dizia que depois que soube que vinha de uma família de infartados, vivo sentindo uma dorzinha no peito, um incômodo. Em geral isso passa logo depois de ir ao banheiro, sabe como é, né, mas eu sempre penso que estou morrendo quando começo a sentir aquele incomodozinho aqui entre as costelas, bem na base do coração. Toda vez eu penso que enfim chegou a hora, que vou começar a ver tudo turvo, minha vida toda passando pelos olhos como num filme e aquela ladainha toda que ninguém sabe se é verdade porque nunca ninguém voltou pra contar. Meu médico não aguenta mais me ver chegando no consultório, com a mão no peito e cara de infartado e sair de lá com olhar aliviado depois de levar uns bons apertões na pança. Mas eu posso fazer o quê, né, se tenho essa linhagem maldita, essa tendência irreversível ao infarto, à morte prematura, a deixar a vida antes de tê-la vivido como eu gostaria, a minha vida agora é assim, é todo dia acordando com a expectativa de que aquele pode ser o último, o famoso dia do infarto, vai se fazer o que, né, enquanto o infarto não vem a gente vai levando como pode, se distraindo como pode, sempre achando que está doente, irremediavelmente doente… ainda se não me contassem de tantas tragédias, de tantas doenças estranhas, coisas do capiroto mesmo, você lembra aquela atri… ah, sim, que pena… digo que bom pra você que chegou, que pena pra mim que ainda vou pipocar em um monte de cidadezinhas que nem sei o nome, antes de chegar na casa dos velhos, sim dos meus pais, você acredita que o velho ainda não morreu? É sério. Tem 94 anos e o infarto dele ainda não chegou…  ah, mas vai chegar, tenho certeza, não dou mais dez anos pra isso acontecer, sou de uma família de infartados, você sabe, isso não vai demorar pra acontecer! 94 anos! Deve ser horrível viver tanto, né? Será que isso é genético, dona, será que vou viver que nem meu pai, esperando dia após dia pelo infarto, sempre aquelas pontadinhas até os 94 anos? Ainda nem cheguei nos setenta, meu Deus, o que vou fazer até lá, enquanto o infarto não vem? Que outras doenças será que ainda vou ter, hein, moça!? Ah, sim, claro, o motorista já está impaciente, corre lá dona, é horrível ficar esperando…

Nada se moverá

tumblr_oqtp9ez5fZ1uhtmvho1_1280Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões. Ninguém a vê porque é madrugada, o parque está fechado e sabe-se lá porque este brinquedo está funcionando. As luzes do trenzinho são coloridas e não ficam menos vibrantes porque há uma menina morta dentro dele. Dona Maria, do prédio em frente, está dormindo, mas se lhe ocorresse acordar e abrir a janela, veria como dançam as luzes do trenzinho na madrugada, em plena escuridão, uma única linha contendo todas as cores do mundo, serpenteando insone por cima das cordilheiras sintéticas do parque. Mas Dona Maria não acordará. A noite está muito fria e ela dormirá sem culpas, o som do trenzinho a lhe embalar os melhores sonhos. Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões e nada, absolutamente nada, se moverá diferente por causa disso.

Há uma menina nua na tela do computador pessoal do vigilante do parque. A imagem está congelada mas ao redor dela tudo treme. Tremem os clipes de papel espalhados na mesa, tremem as canetas dispersas, treme o café frio dentro da xícara, tremem as chaves dos brinquedos atiradas sobre a pilha de relatórios. Treme também a foto da menina no porta-retratos em cima da mesa e que parece olhar para os olhos absortos do vigilante do parque, seu pai, o homem de mãos agitadas e decididas que fazem tudo ao redor tremer. O que também treme, só que de frio, é a menina que passa ao redor da guarita do vigilante do parque e o paralisa. É madrugada. O vigilante não sabe o que aquela menina faz ali e não faz a menor questão de saber. O parque está deserto e ele se enche de ideias. A menina é magra, suja, está quase nua e tem olhos alienados, mas tampouco com isso o vigilante se importa. O que realmente lhe interessa é que ela faria tudo por mais uma pedra de crack.

Há algumas meninas magras em frente ao tosco caixão da prefeitura. Ele é tão frágil que parece que vai se esfacelar ao menor contato. Elas também. São as únicas ali e olham absortas para o movimento elíptico que faz a pá do coveiro entre o monte de terra e o caixão da menina que não voltou do parque. A pá é fincada na terra, se enche toda, descreve uma curva no ar, esvazia-se na cova e retorna célere ao monte de terra. O movimento é rápido e repetido muitas vezes, tantas vezes que aquilo as hipnotiza. Logo serão elas que estarão ali e disso até o coveiro sabe. Aliás, todo mundo sabe e isso é mais previsível do que o movimento que faz a pá do coveiro. Algumas terão morte bem lenta, algumas serão violentadas até o fim, algumas sofrerão repetidas pancadas na cabeça por vigias desesperados, e logo, muito logo, todas elas estarão mortas. E sendo as meninas quem são, nada disso passará de mero acidente, nada disso sairá no jornal. Hoje é sábado e o parque está cheio. O vigilante está bem disposto e tudo seguirá como sempre. Nada se moverá.

desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

Esperança

15892I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir. Eram gritos horripilantes, pareciam uivos de animal a beira da morte, testemunhou um vizinho. A rua estava cheia pra ver. Dois homens saíram de dentro carregando a maca. Marcas de arranhões por todo o corpo.

– O melhor plano de saúde é viver. 

O segundo melhor é Unimed.

Gritava. Debatia-se. Convulsionava. Os mais atentos juravam que entre um espasmo e outro podiam ouvir uma canção de letra ininteligível, porém cadenciada, que saia da boca babada da criatura na maca. A melodia, porém, podia ser facilmente reconhecida por qualquer um. Um jingle. Era isso. Não restava dúvidas de que aquelas notas compassadas eram de um hipnótico jingle publicitário.

II.

Tudo começou com a carta e isso faz muito tempo. O apresentador do programa televisivo a convenceu. Ele olhava tão profundamente em seus olhos e falava tão aos seus ouvidos, que ela ficaria até constrangida em lhe dizer não. Há muito que não lhe tratavam com tamanha intimidade e simpatia. Respondeu-lhe num sussurro que esperasse um segundo, que só se ausentaria para buscar logo ali caneta e papel. Gentil como ele só, passou a resolver ali no palco algumas amenidades, com o objetivo claro de matar o tempo e esperá-la. No intervalo de um suspiro, ela voltou. Anotou tudo, de modo quase mecânico. Amanhã mesmo a carta estaria nos correios.

– Colorado RQ – imagem e som de presença total 

com Reserva de Qualidade

III.

O único inconveniente era que não sabia exatamente o que pedir. Olhou ao redor e constatou que não precisava de nada. Vivia só e feliz desde a morte do marido e nunca foi mulher de grandes extravagâncias. O televisor tinha sido quase uma exigência da filha para que não se sentisse tão sozinha. Até então nunca tinha dado importância a essas tecnologias da moda. Pediria algo para os netos. Sim, para o par de netos recém-nascidos. Gêmeos. Que ótima ideia! Podia antegozar o momento em que o apresentador com aquela voz profundamente aveludada sortearia sua carta, entre aquelas milhares de cartas, e falaria seu nome e sobrenome para todo o país. Podia antegozar o momento em que ela seria chamada ao palco, profundamente bem iluminado, e veria surgir emocionada, de todos os cantos do estúdio, caixas e mais caixas de brinquedos, peças e mais peças de roupas, dos mais variados tipos de roupas, além do elegante mobiliário infantil que certamente viria a seguir. Como os netos ficariam felizes! Podia antegozar o sorriso de inveja das vizinhas, diante de tanta elegância que ela certamente demonstraria na tevê, ao lado daquele apresentador tão bem apessoado. Teria apenas, é claro, que passar a acompanhar aquele programa todos dias, não queria correr o risco de deixar passar aquela oportunidade por um mero descuido.

– Não adianta bater que eu não deixo você entrar,

 nas Lojas Pernambucanas você vai aquecer o seu lar!

IV.

Estava cumprindo suas promessas com diligência. Depositara a carta na manhã seguinte e no mesmo dia, pelo fim da tarde, deu inicio à sua rotina diária. 

– Lojas Cem: felicidade encontra também! 

Ainda bem que tem Lojas Cem!

V.

Ela estava convicta: Mariano devia morrer. Trair a esposa com a amiga do casal tinha sido demais. E os filhos, meu Deus? A menina dedicava profunda devoção ao pai e agora sofria este trauma! E o que faria Mercedes com a morte tão prematura de Emanuel? O acidente, aquele maldito acidente, tinha que acontecer justo agora em que ela descobrira que estava grávida? Próximo capítulo-próximo capítulo-próximo capítulo! Como eles querem que a gente aguente até o próximo capítulo?

– Guarde o nome, não se engane:

Groselha vitaminada Milani! 

Também com sabor morango e framboesa!

VI.

Aquilo estava demorando demais: a carta já tinha sido enviada há mais de um mês e nada dela ser sorteada, mas não perderia as esperanças. Por nada no mundo deixaria de acompanhar todos os dias aquele espetáculo de luzes e cores e sorrisos. O bom é que logo depois começava a novela das seis, uma ótima distração para se manter bem desperta até a hora de dormir. Tinha dias em que o capítulo estava tão empolgante, que não ousava se levantar para preparar o jantar. Jamais. Poderia perder momentos decisivos se cometesse uma tolice dessas. 

– Compre Baton, o seu filho merece Baton!

VII.

A era das compras começou um pouco depois disso. Era incrível o poder daqueles espremedores e batedeiras e misturadores e torradeiras. Como facilitavam a vida aqueles acendedores e fritadeiras e amaciadores e furadeiras. A apresentadora do Show da Tarde, tão distinta, tão moderna, tão inteligente, tinha a alertado para a necessidade de se adquirir aqueles maravilhosos eletrodomésticos, supra-sumo da modernidade vigente. 

– Pensou eletrodomésticos, lembrou Arapuã.

– Arapuã: ligadona em você!

E como se facilitava-parcelava-predatava. Os-dez-primeiros-que-ligarem-ainda-ganham-um-brinde. Era tudo realmente muito exclusivo! E agora que os netos já ganhariam o deles no Show de Prêmios podia aproveitar a aposentadoria e se presentear, por que não? Ela merecia! Foi quando as caixas começaram a chegar, uma-duas-três por mês, e era um tal de vizinho aparecendo na janela pra ver. Ver e babar, se envenenar de tanta inveja. Que delicia! E nem havia mais tanto espaço assim para guardar tudo aquilo, toda aquela modernidade exuberante. Paciência. Isso se resolveria depois. No Show da Manhã sempre havia um especialista em domesticidades que a ajudaria com esta questão menor. Uma pena que não soubesse usar nada daquilo. Mas havia de aprender. E como havia! 

– Instituto Universal Brasileiro:

Quem quer, consegue!

VIII.

Um ano e nada. Mandaria mais cartas. Umas quinze, vinte talvez. Aproveitou a data e foi naquela tarde mesmo aos correios. Voltou a tempo de acompanhar o sorteio daquele dia. Não foi dessa vez.

– Café Seleto tem sabor delicioso!

Cafezinho gostoso é o Café Seleto!

IX. 

Foi então que vieram os instaladores. Uma gangue de salteadores e estupradores e contrabandistas e malfeitores estavam dominando a cidade. Ela viu no Show de Horrores – edição da manhã e ficou estupefata, realmente alarmada. Não falou disso com os vizinhos, porque àquela altura já não conhecia mais nenhum. Precisava ficar atenta às noticias, às novidades, às variedades e não poderia perder tempo com trivialidades entre vizinhos. Contratou os instaladores. 

– Intelbras: seu patrimônio cercado de segurança!

Era até bonito de ver a exuberante cerca elétrica serpentando altiva ao redor de toda sua residência. E como eram fascinantes as câmeras de segurança. Instalaram quatro. Uma em cada canto do portão de entrada e também nos fundos. Agora tinha um canal em seu aparelho televisor dedicado apenas à transmissão dessas imagens. Como se sentia protegida! O bom era que nem precisava mais sair de casa para ver a rua, podia fazer isso do conforto de seu sofá, sem nem mesmo mexer os pés. 

– Eu quero imagens! Cadê as imagens?

– Bandido bom é bandido morto!

– Porrada nele! Porrada nele! Porrada nele!

X. 

O nome de hoje até parecia com o seu. A respiração ficou suspensa até o último sobrenome. Mas era outra a maldita pessoa da carta. Uma viagem pra Disney, uma maldita viagem pra Disney era sorteada e seus míseros chocalhos e carrinhos de bebê não. Cinco anos de espera. Ao menos a programação era bastante atraente e ela podia se distrair bem enquanto esperava.

– Atenção agora para o resultado parcial da

Tele-Sena de Páscoa: zero-um, zero-sete,

 treze, vinte e nove, trinta e dois e quarenta e cinco!

XI.

O apresentador do programa de variedades anunciou que o galã coadjuvante da novela das sete estava tendo um caso com a protagonista da novela das oito que era casada com o vilão da novela das seis que transava com o apresentador do programa de variedades que jurava até a morte que nem tinha entrado na história.

– Quem bebe Sukita não engole qualquer coisa!


XII.

Há anos que não recebia uma visita. A última tinha sido justamente a dos netos gêmeos, que há muito não cabiam em carrinhos de bebê e que não precisavam mais de chocalhos e ursinhos de pelúcia.  Ela não os deu muita atenção, é verdade. Nem percebeu quando eles saíram, atabalhoados, tropeçando em uma pilha de caixas de eletrodomésticos que nunca tinham sido abertas. Nada mais compreensível: estava muito ocupada, afinal, com os olhos vidrados e os ouvidos atentos no apresentador de voz decrépita e cabelos pateticamente grisalhos, que tinha a constrangedora mania de nunca pronunciar seu nome. 

– Lojas Marabraz: preço menor ninguém faz!

– Visa: onde você quiser estar!

– Heinz: ninguém faz melhor que Heinz!

XIII

Foi então que deram a noticia fatal – Doriana – Devido a problemas internos, – Coca Cola – Nestlé –  acarretados pela grande crise econômica pela qual passava o país – Havaianas – Mc Donalds – Folha de S. Paulo – tornava-se impossível à emissora – Nutella – Avon – Casas Bahia – Honda Civic – continuar com o tradicionalíssimo Show de Prêmios – Jequiti, jequiti, jequiti, jequiti…

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I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir.

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Crédito da imagem:

Edvard Munch, litografia “O grito” (1900)

Dossiê Marco – Operação Saideira

marco

DO DIÁRIO DE MARCO, 15 DE JULHO DE 2013

Todas as escolhas que já fiz na vida combinam perfeitamente bem com cerveja. E com maconha também, é verdade, mas vou me ater à cerveja. Se eu fosse boêmio ou minimamente conseguisse tomar álcool sem ter a sensação de que estou tomando um remédio, e veja bem, não qualquer remédio, mas um remédio amargo, desses que a gente só toma quando é estritamente necessário, eu ia achar isso muito bom, realmente muito vantajoso. Mas não. Absolutamente não é assim. Eu preciso confessar, e minha crescente covardia só me permite fazê-lo aqui, que é absolutamente penoso para mim engolir um copo de cerveja e, se o faço – e sim, o faço – é apenas porque quero ser sociável, quero ter amigos, ser aceito num desses grupos de valdevinos que escolhi pra mim.


DA AGENDA DO CELULAR DE MARCO, SEMANA DE 14 A 20 DE JULHO DE 2013

  • dom_14:

14:00 – Encontro com o grupo de teatro (levar as coisas do Chico)

17:00 – Niver do Tuco no Bar da Ieda

  • qua_17:

21:00 – Futebol na TV (comprar comida)

  • qui_18:

19:00 – Oficina de escrita criativa (fazer o exercício do Caetano)

21:00 – Leitura de poemas no Bar do Tim

  • sáb_20:

11:00 – Oficina de escrita criativa

14:00 – Sarau

21:00 – Niver da Cecilia no Bar da Glória


DO DIÁRIO DE MARCO, 18 DE JULHO DE 2013

Acho que começo a perceber alguns padrões nos hábitos de meus amigos. Digo de meus amigos, mas talvez isso possa se estender a qualquer tomador de cerveja. Quando alguém te convida para assistir a uma partida de futebol, porque sim, esta pessoa é sua amiga e sabe que você gosta de futebol, na verdade esta pessoa está te convidando para tomar cerveja e para fumar maconha – mas vou me ater à cerveja, acho que já disse isso antes. Quando você chegar ao local combinado, todos estarão paramentados, é verdade, com a camisa de seus times de coração e você ficará empolgado com isso. Valeu a pena ter deixado o conforto de seu sofá para ver o jogo com pessoas tão animadas, com verdadeiros torcedores. Mas quando estiver chegando a hora do jogo e você ficar ansioso com a proximidade da peleja – afinal, você ingenuamente pensa que está ali para ver a uma partida de futebol – os torcedores já estarão tão animados consigo mesmos e com todos os preparativos que envolvem a partida, que provavelmente se esquecerão de ligar a tevê. Você, que gosta de futebol e que está ali para ver futebol e que até já tinha se programado todo para ver a partida no conforto de seu lar, provavelmente se sentirá constrangido em atrapalhar toda aquela alegria, em ser o único preocupado com uma coisa tão menos importante como uma partida de futebol. Provavelmente encherá seu copo e se unirá a turba de torcedores elevados, que não precisam de uma partida para torcer. Negará até a morte que você não está imensamente feliz com toda aquela patuscada, mas ficará atento a cada mínimo sinal de fogos que venha do vizinho – e como você ficaria feliz em ser amigo do vizinho nessas horas. É verdade que tudo pode ocorrer de uma forma um pouco menos drástica. Sempre pode haver um tio que se lembrará de ligar a tevê. Mas você pode ter certeza de que ela será uma tevê de tubo, de catorze polegadas, cheia de chuviscos – minorados talvez pelo chumaço de bom bril xuxado em cada haste de uma antena piramidal – e que provavelmente ficará lá esquecida em algum canto, longe o suficiente para que seu constrangimento e seu incorrigível senso de sociabilidade permita que você se aproxime.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 14 DE AGOSTO DE 2013

Eu juro que já tentei de tudo, doutora, mas a verdade é que não consigo me envolver com outro tipo de gente, com gente mais Fanta Uva, se é que a senhora me entende. Me chame de preconceituoso, doutora, mas ou você bebe Fanta Uva ou você é legal. Eu sou uma completa aberração. Alguma coisa certamente deu errado em algum ponto de minha formação. Eu bebo Fanta Uva E sou legal. Ao menos é assim que eu me vejo. Jamais, doutora. Ninguém jamais pode saber que eu faço isso e espero que a senhora mantenha essa informação no mais absoluto sigilo. Estou certo que o fará. Se não posso confiar numa doutora, em quem poderei confiar, não é mesmo? Faço tudo escondido, na calada da noite, bem longe dos meus amigos. E que delícia que é botar aquele treco roxo na boca, a sensação inebriante daquelas bolinhas descendo goela a baixo. A senhora toma Fanta Uva, doutora? Bom, não importa, mas estou certo de que não toma. Logo se nota de que a senhora é uma pessoa agradável. Esses dias li uma reportagem alertando para o risco de se ter câncer ao se consumir Fanta Uva. O cara que disse isso só pode ser do tipo que toma Fanta Uva, gente chata pra caralho. Eu nunca consegui me envolver com esse tipo de gente. Veja bem, na escola eu até tentei e era confortável. A gente se reunia e podia tomar nossa Fanta Uva a vontade, sem ter que esconder isso de ninguém, mas e depois, doutora? Depois era cada um pra sua casa antes das oito. Não haviam as gargalhadas espalhafatosas, as promessas de amizade eterna, as conversas desinteressadas entrando pela madrugada. Nada, doutora, nada disso combina com Fanta Uva. Tudo isso combina com aquela bebida amarga que eu me esforço tanto para tomar. Não se pode ter tudo, não é mesmo, doutora? Ou será que pode, doutora? Algum desses livros aí atrás da senhora diz que pode, doutora? Eu preciso de ajuda, poxa!


LISTA DE COMPRAS ENCONTRADA NA POCHETE DE MARCO EM 12 DE SETEMBRO DE 2013

  • 3 pães
  • 100 gramas de mortadela
  • pipoca para microondas (bacon, se não tiver, provolone)
  • 1 pote de Nutella
  • macarrão
  • Toddynho (a embalagem com 3 da promoção)
  • 2 litros de Fanta Uva
  • 1 caixa de bom bom (daquela que vem com o Sensação)
  • papel higiênico (pacote com 8)

DO DIÁRIO DE MARCO, 23 DE SETEMBRO DE 2013

Voltemos aos padrões de comportamento. Acho que estou ficando perito nisso, um antropólogo dos botequins. Mas nem é preciso tanto para perceber que um copo de cerveja sempre precisa estar cheio, copos vazios ou meio vazios (neste mundo não há copos meio cheios) são considerados verdadeiros disparates, um desrespeito ao grupo. É dever de todos ficar atento para que nenhum copo na roda esteja vazio. Ao menor sinal de escassez deve-se imediatamente pegar a garrafa mais próxima e proceder pelo preenchimento de todos os copos do grupo. Encher apenas o próprio copo e devolver a garrafa à mesa é a pior infâmia que se pode cometer. Negar que alguém complete seu copo vazio, a segunda pior. Amizades antigas terminam por coisas assim. Por isso, e admito que sou bastante ingênuo por só perceber isso agora, uma estratégia óbvia para não ter que beber doses insuportáveis de cerveja é manter o máximo de tempo possível o copo cheio. Nada de bancar o boêmio e descer tudo de uma vez. Não. Isso só fará com que alguma alma pretensiosamente caridosa encha meu copo imediatamente e eu tenha mais uma sessão de tortura pela frente (veja bem, ninguém faz isso com qualquer outra coisa. Ninguém vê seu pão na chapa pela metade e pede ao chapeiro pra já ir descendo outro pra você. Absolutamente, não. Isso só funciona com cerveja e com outras dessas coisas amargas). Então, devo bebericar aos poucos e até mesmo fingir uns goles. Ser o cara que serve a cerveja nos copos também me rende muitos pontos e ajuda a disfarçar minha artimanha.


DO DIÁRIO DE MARCO, 24 DE SETEMBRO DE 2013

Começo a me arrepender do que escrevi ontem (será que é isso que chamam de ressaca moral?). Ser o único sóbrio num antro de ébrios (e dissimular isso, santo Deus) não seria, no mínimo, desonesto?


DO DIÁRIO DE MARCO, 01 DE OUTUBRO DE 2013

Preciso parar com essa história de tomar suco em público. Ontem quase aconteceu o pior. A Simone almoçava na padaria e quase me pegou com a boca no canudo. Ia ser uma lástima.  Cobri a cena bem em tempo com o Jornal do Metrô.


DO DIÁRIO DE MARCO, 05 DE OUTUBRO DE 2013

Acho que ontem passei dos limites. Jogar cerveja fora escondido é um pouco demais. Até mesmo pra mim.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 07 DE OUTUBRO DE 2013

Chega uma hora nessa vida, doutora, que temos que tomar uma decisão, temos que mostrar, afinal, quem somos, pra que viemos, o que queremos nesse mundo. A senhora pediu e aqui estou eu, finalmente resoluto, por mais difícil e improvável que esta decisão seja, mas decido agora o que já não posso mais tardar: vou começar a beber! Pois posso repetir, caso a senhora não tenha entendido, caso o nervoso tenha embargado minha voz: vou começar a beber! Não, não desse modo vergonhoso como bebo hoje, quero ser um bebedor de verdade, como meus amigos, sim, quero ser como eles! Não, não acho que me diminuo com isso. Longe disso. Se escolhi segui-los, preciso do pacote todo. Não há como ser boêmio sem a boemia. Me entrego. Rirei com eles das piadas ébrias e dançarei nu se preciso for, só não quero mais manter-me sóbrio. Será que consigo, doutora? Estou delirando?


DO DIÁRIO DE MARCO, 12 DE OUTUBRO DE 2013

O orgulho transborda em mim. Ontem consegui tomar dois copos cheios. Sigamos. Um dia de cada vez.


DO DIÁRIO DE MARCO, 19 DE OUTUBRO DE 2013

Dois copos de novo. Sem avanços. Sem retrocessos. Um pequeno progresso, na verdade: emiti dois comentários minimamente razoáveis e convincentes sobre a superioridade das cervejas artesanais em relação às industrializadas. Obtive olhares respeitosos. Pesquisei na internet.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 23 DE OUTUBRO DE 2013

Tenho me esforçado muito, doutora. Acho que não tenho motivos para envergonhá-la. Esses nossos encontros têm sido realmente decisivos. Confesso que no começo achava tudo isso uma grande perda de tempo, quase uma charlatanice. Desculpe, doutora, se não confiei na senhora, mas acho que aqui posso falar a verdade, não posso? Bom, deixa pra lá. Mas o fato é que depois que passei a encarar a cerveja não mais como uma simples bebida, como algo que servisse apenas para me matar a sede, mas como a chave de um portal que me transportasse para um outro estado de espírito, como uma poção mágica que me desse acesso ao lado mais obscuro das pessoas que quero perto de mim, ah, doutora, quando passei a ter essa perspectiva das coisas, tudo ficou bem mais fácil. Afinal, poções mágicas não precisam ser docinhas, não é mesmo, doutora? Pelo contrário, se quero passar para uma outra dimensão, para um outro estágio de existência, tenho que ser submetido a um rito de passagem e ritos de passagem precisam ser bastante dolorosos, não é mesmo, doutora? Diga que sim, doutora! Por favor! Diga alguma coisa doutora, veja bem, qualquer coisa, doutora! Eu não estou indo bem? Estou, não estou?


DO DIÁRIO DE MARCO, 02 DE NOVEMBRO DE 2013

Amanhã… ah, amanhã! Aniversário do Wagner no Isca Bar. Acho que chegou a hora de queimar umas etapas.


DO DIÁRIO DE MARCO, 03 DE NOVEMBRO DE 2013

É hoje!


DESCRIÇÃO DA CÂMERA DE SEGURANÇA DO ESTABELECIMENTO “ISCA BAR” NA NOITE DE 03 DE NOVEMBRO DE 2013, FEITA PELA PERITA DRA. CAROLINA DO VAL

O investigado chega ao estabelecimento de nome “Isca Bar” por volta das 20h45. Está sozinho. Traja camisa polo branca, calça jeans e pochete. Encontra duas pessoas numa das mesas da calçadas e as cumprimenta. Aparenta estar sóbrio e com perfeito controle de suas ações. O investigado se senta junto às duas pessoas. Ato contínuo, o garçom aparece com um copo americano e enche seu copo de cerveja. O investigado sorri com discrição ao garçom e quando este sai, propõe um brinde. Todos riem e bebem juntos. O investigado esvazia seu copo em duas grandes investidas. Um pouco antes das 21h mais duas pessoas se unem ao grupo. O garçom é solicitado novamente. Chegam mais garrafas à mesa. O copo do investigado é enchido mais uma vez. Risadas. Após três investidas, o copo do investigado fica vazio. A pessoa que chegou por último, uma mulher, imediatamente enche o copo do investigado. Ele diz algo e todos riem. Ele ri muito. Dá uma primeira investida no copo e começa a tamborilar os dedos na mesa. Parece inquieto. Um segundo gole. Alguém diz algo e o investigado bate com a palma da mão na mesa e ri alto. Desta vez, ninguém o acompanha no gesto. Por volta das 22h, mais alguém chega à mesa. O investigado completa o terceiro copo. Olha para os lados. Parece muito inquieto. Segue tamborilando os dedos e passa a também a bater a perna direita no chão. Com um gesto, chama o garçom e solicita mais garrafas. Emite um comentário. Aparentemente só ele ri. O garçom chega com as cervejas. O investigado pega uma das garrafas e começa a encher todos os copos da mesa, aparentemente proferindo comentários chistosos a cada um. Alguns lhe sorriem de volta. Alguns parecem se incomodar. Enche seu próprio copo, deixando cair boa parte do conteúdo no chão. O investigado passa a dançar de forma descompassada com o copo na mão. O investigado ri de modo espalhafatoso. Duas das pessoas mais próximas se afastam do investigado com olhares aparentemente assustados. O investigado tira a pochete e a atira na mesa. Segue dançando sozinho com o copo nas mãos. São 22h30 quando ele termina o quarto copo. Todos estão de pé. O quinto copo é enchido. Um gole. O investigado fica em silêncio. O investigado vomita. O investigado desmaia. São 23h12 quando chega a ambulância.


DO ATESTADO DE ÓBITO DE MARCO EMITIDO PELA MÉDICA LEGISTA DRA. THAIS ROCHA, EM 04 DE NOVEMBRO DE 2013

Coma alcoólico diagnosticado às 0h12. O falecido era solteiro e não deixa herdeiros.

Só para carecas

christophaigner

A primeira vez de Antônio foi numa loja de departamentos, numa dessas paredes espelhadas que utilizam para constranger más intenções. Antônio percorria as prateleiras a esmo, sem procurar nada específico, quando seu próprio reflexo o assustou. Faltava alguma coisa na imagem refletida no espelho. Aquele ali era certamente seu reflexo, mas faltava alguma coisa. Sim. E era no cabelo, percebeu confuso. Faltava-lhe o próprio cabelo. Não todo o cabelo, é verdade, mas sem dúvida um belo chumaço. Aquela parte de seu couro cabeludo não deveria estar assim tão a mostra, logo na frente. Sentiu-se como se, de repente, tivesse percebido a braguilha aberta. Sentiu-se nu, vergonhosamente nu. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém o observava, e rapidamente arrumou os fios com as mãos. Uma leve ajeitada e pronto. Lá estava seu cabelo no lugar de sempre. Um susto. Apenas um susto. Deve ter sido a luz, o ângulo ou até mesmo o espelho. Sim, era isso. Nunca acontecera aquilo no espelho de sua casa. Para economizar, as lojas compravam aqueles modelos vagabundos que deixavam algumas pessoas gordas e outras carecas. Carecas, não, despenteadas. Não queria nem pensar naquela palavra horrorosa, que não tinha e nunca teria nada a ver com ele. E ademais, Antônio tinha apenas vinte e três anos e nessa idade, qualquer ser minimamente dotado de inteligência sabe, ninguém no mundo fica careca.

Naquele dia, entretanto, Antônio saiu depressa da loja de departamentos e foi direto pra casa. Confiava que não havia nada de errado com ele, mas queria  ter certeza. Queria garantir que tudo não passara de um engano, de uma piada de mau gosto daquela loja mequetrefe, onde nunca deveria ter posto os pés. Entrou em casa esbaforido, sem nem olhar pro pai, que aquela hora ressonava no sofá da sala. Foi direto ao banheiro e colocou-se frente a frente ao espelho. Até aquele dia, tal objeto nunca representara nada de muito especial para Antônio. Era apenas mais um objeto como outro qualquer, uma interrupção reflexiva na sequência de azulejos coloridos. Os cabelos encaracolados nunca exigiram de Antônio grandes cuidados. Apenas os lavava e vez ou outra aparava suas pontas. Jamais os penteava. E de fato isso não era necessário, já que era um cabelo que se moldava perfeitamente à cabeça de Antônio e se mantinha em sua forma angelical desde a hora em que o rapaz acordava. Uma passada de mão aqui e ali eram mais do que suficientes. Por isso tudo, Antônio jamais se detivera por muitos minutos diante de um espelho.

Daquela vez foi diferente. Daquele vez Antônio se postou diante do espelho como um pecador diante de Deus, no dia do juízo final. Depois de uma olhada geral, onde sem dúvida não se percebia nada de diferente, Antônio foi abaixando pouco a pouco a cabeça, deixando o couro cabeludo se revelar. Com as mãos, foi afastando um pouco os cachos para ver a tragédia em toda sua completude. Um choque. Como não havia percebido aquilo antes, afinal? A sinuosidade dos cabelos encaracolados decerto vinham disfarçando a triste realidade, mas um olhar mais detido, como o que ele dava agora, era suficiente para perceber a lacuna, a clareira, o verdadeiro descampado que havia em seu couro cabeludo pateticamente branco, visivelmente mais pálido do que o resto de seu corpo. Calvo. Vinte e três anos e calvo, ridiculamente calvo. Calvo como nunca fora seu pai, como os dois avôs também nunca tinham sido. É certo que deve ter herdado um gene maldito de algum antigo ancestral, de algum maldito bisavô careca, que a uma hora dessas refestelava-se de alegria no caixão ou no inferno, orgulhoso da herança que tinha deixado ao bisneto. Justo a Antônio, o rapaz metido a comediante que tanta troça fazia de gordos, baixinhos, e por que não, carecas.

Olhou-se de novo no espelho. Dessa vez sem abaixar tanto a cabeça e, para falar a verdade, olhando até um pouco pra cima. Viu que nem tudo estava perdido. Era só  um esboço de calvície ou nem mesmo isso. Talvez só uma queda repentina, fruto de uma má ingestão de cálcio. Sim, ele vira algo parecido na tevê. Tomaria mais leite e os fios voltariam a crescer. E, além do mais, bastava ajeitar os cachos com a ponta dos dedos, que a clareira era coberta sem grande prejuízo ao conjunto. Era só preciso tomar cuidado para ninguém reparar, teria que garantir que nada estivesse a mostra. Chapéu? Era o chá dos carecas, diria o velho Antônio. Não, ele nunca usou chapéus, lhe pinicavam, lhe incomodavam, lhe faziam suar. Não, não era agora que usaria. E se não conseguisse esconder, como explicaria calvície tão prematura? Não, não precisaria explicar nada. Ele tomaria o devido cuidado até que tudo voltasse ao normal.

Foi por essa época que Antônio deixou de olhar pra frente.

Só olhava pros lados. Até então nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de espelhos. Os vidros fumês das lojas, os insulfilmes dos carros, as poças de água na rua e, por que não, as lentes dos óculos de seus interlocutores. Com a tola impressão de que as pessoas não reparavam, Antônio parava em absolutamente toda e qualquer superfície minimamente reflexiva e conferia se não faltava nada em seu couro cabeludo. Quase sempre faltava. E Antônio, sempre olhando pros lados para garantir privacidade, alinhava com os dedos os fios revoltos que, acidentalmente, haviam se deslocado do lugar de origem. Era sua famosa ajeitada, quase um tique nervoso recém adquirido. E assim, nova questão logo lhe ocorreu, se por um lado tinha que evitar a todo custo que qualquer pessoa reparasse no ridículo roçado que tinha sido aberto em sua cabeça, por outro lado, e com importância análoga, tinha que cuidar para que as pessoas não notassem suas cada vez mais constantes ajeitadas nos cachos. Não queria ser visto nem como careca, nem como esquisito. Por isso, a precaução se redobrou, se valia dos espelhos, sim, ajeitava os cachos, sim, mas com parcimônia e sobretudo com muita discrição, olhando sempre pros lados antes de cada nova investida capilar. Com o tempo, Antônio tornou-se perito nisso, valendo-se de técnicas cada vez mais sofisticadas como o uso da função selfie de seu aparelho celular, quando podia olhar-se a vontade para aquela sua nova versão de espelho, enquanto qualquer passante apenas pensava que se tratava de um jovem fotógrafo interessado em registrar a cidade.

O problema mesmo era quando ventava. Quando ventava  era realmente desafiador. Quando ventava, Antônio virava um verdadeiro autômato.  Não havia espelho que desse conta. A coisa virou intuitiva. A cada rufada, uma ajeitada. A cada ajeitada, uma rufada. A mão indo e voltando para o topo da cabeça num intervalo de microssegundos. Um movimento ridiculamente compassado e mecânico. Antônio estava se tornando o pior tipo de careca, o careca não assumido, aquele que Antônio sempre gozou em suas piadas. Aquilo não podia ficar assim. E o pior. Era nítido que suas ajeitadas não estavam mais sendo assim tão eficientes. Agora elas precisavam ser mais demoradas e meticulosas, uma bagunçadinha rápida já não bastava. Se pegava emprestado os cabelos de trás para cobrir os da frente, era o cocoruto que ficava desprotegido. Se puxava os cabelos das laterais para acobertar o topo desnudo, ficava com uma aparência bizonhamente artificial, um falso moicano completamente alheio aos seus costumes. Aquilo estava ficando realmente incontrolável, cada vez mais indisfarçável.

E assim passaram-se alguns anos, dois ou três, e Antônio ia tentando se adaptar àquela vida. É certo que não do jeito que mais gostaria. Os relacionamentos humanos minguaram nesse período. A calvice havia se escancarado. Antônio foi se retraindo, saia pouco de casa (os bicos de tradução que arrumou naqueles anos foram fundamentais em sua nova fase reclusa) e era conhecido pelos poucos que ainda o viam pelo singelo apelido de Che. Isso porque, coisa fácil de se supor, Antônio se rendeu ao desconforto seguro e passou a ser visto apenas de boina na cabeça, o que era bastante inconveniente no verão tropical em que vivia. Só em casa que era diferente. Em casa estava numa posição mais segura, com um espelho privativo sempre à disposição e as boinas eram dispensáveis. Foi quando numa tarde, num momento de pura distração e descuido quase infantil, Antônio se abaixou para pegar algo no chão. A mãe estava perto e viu. E ao ver, falou. Antônio, você está ficando careca, meu filho. E voltou aos seus afazeres, deixando Antônio desconsertado. Aquilo o apunhalou. A mãe decerto era a primeira de muitas pessoas que passariam a reparar em seu infortúnio. Não tinha mais volta. Foi quando decidiu pedir ajuda.

(…)

Na sala de espera do dermatologista chinês, Antônio brincava de adivinhar  as mazelas de cada um dos pacientes ao seu redor. Aquilo o acalmava, paciente sem paciência que era. Espinha. Pereba. Pereba. Espinha. Calvície. Pereba. Sem dúvida espinha. Calvície. Sem dúvida pereba. Eram dois calvos fora ele. Ambos uns quinze anos mais velhos ou mais. O mais azarado era ele mesmo. Pelo menos não tinha mais espinhas. Deus me livre ficar que nem o sujeito que está lendo a Contigo logo ali. Aquilo o acalmava. Dois perebentos mais tarde, Antônio foi chamado. Pode entrar, senhor Antônio, a recepcionista assim o disse. Se-nhor. O chamaram de senhor. Nunca antes na vida o haviam chamado de senhor. Tudo culpa daquela legítima vereda exposta em sua cabeça. Maldita recepcionista. Maldito bisavô careca.

Nem bem entrou no consultório e alguma coisa naquele médico despertou sua atenção. O chinês era absolutamente careca, nem um fio de cabelo. Aquilo não tinha começado bem. Não houve, entretanto, tempo para grandes lamentações. Antes mesmo de Antônio se sentar, o doutor foi tirando uma folha timbrada de um bloco e escrevendo com letras miúdas, porém legíveis: alopécia androgenética. Todo seu infortúnio rapidamente reduzido a apenas duas palavras. Alopécia Androgenética. E o chinês não parava de falar, sem olhar para Antônio, ia dizendo tudo aquilo que ele precisava parar de comer, todos os shampoos que precisava evitar, as boinas que jamais poderia usar e sobretudo, o remédio que teria que tomar, um miligrama por dia, por todos os dias de sua vida, se não quisesse perder o resto que tinha e, quem sabe, se tudo desse certo, se as recomendações fossem seguidas a risca, quem sabe assim uns trinta ou quarenta por cento do que já foi perdido talvez pudessem ser recuperados. Finasterida. Era o nome do remédio. E sim, é claro, não há remédio sem efeitos colaterais. Diminuição da libido, disfunção erétil e diminuição do volume ejaculado, estava lá escrito na bula, Antônio pôde conferir nela as palavras do doutor. Um cabeludo brocha, este era o futuro de Antônio.

Foi por essa época que Antônio voltou a olhar pra frente.

E tudo aconteceu logo após sua ida ao médico. Antônio saiu do consultório sem ter pronunciado uma palavra, já que o doutor careca jamais lhe deu a vez. Mal carimbou a receita e já foi chamando o próximo. Outro careca. Outro brocha que nem ele, coitado, logo ia descobrir. Antônio saiu triste, derrotado, guardou a boina na mochila e saiu pela rua com a cabeça desnuda. Era a primeira vez depois que a calvície havia se tornado indisfarçável. A careca estava ali, para quem quisesse ver, tão lustrosa e brilhante que poderia ser usada como espelho. Uma superfície perfeitamente polida, uma bola de bilhar que pedia pra ser alisada, acarinhada, por que não. E agora, pela primeira vez assim tão a mostra, tão a vontade, tão vulnerável, Antônio pôde sentir orgasmos capilares toda vez que uma rufada de vento entrava pelos seus poros livres. Na esquina, uma farmácia. A receita em suas mãos. Finasterida. Um miligrama. Trinta ou quarenta por cento de cabelos ou sua libido de volta. Se isso fosse mesmo bom, aquele chinês não seria careca, pensou, e com um movimento decidido rasgou de ponta a ponta a receita. Mil pedacinhos de Finasterida pelos ares. Sentiu-se nu, deliciosamente nu, um pelado sem culpa, vitimado por um gene que sabia das coisas. Oh! Bendito bisavô careca. As pessoas o olhavam, era difícil não se atentar para um sujeito em tamanho estado de êxtase, as mãos mecanicamente dirigindo-se à cabeça careca, os dedos alisando deleitosamente o topo nu. As pessoas o olhavam sim e eram gordos e eram feios e eram baixos e sim, também eram carecas, carecas de todos os tipos.

E Antônio, até então determinado a só olhar para os espelhos, nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de carecas.

passarinhos

passarinhos

mancha vermelha colore os bigodes do gato que dorme no pé da mangueira. restos de penas trançadas nos dentes paralisa as pernas do menino que corre. penas verdes. verdes como as penas do periquito australiano. hoje ele não cantou com a chegada do menino. não presta nem pra cuidar de meia dúzia de pássaros mesmo. é disperso como o avô. gaiolas espalhadas pelo quintal. os canários também se foram. a maritaca. a maritaca agonizante no vão entre duas pedras. menino petrificado com o inferno diante de si. crianças gargalham no muro, fazem troça do menino que chora. chamam o gato de volta. o pai surge na porta da cozinha. para de chorar, menino, seja homem! Ande, limpe toda essa sujeira e vem almoçar! 

mancha azulada colore a poeira da calçada cinza e faz brilhar os olhos da menina que corre. três quatro anos e ainda se impressiona com manchas azuladas em calçadas cinzas. olha o carro, menina, já disse pra olhar pros lados. homem aborrecido com a menina que corre, olha as horas. precisa trabalhar e o parque já tomou a manhã toda. venha cá, criatura, nossa casa é por ali. seus olhos já não reparam em manchas azuladas. passarinho, papai, olha só um passarinho dormindo ali!

menino que perdeu a fome tenta alimentar a maritaca morta, o grão de milho inerte no bico da ave. o peso da culpa em sua costas, não prestava nem para cuidar de aves. essa passarinhada toda só servia pra fazer barulho mesmo, pra me emporcalhar o quintal! Ande logo, rapaz! lágrimas do menino escorrem no corpo imóvel da ave em suas mãos. para de chorar seu menino maricas, não botei homem no mundo pra chorar por maritacas! era o pai furioso a lhe arrancar a maritaca das mãos. era a ave morta atirada aos cães que passavam. A maritaca, papai, era a maritaca do vovô… eu prometi pra ele…

o pai caminha em direção a menina e custa a descobrir o azul entre as folhas. menina se agacha e toma a pequena ave com as mãos em concha. olhos fechados da ave, a cabeça inclinada pro lado. meninos correm medrosos dali. somente o pai os percebe. correm diante da visão do homem e da menina, o estilingue toscamente escondido nos bolsos. quero levar ele pra casa, papai, a gente pode fazer uma caminha, brincar com ele, olha como dorme papai, deve estar com muito sono. o pai olha pros lados como em busca de um auxilio, ignora o que fazer, o que dizer para a menina que não sabe o que é a morte. ele também não sabe. a situação é urgente e ele desiste de ter pressa. querida, este passarinho… 

penas de todas as cores se juntam à poeira de um quintal em fim de tarde. menino empoleirado na mangueira já não chora. era homem e não devia chorar por simples maritacas. eram apenas passarinhos e ele nunca mais perderia seu tempo a brincar com passarinhos. o avô nunca tivera juízo mesmo, nunca foi um homem sério. barulho e sujeira, seu pai o ensinara, apenas barulho e sujeira e ele não devia se ocupar com essas coisas tolas. devia estudar, ser um homem que se ocupasse de coisas realmente importantes, um homem como seu pai, um homem que não se importasse com a morte de passarinhos.

…querida, este passarinho está morto. menina surpresa, o olhar demorado pra ave nas mãos, os dedos passando suave pela plumagem azul. os olhos vermelhos do pai, olhos que não podem chorar por passarinhos. como o pezinho de feijão, papai? menina olha séria pro homem que já não consegue falar. ele olha pra baixo, pra longe, olha pra dentro de si. olha pra uma tarde. para uma mangueira no centro de um quintal cheio de penas e gaiolas espalhadas. olha pro seu avô. sim, querida…como o pezinho de feijão. a voz embargada do pai, o olhar sereno da menina. terra, papai, vamos enterrar ele debaixo daquela árvore. obediente, o pai cava o buraco sob o olhar atento da menina, o buraco pro passarinho azul que some por baixo dos punhados que caem. silêncio. pai e menina não se olham, os olhares ocupados com o montinho de terra no chão.  finda a tarefa, as mãos sujas de terra, a menina abraça o pai em sábio silêncio. o passarinho está enterrado e o pai chora, chora no ombro da menina que afinal tudo sabe. chora como nunca chorou, chora por todas as coisas miúdas do mundo, o pranto feliz dos que aprendem a chorar pela morte de passarinhos.

O mendigo que tinha olhos de abismo

mendigo

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado pragueja. Pragueja contra a sovinice dos fabricantes de sacolas, malditos avarentos que não fazem sacolas decentes. Que usem eles sacolas transparentes! Todo mundo vê o que ele vai fazer, o que ele vai comer quando chegar em casa. Com que cara vai ficar quando o mendigo lhe pedir um trocado e ele lhe disser que está liso? E o mendigo sempre está ali. Maltrapilho na saída do mercado. Sentadinho, esperando. E o whisky, meu deus, quem está liso não compra whisky, ele vai perceber. Mas não é da conta do mendigo. O senhor de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado trabalha oito nove horas por dia, cinco dias na semana, paga todos seus impostos, iptu-ipva, como-a-classe-média-paga-imposto-nesse-país-meu-deus, pode muito bem tomar um whiskisinho de vez em quando e, convenhamos, pedir é fácil né, se esse homem trabalhasse não estaria nessa condição deplorável, meu deus. Todo santo dia plantado nesse canto imundo. Era só ele sair do mercado mais distraído que lá vinha o mendigo a lhe mendigar, justo a ele que não conseguia dizer não quando via cara de mendigo. Esses malditos fazem curso de atuação em Hollywood, não é possível. Por isso não olharia. Daquela vez não. Ao menor sinal de um vulto mendicante, ele fixaria o olhar pra frente, com cara de não-é-comigo e seguiria sua vida, contribuindo sem peso para a não proliferação daquela gente, não dê esmolas, não alimente este hábito, a gravação do metrô sempre o adverte. A polícia. Onde estava a polícia numa hora dessas?  A polícia é quem tinha que enxotar aquelas criaturas dali, era cada cara triste, meu deus, e ele não conseguia lidar bem com aquelas cara tristes. Do caixa do mercado já podia perceber a movimentação na calçada, a fila de passantes em linha reta balançando a cabeça e olhando pra frente, a linha de produção dos negadores de esmola e vez ou outra algum desavisado quebrando o fluxo e atirando uma moeda, um resto, uma sobra. Malditos alimentadores de mendigos, decerto tinham olhado. Decerto também eram suscetíveis a olhos de mendigo… ah, aqueles olhos… ficavam impregnados em sua mente pelo resto do dia, por isso não olharia, naquele dia não. Ainda no caixa, reforçou a compra com mais uma sacola, a transparência disfarçada, rótulos virados pra dentro, se orgulhava de sua sagacidade, não haveria olhos de mendigo que lhe agourasse o whisky. Andaria bem na beira da calçada, rente a rua, para não haver o risco de um atentado, sei lá, essa gente não tem nada a perder, né, podem muito bem se magoar – essa gente se magoa fácil – e tentar violentá-lo, essa gente agora está sempre com uma faquinha, um canivete escondido e sei lá, essa gente mata por quase nada. Se a gente não acaba com essa raça, essa raça há de acabar com a gente. Sim, a cidade precisava de mais policiais. A Rota. Isso, era preciso espalhar a Rota nas ruas. Sim, sem dúvida era isso. Passos decididos na porta do mercado. Um passo, dois passos, três. Não, não olharia. Pôde ver o vulto, imaginar o corpo magro, o olhar virado pra ele, lhe estudando, lhe medindo, lhe implorando para que virasse o rosto e caísse no abismo daqueles olhos de mendigo. Não. Não olharia. Ontem mesmo ele olhou. Olhou e viu o que não queria. Aqueles olhos, meu deus, aqueles olhos eram tão desgraçadamente iguais aos seus, aquele mendigo era tão desgraçadamente igual a ele, por isso não, de novo não, não olharia, por nada nesse mundo, aquele olhar de novo não.

Mas olhou.

Foi só o mendigo começar a falar que ele olhou, foi só sobrou-uma-moeda-qualquer-dez-centavos-serve-pra-eu-comprar-um-marmitex que ele olhou, aquela voz desgraçadamente tão humana. E pensar que faltava tão pouco. Mais dois ou três passos e o mendigo já não seria problema seu, mais cinco ou seis e ele já poderia ler as manchetes que adornavam o jornal esportivo e nem se lembraria mais do mendigo, mais dez ou doze e seus passos largos já teriam alcançado a esquina da rua em que estava seu carro. Com as sacolas no banco do carona, ele ligaria o rádio numa estação de músicas tranquilas e tomaria o rumo de casa. Em casa, beijaria a esposa e juntos tomariam whisky. Dormiria uma noite de sonhos serenos. Mas ele olhou. Um vacilo e ele olhou. Face a face com o homem que lhe pedia. Face a face consigo mesmo. E como era insuportável olhar para si mesmo.

A garrafa de whisky na sacola. A garrafa de whisky em suas mãos. O olhar triste do mendigo.

sobrou-uma-moeda e pá – era a garrafa estilhaçada na cabeça do mendigo.

qualquer-dez-centavos-serve e pá – era o olhar do mendigo, o olhar que também era o seu, todo marcado, ensaguentado, dilacerado pelos estilhaços da garrafa.

pra-eu-comprar-um-marmitex e pá – era o mendigo delirando, as pessoas se acercando e aquele olhar, aquele maldito olhar teimando em continuar ali.

Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Som de sirene ao fundo. Mais três ou quatro chutes dos passantes no mendigo. Solidariedade ao cidadão tão bem apessoado, tão brutalmente violado. A violência desta cidade não tem limites, meu deus. Não se pode nem fazer compras tranquilo. Homens fardados carregam mendigo delirante pro fundo do carro cinza. Nunca antes tanta gente olhou pra ele. Multidão se dispersa. Cheiro de álcool e sangue nauseiam os que ainda passam. Funcionários do mercado, vassoura, rodo, pano ligeiramente úmido e sabão, muito sabão, para limpar tudo aquilo, toda aquela fedentina. Os fregueses, essa catinga pode afastar os fregueses. Melodia de sirenes enervam cidadão de bem que bebe água com açúcar na porta do mercado. Gentileza gera gentileza. Respiração arfante pelo terrível esforço. Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar!

Cai a noite dormida sem whisky.

(…)

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado já não pragueja. Sai do mercado aliviado e confiante. No canteiro da calçada, flores com espinhos recém plantadas. As pequenas gotas da chuva que agora se incia não atrapalham o caminhar leve do homem. Hoje ele não terá que lidar com o abismo.

bonança

enchente

prefeitura vai mandar os botes. cabe quatro por vez. cinco quem sabe apertando seis. já têm gente no ginásio. na igreja tá lotado. a escola também encheu. é mesa-cadeira-caderno espalhado. aula só ano que vem. ou nem. o dinho veio e prometeu. dinho filho da puta. vai drenar o caralho. subiu vazou encheu. porra, dinho. vai pedir voto para puta que o pariu. é claro que perdi tudo, homi, num ta vendo. cama-armário-sofá tudo carcomido, enlamado tudo já. acabou. menina, sandália havaiana num pé, o outro nem. até o chinelo chuva levou. o irmão, lama até no peito. doença do rato, meu deus, moça do posto diz que mata. igual o outro, meu deus, num pode. helicóptero da tevê zumbindo no céu. tá ficando preto que nem. será que chove mais? volta aqui menina!

ele tá ali. agora eu achei. ali preso nas pedras. coitadinho dele, nem sabe nadar. volta aqui Ted, o que você tá fazendo aí, Ted. vou aí te buscar, vou aí te salvar, pera aí que já vou.

bota tudo pra cima. aquele ali talvez consegue salvar. caminhão da marabrás trouxe, o rio levou. ai, que tá começando a feder. que comprar novo o quê, homi. esses aí eu nem paguei ainda nem. dezoito prestações aquele ali, meu deus. dinho, filho da puta. cabe mais gente na igreja. pastor veio avisar. mulheres crianças primeiro. os velhos talvez dê pra encaixar. carai, homi, sai da frente. sim, homi perdi tudo, to fudida to na merda to na lama. vizinha vai ajudar a limpar. agora não, mais tarde talvez. urso de pelúcia, homem bom jacaré na camisa que deu, enganchado nas pedras, correnteza levou. raio pipoca no céu negrume da porra. vai voltar por bem ou a chinela vai ter que cantar, menina?

aguenta firme, Ted, tá dificil, mas eu já vou. tem muita lama aqui, Ted. minha perna tá afundando, mas calma que eu já vou. vou tentar me segurar ali. como é que você foi parar aí, menino?

rabo da ratazana passeia pelo pé do prematuro no berço. o colchão molhado fede as larvinhas começam aparecer. o menino nadando na água lama bosta que só cresce. os pingos de chuva voltam. corre. puxa que lá vem mais água. porra de céu preto. olha que lá vem raio trovão. agora fudeu de vez. e esse bote que não chega. vai para puta que o pariu, dinho. valei-me santa bárbara-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem. que cachorro, homi. cachorro morreu eu vou lá pensar em cachorro. cheiro da bosta chega a arder o nariz. cameramen pede pra parar. tanta água assim dá vontade de mijar. a correnteza só aumenta. urso de pelúcia desprende da pedra e se vai. para de berrar, menina. porra, menina… ela tá se afogando! ai, meu deus, socorro… alguém ajuda a menina!!!

Ted, tá dificil, eu não aguento. eu vou cair. a chuva voltou, Ted. a água tá muito forte, Ted. Ted? Ted, não. volta aqui, Ted. não vai embora, Ted! Ted, nããão! meu deus, quanta ág… socorro!

hoje já não chove nem. moça boa ajudou com as despesas tudo. hoje a tevê não veio. todo mundo em volta pra olhar. braços fechados da menina morta nem mesmo urso tem para abraçar.

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Foto de Ingo Penz – Enchente de 1974, em Tubarão.