desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

Esperança

15892I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir. Eram gritos horripilantes, pareciam uivos de animal a beira da morte, testemunhou um vizinho. A rua estava cheia pra ver. Dois homens saíram de dentro carregando a maca. Marcas de arranhões por todo o corpo.

– O melhor plano de saúde é viver. 

O segundo melhor é Unimed.

Gritava. Debatia-se. Convulsionava. Os mais atentos juravam que entre um espasmo e outro podiam ouvir uma canção de letra ininteligível, porém cadenciada, que saia da boca babada da criatura na maca. A melodia, porém, podia ser facilmente reconhecida por qualquer um. Um jingle. Era isso. Não restava dúvidas de que aquelas notas compassadas eram de um hipnótico jingle publicitário.

II.

Tudo começou com a carta e isso faz muito tempo. O apresentador do programa televisivo a convenceu. Ele olhava tão profundamente em seus olhos e falava tão aos seus ouvidos, que ela ficaria até constrangida em lhe dizer não. Há muito que não lhe tratavam com tamanha intimidade e simpatia. Respondeu-lhe num sussurro que esperasse um segundo, que só se ausentaria para buscar logo ali caneta e papel. Gentil como ele só, passou a resolver ali no palco algumas amenidades, com o objetivo claro de matar o tempo e esperá-la. No intervalo de um suspiro, ela voltou. Anotou tudo, de modo quase mecânico. Amanhã mesmo a carta estaria nos correios.

– Colorado RQ – imagem e som de presença total 

com Reserva de Qualidade

III.

O único inconveniente era que não sabia exatamente o que pedir. Olhou ao redor e constatou que não precisava de nada. Vivia só e feliz desde a morte do marido e nunca foi mulher de grandes extravagâncias. O televisor tinha sido quase uma exigência da filha para que não se sentisse tão sozinha. Até então nunca tinha dado importância a essas tecnologias da moda. Pediria algo para os netos. Sim, para o par de netos recém-nascidos. Gêmeos. Que ótima ideia! Podia antegozar o momento em que o apresentador com aquela voz profundamente aveludada sortearia sua carta, entre aquelas milhares de cartas, e falaria seu nome e sobrenome para todo o país. Podia antegozar o momento em que ela seria chamada ao palco, profundamente bem iluminado, e veria surgir emocionada, de todos os cantos do estúdio, caixas e mais caixas de brinquedos, peças e mais peças de roupas, dos mais variados tipos de roupas, além do elegante mobiliário infantil que certamente viria a seguir. Como os netos ficariam felizes! Podia antegozar o sorriso de inveja das vizinhas, diante de tanta elegância que ela certamente demonstraria na tevê, ao lado daquele apresentador tão bem apessoado. Teria apenas, é claro, que passar a acompanhar aquele programa todos dias, não queria correr o risco de deixar passar aquela oportunidade por um mero descuido.

– Não adianta bater que eu não deixo você entrar,

 nas Lojas Pernambucanas você vai aquecer o seu lar!

IV.

Estava cumprindo suas promessas com diligência. Depositara a carta na manhã seguinte e no mesmo dia, pelo fim da tarde, deu inicio à sua rotina diária. 

– Lojas Cem: felicidade encontra também! 

Ainda bem que tem Lojas Cem!

V.

Ela estava convicta: Mariano devia morrer. Trair a esposa com a amiga do casal tinha sido demais. E os filhos, meu Deus? A menina dedicava profunda devoção ao pai e agora sofria este trauma! E o que faria Mercedes com a morte tão prematura de Emanuel? O acidente, aquele maldito acidente, tinha que acontecer justo agora em que ela descobrira que estava grávida? Próximo capítulo-próximo capítulo-próximo capítulo! Como eles querem que a gente aguente até o próximo capítulo?

– Guarde o nome, não se engane:

Groselha vitaminada Milani! 

Também com sabor morango e framboesa!

VI.

Aquilo estava demorando demais: a carta já tinha sido enviada há mais de um mês e nada dela ser sorteada, mas não perderia as esperanças. Por nada no mundo deixaria de acompanhar todos os dias aquele espetáculo de luzes e cores e sorrisos. O bom é que logo depois começava a novela das seis, uma ótima distração para se manter bem desperta até a hora de dormir. Tinha dias em que o capítulo estava tão empolgante, que não ousava se levantar para preparar o jantar. Jamais. Poderia perder momentos decisivos se cometesse uma tolice dessas. 

– Compre Baton, o seu filho merece Baton!

VII.

A era das compras começou um pouco depois disso. Era incrível o poder daqueles espremedores e batedeiras e misturadores e torradeiras. Como facilitavam a vida aqueles acendedores e fritadeiras e amaciadores e furadeiras. A apresentadora do Show da Tarde, tão distinta, tão moderna, tão inteligente, tinha a alertado para a necessidade de se adquirir aqueles maravilhosos eletrodomésticos, supra-sumo da modernidade vigente. 

– Pensou eletrodomésticos, lembrou Arapuã.

– Arapuã: ligadona em você!

E como se facilitava-parcelava-predatava. Os-dez-primeiros-que-ligarem-ainda-ganham-um-brinde. Era tudo realmente muito exclusivo! E agora que os netos já ganhariam o deles no Show de Prêmios podia aproveitar a aposentadoria e se presentear, por que não? Ela merecia! Foi quando as caixas começaram a chegar, uma-duas-três por mês, e era um tal de vizinho aparecendo na janela pra ver. Ver e babar, se envenenar de tanta inveja. Que delicia! E nem havia mais tanto espaço assim para guardar tudo aquilo, toda aquela modernidade exuberante. Paciência. Isso se resolveria depois. No Show da Manhã sempre havia um especialista em domesticidades que a ajudaria com esta questão menor. Uma pena que não soubesse usar nada daquilo. Mas havia de aprender. E como havia! 

– Instituto Universal Brasileiro:

Quem quer, consegue!

VIII.

Um ano e nada. Mandaria mais cartas. Umas quinze, vinte talvez. Aproveitou a data e foi naquela tarde mesmo aos correios. Voltou a tempo de acompanhar o sorteio daquele dia. Não foi dessa vez.

– Café Seleto tem sabor delicioso!

Cafezinho gostoso é o Café Seleto!

IX. 

Foi então que vieram os instaladores. Uma gangue de salteadores e estupradores e contrabandistas e malfeitores estavam dominando a cidade. Ela viu no Show de Horrores – edição da manhã e ficou estupefata, realmente alarmada. Não falou disso com os vizinhos, porque àquela altura já não conhecia mais nenhum. Precisava ficar atenta às noticias, às novidades, às variedades e não poderia perder tempo com trivialidades entre vizinhos. Contratou os instaladores. 

– Intelbras: seu patrimônio cercado de segurança!

Era até bonito de ver a exuberante cerca elétrica serpentando altiva ao redor de toda sua residência. E como eram fascinantes as câmeras de segurança. Instalaram quatro. Uma em cada canto do portão de entrada e também nos fundos. Agora tinha um canal em seu aparelho televisor dedicado apenas à transmissão dessas imagens. Como se sentia protegida! O bom era que nem precisava mais sair de casa para ver a rua, podia fazer isso do conforto de seu sofá, sem nem mesmo mexer os pés. 

– Eu quero imagens! Cadê as imagens?

– Bandido bom é bandido morto!

– Porrada nele! Porrada nele! Porrada nele!

X. 

O nome de hoje até parecia com o seu. A respiração ficou suspensa até o último sobrenome. Mas era outra a maldita pessoa da carta. Uma viagem pra Disney, uma maldita viagem pra Disney era sorteada e seus míseros chocalhos e carrinhos de bebê não. Cinco anos de espera. Ao menos a programação era bastante atraente e ela podia se distrair bem enquanto esperava.

– Atenção agora para o resultado parcial da

Tele-Sena de Páscoa: zero-um, zero-sete,

 treze, vinte e nove, trinta e dois e quarenta e cinco!

XI.

O apresentador do programa de variedades anunciou que o galã coadjuvante da novela das sete estava tendo um caso com a protagonista da novela das oito que era casada com o vilão da novela das seis que transava com o apresentador do programa de variedades que jurava até a morte que nem tinha entrado na história.

– Quem bebe Sukita não engole qualquer coisa!


XII.

Há anos que não recebia uma visita. A última tinha sido justamente a dos netos gêmeos, que há muito não cabiam em carrinhos de bebê e que não precisavam mais de chocalhos e ursinhos de pelúcia.  Ela não os deu muita atenção, é verdade. Nem percebeu quando eles saíram, atabalhoados, tropeçando em uma pilha de caixas de eletrodomésticos que nunca tinham sido abertas. Nada mais compreensível: estava muito ocupada, afinal, com os olhos vidrados e os ouvidos atentos no apresentador de voz decrépita e cabelos pateticamente grisalhos, que tinha a constrangedora mania de nunca pronunciar seu nome. 

– Lojas Marabraz: preço menor ninguém faz!

– Visa: onde você quiser estar!

– Heinz: ninguém faz melhor que Heinz!

XIII

Foi então que deram a noticia fatal – Doriana – Devido a problemas internos, – Coca Cola – Nestlé –  acarretados pela grande crise econômica pela qual passava o país – Havaianas – Mc Donalds – Folha de S. Paulo – tornava-se impossível à emissora – Nutella – Avon – Casas Bahia – Honda Civic – continuar com o tradicionalíssimo Show de Prêmios – Jequiti, jequiti, jequiti, jequiti…

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I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir.

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Crédito da imagem:

Edvard Munch, litografia “O grito” (1900)

Dossiê Marco – Operação Saideira

marco

DO DIÁRIO DE MARCO, 15 DE JULHO DE 2013

Todas as escolhas que já fiz na vida combinam perfeitamente bem com cerveja. E com maconha também, é verdade, mas vou me ater à cerveja. Se eu fosse boêmio ou minimamente conseguisse tomar álcool sem ter a sensação de que estou tomando um remédio, e veja bem, não qualquer remédio, mas um remédio amargo, desses que a gente só toma quando é estritamente necessário, eu ia achar isso muito bom, realmente muito vantajoso. Mas não. Absolutamente não é assim. Eu preciso confessar, e minha crescente covardia só me permite fazê-lo aqui, que é absolutamente penoso para mim engolir um copo de cerveja e, se o faço – e sim, o faço – é apenas porque quero ser sociável, quero ter amigos, ser aceito num desses grupos de valdevinos que escolhi pra mim.


DA AGENDA DO CELULAR DE MARCO, SEMANA DE 14 A 20 DE JULHO DE 2013

  • dom_14:

14:00 – Encontro com o grupo de teatro (levar as coisas do Chico)

17:00 – Niver do Tuco no Bar da Ieda

  • qua_17:

21:00 – Futebol na TV (comprar comida)

  • qui_18:

19:00 – Oficina de escrita criativa (fazer o exercício do Caetano)

21:00 – Leitura de poemas no Bar do Tim

  • sáb_20:

11:00 – Oficina de escrita criativa

14:00 – Sarau

21:00 – Niver da Cecilia no Bar da Glória


DO DIÁRIO DE MARCO, 18 DE JULHO DE 2013

Acho que começo a perceber alguns padrões nos hábitos de meus amigos. Digo de meus amigos, mas talvez isso possa se estender a qualquer tomador de cerveja. Quando alguém te convida para assistir a uma partida de futebol, porque sim, esta pessoa é sua amiga e sabe que você gosta de futebol, na verdade esta pessoa está te convidando para tomar cerveja e para fumar maconha – mas vou me ater à cerveja, acho que já disse isso antes. Quando você chegar ao local combinado, todos estarão paramentados, é verdade, com a camisa de seus times de coração e você ficará empolgado com isso. Valeu a pena ter deixado o conforto de seu sofá para ver o jogo com pessoas tão animadas, com verdadeiros torcedores. Mas quando estiver chegando a hora do jogo e você ficar ansioso com a proximidade da peleja – afinal, você ingenuamente pensa que está ali para ver a uma partida de futebol – os torcedores já estarão tão animados consigo mesmos e com todos os preparativos que envolvem a partida, que provavelmente se esquecerão de ligar a tevê. Você, que gosta de futebol e que está ali para ver futebol e que até já tinha se programado todo para ver a partida no conforto de seu lar, provavelmente se sentirá constrangido em atrapalhar toda aquela alegria, em ser o único preocupado com uma coisa tão menos importante como uma partida de futebol. Provavelmente encherá seu copo e se unirá a turba de torcedores elevados, que não precisam de uma partida para torcer. Negará até a morte que você não está imensamente feliz com toda aquela patuscada, mas ficará atento a cada mínimo sinal de fogos que venha do vizinho – e como você ficaria feliz em ser amigo do vizinho nessas horas. É verdade que tudo pode ocorrer de uma forma um pouco menos drástica. Sempre pode haver um tio que se lembrará de ligar a tevê. Mas você pode ter certeza de que ela será uma tevê de tubo, de catorze polegadas, cheia de chuviscos – minorados talvez pelo chumaço de bom bril xuxado em cada haste de uma antena piramidal – e que provavelmente ficará lá esquecida em algum canto, longe o suficiente para que seu constrangimento e seu incorrigível senso de sociabilidade permita que você se aproxime.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 14 DE AGOSTO DE 2013

Eu juro que já tentei de tudo, doutora, mas a verdade é que não consigo me envolver com outro tipo de gente, com gente mais Fanta Uva, se é que a senhora me entende. Me chame de preconceituoso, doutora, mas ou você bebe Fanta Uva ou você é legal. Eu sou uma completa aberração. Alguma coisa certamente deu errado em algum ponto de minha formação. Eu bebo Fanta Uva E sou legal. Ao menos é assim que eu me vejo. Jamais, doutora. Ninguém jamais pode saber que eu faço isso e espero que a senhora mantenha essa informação no mais absoluto sigilo. Estou certo que o fará. Se não posso confiar numa doutora, em quem poderei confiar, não é mesmo? Faço tudo escondido, na calada da noite, bem longe dos meus amigos. E que delícia que é botar aquele treco roxo na boca, a sensação inebriante daquelas bolinhas descendo goela a baixo. A senhora toma Fanta Uva, doutora? Bom, não importa, mas estou certo de que não toma. Logo se nota de que a senhora é uma pessoa agradável. Esses dias li uma reportagem alertando para o risco de se ter câncer ao se consumir Fanta Uva. O cara que disse isso só pode ser do tipo que toma Fanta Uva, gente chata pra caralho. Eu nunca consegui me envolver com esse tipo de gente. Veja bem, na escola eu até tentei e era confortável. A gente se reunia e podia tomar nossa Fanta Uva a vontade, sem ter que esconder isso de ninguém, mas e depois, doutora? Depois era cada um pra sua casa antes das oito. Não haviam as gargalhadas espalhafatosas, as promessas de amizade eterna, as conversas desinteressadas entrando pela madrugada. Nada, doutora, nada disso combina com Fanta Uva. Tudo isso combina com aquela bebida amarga que eu me esforço tanto para tomar. Não se pode ter tudo, não é mesmo, doutora? Ou será que pode, doutora? Algum desses livros aí atrás da senhora diz que pode, doutora? Eu preciso de ajuda, poxa!


LISTA DE COMPRAS ENCONTRADA NA POCHETE DE MARCO EM 12 DE SETEMBRO DE 2013

  • 3 pães
  • 100 gramas de mortadela
  • pipoca para microondas (bacon, se não tiver, provolone)
  • 1 pote de Nutella
  • macarrão
  • Toddynho (a embalagem com 3 da promoção)
  • 2 litros de Fanta Uva
  • 1 caixa de bom bom (daquela que vem com o Sensação)
  • papel higiênico (pacote com 8)

DO DIÁRIO DE MARCO, 23 DE SETEMBRO DE 2013

Voltemos aos padrões de comportamento. Acho que estou ficando perito nisso, um antropólogo dos botequins. Mas nem é preciso tanto para perceber que um copo de cerveja sempre precisa estar cheio, copos vazios ou meio vazios (neste mundo não há copos meio cheios) são considerados verdadeiros disparates, um desrespeito ao grupo. É dever de todos ficar atento para que nenhum copo na roda esteja vazio. Ao menor sinal de escassez deve-se imediatamente pegar a garrafa mais próxima e proceder pelo preenchimento de todos os copos do grupo. Encher apenas o próprio copo e devolver a garrafa à mesa é a pior infâmia que se pode cometer. Negar que alguém complete seu copo vazio, a segunda pior. Amizades antigas terminam por coisas assim. Por isso, e admito que sou bastante ingênuo por só perceber isso agora, uma estratégia óbvia para não ter que beber doses insuportáveis de cerveja é manter o máximo de tempo possível o copo cheio. Nada de bancar o boêmio e descer tudo de uma vez. Não. Isso só fará com que alguma alma pretensiosamente caridosa encha meu copo imediatamente e eu tenha mais uma sessão de tortura pela frente (veja bem, ninguém faz isso com qualquer outra coisa. Ninguém vê seu pão na chapa pela metade e pede ao chapeiro pra já ir descendo outro pra você. Absolutamente, não. Isso só funciona com cerveja e com outras dessas coisas amargas). Então, devo bebericar aos poucos e até mesmo fingir uns goles. Ser o cara que serve a cerveja nos copos também me rende muitos pontos e ajuda a disfarçar minha artimanha.


DO DIÁRIO DE MARCO, 24 DE SETEMBRO DE 2013

Começo a me arrepender do que escrevi ontem (será que é isso que chamam de ressaca moral?). Ser o único sóbrio num antro de ébrios (e dissimular isso, santo Deus) não seria, no mínimo, desonesto?


DO DIÁRIO DE MARCO, 01 DE OUTUBRO DE 2013

Preciso parar com essa história de tomar suco em público. Ontem quase aconteceu o pior. A Simone almoçava na padaria e quase me pegou com a boca no canudo. Ia ser uma lástima.  Cobri a cena bem em tempo com o Jornal do Metrô.


DO DIÁRIO DE MARCO, 05 DE OUTUBRO DE 2013

Acho que ontem passei dos limites. Jogar cerveja fora escondido é um pouco demais. Até mesmo pra mim.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 07 DE OUTUBRO DE 2013

Chega uma hora nessa vida, doutora, que temos que tomar uma decisão, temos que mostrar, afinal, quem somos, pra que viemos, o que queremos nesse mundo. A senhora pediu e aqui estou eu, finalmente resoluto, por mais difícil e improvável que esta decisão seja, mas decido agora o que já não posso mais tardar: vou começar a beber! Pois posso repetir, caso a senhora não tenha entendido, caso o nervoso tenha embargado minha voz: vou começar a beber! Não, não desse modo vergonhoso como bebo hoje, quero ser um bebedor de verdade, como meus amigos, sim, quero ser como eles! Não, não acho que me diminuo com isso. Longe disso. Se escolhi segui-los, preciso do pacote todo. Não há como ser boêmio sem a boemia. Me entrego. Rirei com eles das piadas ébrias e dançarei nu se preciso for, só não quero mais manter-me sóbrio. Será que consigo, doutora? Estou delirando?


DO DIÁRIO DE MARCO, 12 DE OUTUBRO DE 2013

O orgulho transborda em mim. Ontem consegui tomar dois copos cheios. Sigamos. Um dia de cada vez.


DO DIÁRIO DE MARCO, 19 DE OUTUBRO DE 2013

Dois copos de novo. Sem avanços. Sem retrocessos. Um pequeno progresso, na verdade: emiti dois comentários minimamente razoáveis e convincentes sobre a superioridade das cervejas artesanais em relação às industrializadas. Obtive olhares respeitosos. Pesquisei na internet.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 23 DE OUTUBRO DE 2013

Tenho me esforçado muito, doutora. Acho que não tenho motivos para envergonhá-la. Esses nossos encontros têm sido realmente decisivos. Confesso que no começo achava tudo isso uma grande perda de tempo, quase uma charlatanice. Desculpe, doutora, se não confiei na senhora, mas acho que aqui posso falar a verdade, não posso? Bom, deixa pra lá. Mas o fato é que depois que passei a encarar a cerveja não mais como uma simples bebida, como algo que servisse apenas para me matar a sede, mas como a chave de um portal que me transportasse para um outro estado de espírito, como uma poção mágica que me desse acesso ao lado mais obscuro das pessoas que quero perto de mim, ah, doutora, quando passei a ter essa perspectiva das coisas, tudo ficou bem mais fácil. Afinal, poções mágicas não precisam ser docinhas, não é mesmo, doutora? Pelo contrário, se quero passar para uma outra dimensão, para um outro estágio de existência, tenho que ser submetido a um rito de passagem e ritos de passagem precisam ser bastante dolorosos, não é mesmo, doutora? Diga que sim, doutora! Por favor! Diga alguma coisa doutora, veja bem, qualquer coisa, doutora! Eu não estou indo bem? Estou, não estou?


DO DIÁRIO DE MARCO, 02 DE NOVEMBRO DE 2013

Amanhã… ah, amanhã! Aniversário do Wagner no Isca Bar. Acho que chegou a hora de queimar umas etapas.


DO DIÁRIO DE MARCO, 03 DE NOVEMBRO DE 2013

É hoje!


DESCRIÇÃO DA CÂMERA DE SEGURANÇA DO ESTABELECIMENTO “ISCA BAR” NA NOITE DE 03 DE NOVEMBRO DE 2013, FEITA PELA PERITA DRA. CAROLINA DO VAL

O investigado chega ao estabelecimento de nome “Isca Bar” por volta das 20h45. Está sozinho. Traja camisa polo branca, calça jeans e pochete. Encontra duas pessoas numa das mesas da calçadas e as cumprimenta. Aparenta estar sóbrio e com perfeito controle de suas ações. O investigado se senta junto às duas pessoas. Ato contínuo, o garçom aparece com um copo americano e enche seu copo de cerveja. O investigado sorri com discrição ao garçom e quando este sai, propõe um brinde. Todos riem e bebem juntos. O investigado esvazia seu copo em duas grandes investidas. Um pouco antes das 21h mais duas pessoas se unem ao grupo. O garçom é solicitado novamente. Chegam mais garrafas à mesa. O copo do investigado é enchido mais uma vez. Risadas. Após três investidas, o copo do investigado fica vazio. A pessoa que chegou por último, uma mulher, imediatamente enche o copo do investigado. Ele diz algo e todos riem. Ele ri muito. Dá uma primeira investida no copo e começa a tamborilar os dedos na mesa. Parece inquieto. Um segundo gole. Alguém diz algo e o investigado bate com a palma da mão na mesa e ri alto. Desta vez, ninguém o acompanha no gesto. Por volta das 22h, mais alguém chega à mesa. O investigado completa o terceiro copo. Olha para os lados. Parece muito inquieto. Segue tamborilando os dedos e passa a também a bater a perna direita no chão. Com um gesto, chama o garçom e solicita mais garrafas. Emite um comentário. Aparentemente só ele ri. O garçom chega com as cervejas. O investigado pega uma das garrafas e começa a encher todos os copos da mesa, aparentemente proferindo comentários chistosos a cada um. Alguns lhe sorriem de volta. Alguns parecem se incomodar. Enche seu próprio copo, deixando cair boa parte do conteúdo no chão. O investigado passa a dançar de forma descompassada com o copo na mão. O investigado ri de modo espalhafatoso. Duas das pessoas mais próximas se afastam do investigado com olhares aparentemente assustados. O investigado tira a pochete e a atira na mesa. Segue dançando sozinho com o copo nas mãos. São 22h30 quando ele termina o quarto copo. Todos estão de pé. O quinto copo é enchido. Um gole. O investigado fica em silêncio. O investigado vomita. O investigado desmaia. São 23h12 quando chega a ambulância.


DO ATESTADO DE ÓBITO DE MARCO EMITIDO PELA MÉDICA LEGISTA DRA. THAIS ROCHA, EM 04 DE NOVEMBRO DE 2013

Coma alcoólico diagnosticado às 0h12. O falecido era solteiro e não deixa herdeiros.

Só para carecas

christophaigner

A primeira vez de Antônio foi numa loja de departamentos, numa dessas paredes espelhadas que utilizam para constranger más intenções. Antônio percorria as prateleiras a esmo, sem procurar nada específico, quando seu próprio reflexo o assustou. Faltava alguma coisa na imagem refletida no espelho. Aquele ali era certamente seu reflexo, mas faltava alguma coisa. Sim. E era no cabelo, percebeu confuso. Faltava-lhe o próprio cabelo. Não todo o cabelo, é verdade, mas sem dúvida um belo chumaço. Aquela parte de seu couro cabeludo não deveria estar assim tão a mostra, logo na frente. Sentiu-se como se, de repente, tivesse percebido a braguilha aberta. Sentiu-se nu, vergonhosamente nu. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém o observava, e rapidamente arrumou os fios com as mãos. Uma leve ajeitada e pronto. Lá estava seu cabelo no lugar de sempre. Um susto. Apenas um susto. Deve ter sido a luz, o ângulo ou até mesmo o espelho. Sim, era isso. Nunca acontecera aquilo no espelho de sua casa. Para economizar, as lojas compravam aqueles modelos vagabundos que deixavam algumas pessoas gordas e outras carecas. Carecas, não, despenteadas. Não queria nem pensar naquela palavra horrorosa, que não tinha e nunca teria nada a ver com ele. E ademais, Antônio tinha apenas vinte e três anos e nessa idade, qualquer ser minimamente dotado de inteligência sabe, ninguém no mundo fica careca.

Naquele dia, entretanto, Antônio saiu depressa da loja de departamentos e foi direto pra casa. Confiava que não havia nada de errado com ele, mas queria  ter certeza. Queria garantir que tudo não passara de um engano, de uma piada de mau gosto daquela loja mequetrefe, onde nunca deveria ter posto os pés. Entrou em casa esbaforido, sem nem olhar pro pai, que aquela hora ressonava no sofá da sala. Foi direto ao banheiro e colocou-se frente a frente ao espelho. Até aquele dia, tal objeto nunca representara nada de muito especial para Antônio. Era apenas mais um objeto como outro qualquer, uma interrupção reflexiva na sequência de azulejos coloridos. Os cabelos encaracolados nunca exigiram de Antônio grandes cuidados. Apenas os lavava e vez ou outra aparava suas pontas. Jamais os penteava. E de fato isso não era necessário, já que era um cabelo que se moldava perfeitamente à cabeça de Antônio e se mantinha em sua forma angelical desde a hora em que o rapaz acordava. Uma passada de mão aqui e ali eram mais do que suficientes. Por isso tudo, Antônio jamais se detivera por muitos minutos diante de um espelho.

Daquela vez foi diferente. Daquele vez Antônio se postou diante do espelho como um pecador diante de Deus, no dia do juízo final. Depois de uma olhada geral, onde sem dúvida não se percebia nada de diferente, Antônio foi abaixando pouco a pouco a cabeça, deixando o couro cabeludo se revelar. Com as mãos, foi afastando um pouco os cachos para ver a tragédia em toda sua completude. Um choque. Como não havia percebido aquilo antes, afinal? A sinuosidade dos cabelos encaracolados decerto vinham disfarçando a triste realidade, mas um olhar mais detido, como o que ele dava agora, era suficiente para perceber a lacuna, a clareira, o verdadeiro descampado que havia em seu couro cabeludo pateticamente branco, visivelmente mais pálido do que o resto de seu corpo. Calvo. Vinte e três anos e calvo, ridiculamente calvo. Calvo como nunca fora seu pai, como os dois avôs também nunca tinham sido. É certo que deve ter herdado um gene maldito de algum antigo ancestral, de algum maldito bisavô careca, que a uma hora dessas refestelava-se de alegria no caixão ou no inferno, orgulhoso da herança que tinha deixado ao bisneto. Justo a Antônio, o rapaz metido a comediante que tanta troça fazia de gordos, baixinhos, e por que não, carecas.

Olhou-se de novo no espelho. Dessa vez sem abaixar tanto a cabeça e, para falar a verdade, olhando até um pouco pra cima. Viu que nem tudo estava perdido. Era só  um esboço de calvície ou nem mesmo isso. Talvez só uma queda repentina, fruto de uma má ingestão de cálcio. Sim, ele vira algo parecido na tevê. Tomaria mais leite e os fios voltariam a crescer. E, além do mais, bastava ajeitar os cachos com a ponta dos dedos, que a clareira era coberta sem grande prejuízo ao conjunto. Era só preciso tomar cuidado para ninguém reparar, teria que garantir que nada estivesse a mostra. Chapéu? Era o chá dos carecas, diria o velho Antônio. Não, ele nunca usou chapéus, lhe pinicavam, lhe incomodavam, lhe faziam suar. Não, não era agora que usaria. E se não conseguisse esconder, como explicaria calvície tão prematura? Não, não precisaria explicar nada. Ele tomaria o devido cuidado até que tudo voltasse ao normal.

Foi por essa época que Antônio deixou de olhar pra frente.

Só olhava pros lados. Até então nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de espelhos. Os vidros fumês das lojas, os insulfilmes dos carros, as poças de água na rua e, por que não, as lentes dos óculos de seus interlocutores. Com a tola impressão de que as pessoas não reparavam, Antônio parava em absolutamente toda e qualquer superfície minimamente reflexiva e conferia se não faltava nada em seu couro cabeludo. Quase sempre faltava. E Antônio, sempre olhando pros lados para garantir privacidade, alinhava com os dedos os fios revoltos que, acidentalmente, haviam se deslocado do lugar de origem. Era sua famosa ajeitada, quase um tique nervoso recém adquirido. E assim, nova questão logo lhe ocorreu, se por um lado tinha que evitar a todo custo que qualquer pessoa reparasse no ridículo roçado que tinha sido aberto em sua cabeça, por outro lado, e com importância análoga, tinha que cuidar para que as pessoas não notassem suas cada vez mais constantes ajeitadas nos cachos. Não queria ser visto nem como careca, nem como esquisito. Por isso, a precaução se redobrou, se valia dos espelhos, sim, ajeitava os cachos, sim, mas com parcimônia e sobretudo com muita discrição, olhando sempre pros lados antes de cada nova investida capilar. Com o tempo, Antônio tornou-se perito nisso, valendo-se de técnicas cada vez mais sofisticadas como o uso da função selfie de seu aparelho celular, quando podia olhar-se a vontade para aquela sua nova versão de espelho, enquanto qualquer passante apenas pensava que se tratava de um jovem fotógrafo interessado em registrar a cidade.

O problema mesmo era quando ventava. Quando ventava  era realmente desafiador. Quando ventava, Antônio virava um verdadeiro autômato.  Não havia espelho que desse conta. A coisa virou intuitiva. A cada rufada, uma ajeitada. A cada ajeitada, uma rufada. A mão indo e voltando para o topo da cabeça num intervalo de microssegundos. Um movimento ridiculamente compassado e mecânico. Antônio estava se tornando o pior tipo de careca, o careca não assumido, aquele que Antônio sempre gozou em suas piadas. Aquilo não podia ficar assim. E o pior. Era nítido que suas ajeitadas não estavam mais sendo assim tão eficientes. Agora elas precisavam ser mais demoradas e meticulosas, uma bagunçadinha rápida já não bastava. Se pegava emprestado os cabelos de trás para cobrir os da frente, era o cocoruto que ficava desprotegido. Se puxava os cabelos das laterais para acobertar o topo desnudo, ficava com uma aparência bizonhamente artificial, um falso moicano completamente alheio aos seus costumes. Aquilo estava ficando realmente incontrolável, cada vez mais indisfarçável.

E assim passaram-se alguns anos, dois ou três, e Antônio ia tentando se adaptar àquela vida. É certo que não do jeito que mais gostaria. Os relacionamentos humanos minguaram nesse período. A calvice havia se escancarado. Antônio foi se retraindo, saia pouco de casa (os bicos de tradução que arrumou naqueles anos foram fundamentais em sua nova fase reclusa) e era conhecido pelos poucos que ainda o viam pelo singelo apelido de Che. Isso porque, coisa fácil de se supor, Antônio se rendeu ao desconforto seguro e passou a ser visto apenas de boina na cabeça, o que era bastante inconveniente no verão tropical em que vivia. Só em casa que era diferente. Em casa estava numa posição mais segura, com um espelho privativo sempre à disposição e as boinas eram dispensáveis. Foi quando numa tarde, num momento de pura distração e descuido quase infantil, Antônio se abaixou para pegar algo no chão. A mãe estava perto e viu. E ao ver, falou. Antônio, você está ficando careca, meu filho. E voltou aos seus afazeres, deixando Antônio desconsertado. Aquilo o apunhalou. A mãe decerto era a primeira de muitas pessoas que passariam a reparar em seu infortúnio. Não tinha mais volta. Foi quando decidiu pedir ajuda.

(…)

Na sala de espera do dermatologista chinês, Antônio brincava de adivinhar  as mazelas de cada um dos pacientes ao seu redor. Aquilo o acalmava, paciente sem paciência que era. Espinha. Pereba. Pereba. Espinha. Calvície. Pereba. Sem dúvida espinha. Calvície. Sem dúvida pereba. Eram dois calvos fora ele. Ambos uns quinze anos mais velhos ou mais. O mais azarado era ele mesmo. Pelo menos não tinha mais espinhas. Deus me livre ficar que nem o sujeito que está lendo a Contigo logo ali. Aquilo o acalmava. Dois perebentos mais tarde, Antônio foi chamado. Pode entrar, senhor Antônio, a recepcionista assim o disse. Se-nhor. O chamaram de senhor. Nunca antes na vida o haviam chamado de senhor. Tudo culpa daquela legítima vereda exposta em sua cabeça. Maldita recepcionista. Maldito bisavô careca.

Nem bem entrou no consultório e alguma coisa naquele médico despertou sua atenção. O chinês era absolutamente careca, nem um fio de cabelo. Aquilo não tinha começado bem. Não houve, entretanto, tempo para grandes lamentações. Antes mesmo de Antônio se sentar, o doutor foi tirando uma folha timbrada de um bloco e escrevendo com letras miúdas, porém legíveis: alopécia androgenética. Todo seu infortúnio rapidamente reduzido a apenas duas palavras. Alopécia Androgenética. E o chinês não parava de falar, sem olhar para Antônio, ia dizendo tudo aquilo que ele precisava parar de comer, todos os shampoos que precisava evitar, as boinas que jamais poderia usar e sobretudo, o remédio que teria que tomar, um miligrama por dia, por todos os dias de sua vida, se não quisesse perder o resto que tinha e, quem sabe, se tudo desse certo, se as recomendações fossem seguidas a risca, quem sabe assim uns trinta ou quarenta por cento do que já foi perdido talvez pudessem ser recuperados. Finasterida. Era o nome do remédio. E sim, é claro, não há remédio sem efeitos colaterais. Diminuição da libido, disfunção erétil e diminuição do volume ejaculado, estava lá escrito na bula, Antônio pôde conferir nela as palavras do doutor. Um cabeludo brocha, este era o futuro de Antônio.

Foi por essa época que Antônio voltou a olhar pra frente.

E tudo aconteceu logo após sua ida ao médico. Antônio saiu do consultório sem ter pronunciado uma palavra, já que o doutor careca jamais lhe deu a vez. Mal carimbou a receita e já foi chamando o próximo. Outro careca. Outro brocha que nem ele, coitado, logo ia descobrir. Antônio saiu triste, derrotado, guardou a boina na mochila e saiu pela rua com a cabeça desnuda. Era a primeira vez depois que a calvície havia se tornado indisfarçável. A careca estava ali, para quem quisesse ver, tão lustrosa e brilhante que poderia ser usada como espelho. Uma superfície perfeitamente polida, uma bola de bilhar que pedia pra ser alisada, acarinhada, por que não. E agora, pela primeira vez assim tão a mostra, tão a vontade, tão vulnerável, Antônio pôde sentir orgasmos capilares toda vez que uma rufada de vento entrava pelos seus poros livres. Na esquina, uma farmácia. A receita em suas mãos. Finasterida. Um miligrama. Trinta ou quarenta por cento de cabelos ou sua libido de volta. Se isso fosse mesmo bom, aquele chinês não seria careca, pensou, e com um movimento decidido rasgou de ponta a ponta a receita. Mil pedacinhos de Finasterida pelos ares. Sentiu-se nu, deliciosamente nu, um pelado sem culpa, vitimado por um gene que sabia das coisas. Oh! Bendito bisavô careca. As pessoas o olhavam, era difícil não se atentar para um sujeito em tamanho estado de êxtase, as mãos mecanicamente dirigindo-se à cabeça careca, os dedos alisando deleitosamente o topo nu. As pessoas o olhavam sim e eram gordos e eram feios e eram baixos e sim, também eram carecas, carecas de todos os tipos.

E Antônio, até então determinado a só olhar para os espelhos, nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de carecas.

passarinhos

passarinhos

mancha vermelha colore os bigodes do gato que dorme no pé da mangueira. restos de penas trançadas nos dentes paralisa as pernas do menino que corre. penas verdes. verdes como as penas do periquito australiano. hoje ele não cantou com a chegada do menino. não presta nem pra cuidar de meia dúzia de pássaros mesmo. é disperso como o avô. gaiolas espalhadas pelo quintal. os canários também se foram. a maritaca. a maritaca agonizante no vão entre duas pedras. menino petrificado com o inferno diante de si. crianças gargalham no muro, fazem troça do menino que chora. chamam o gato de volta. o pai surge na porta da cozinha. para de chorar, menino, seja homem! Ande, limpe toda essa sujeira e vem almoçar! 

mancha azulada colore a poeira da calçada cinza e faz brilhar os olhos da menina que corre. três quatro anos e ainda se impressiona com manchas azuladas em calçadas cinzas. olha o carro, menina, já disse pra olhar pros lados. homem aborrecido com a menina que corre, olha as horas. precisa trabalhar e o parque já tomou a manhã toda. venha cá, criatura, nossa casa é por ali. seus olhos já não reparam em manchas azuladas. passarinho, papai, olha só um passarinho dormindo ali!

menino que perdeu a fome tenta alimentar a maritaca morta, o grão de milho inerte no bico da ave. o peso da culpa em sua costas, não prestava nem para cuidar de aves. essa passarinhada toda só servia pra fazer barulho mesmo, pra me emporcalhar o quintal! Ande logo, rapaz! lágrimas do menino escorrem no corpo imóvel da ave em suas mãos. para de chorar seu menino maricas, não botei homem no mundo pra chorar por maritacas! era o pai furioso a lhe arrancar a maritaca das mãos. era a ave morta atirada aos cães que passavam. A maritaca, papai, era a maritaca do vovô… eu prometi pra ele…

o pai caminha em direção a menina e custa a descobrir o azul entre as folhas. menina se agacha e toma a pequena ave com as mãos em concha. olhos fechados da ave, a cabeça inclinada pro lado. meninos correm medrosos dali. somente o pai os percebe. correm diante da visão do homem e da menina, o estilingue toscamente escondido nos bolsos. quero levar ele pra casa, papai, a gente pode fazer uma caminha, brincar com ele, olha como dorme papai, deve estar com muito sono. o pai olha pros lados como em busca de um auxilio, ignora o que fazer, o que dizer para a menina que não sabe o que é a morte. ele também não sabe. a situação é urgente e ele desiste de ter pressa. querida, este passarinho… 

penas de todas as cores se juntam à poeira de um quintal em fim de tarde. menino empoleirado na mangueira já não chora. era homem e não devia chorar por simples maritacas. eram apenas passarinhos e ele nunca mais perderia seu tempo a brincar com passarinhos. o avô nunca tivera juízo mesmo, nunca foi um homem sério. barulho e sujeira, seu pai o ensinara, apenas barulho e sujeira e ele não devia se ocupar com essas coisas tolas. devia estudar, ser um homem que se ocupasse de coisas realmente importantes, um homem como seu pai, um homem que não se importasse com a morte de passarinhos.

…querida, este passarinho está morto. menina surpresa, o olhar demorado pra ave nas mãos, os dedos passando suave pela plumagem azul. os olhos vermelhos do pai, olhos que não podem chorar por passarinhos. como o pezinho de feijão, papai? menina olha séria pro homem que já não consegue falar. ele olha pra baixo, pra longe, olha pra dentro de si. olha pra uma tarde. para uma mangueira no centro de um quintal cheio de penas e gaiolas espalhadas. olha pro seu avô. sim, querida…como o pezinho de feijão. a voz embargada do pai, o olhar sereno da menina. terra, papai, vamos enterrar ele debaixo daquela árvore. obediente, o pai cava o buraco sob o olhar atento da menina, o buraco pro passarinho azul que some por baixo dos punhados que caem. silêncio. pai e menina não se olham, os olhares ocupados com o montinho de terra no chão.  finda a tarefa, as mãos sujas de terra, a menina abraça o pai em sábio silêncio. o passarinho está enterrado e o pai chora, chora no ombro da menina que afinal tudo sabe. chora como nunca chorou, chora por todas as coisas miúdas do mundo, o pranto feliz dos que aprendem a chorar pela morte de passarinhos.

O mendigo que tinha olhos de abismo

mendigo

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado pragueja. Pragueja contra a sovinice dos fabricantes de sacolas, malditos avarentos que não fazem sacolas decentes. Que usem eles sacolas transparentes! Todo mundo vê o que ele vai fazer, o que ele vai comer quando chegar em casa. Com que cara vai ficar quando o mendigo lhe pedir um trocado e ele lhe disser que está liso? E o mendigo sempre está ali. Maltrapilho na saída do mercado. Sentadinho, esperando. E o whisky, meu deus, quem está liso não compra whisky, ele vai perceber. Mas não é da conta do mendigo. O senhor de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado trabalha oito nove horas por dia, cinco dias na semana, paga todos seus impostos, iptu-ipva, como-a-classe-média-paga-imposto-nesse-país-meu-deus, pode muito bem tomar um whiskisinho de vez em quando e, convenhamos, pedir é fácil né, se esse homem trabalhasse não estaria nessa condição deplorável, meu deus. Todo santo dia plantado nesse canto imundo. Era só ele sair do mercado mais distraído que lá vinha o mendigo a lhe mendigar, justo a ele que não conseguia dizer não quando via cara de mendigo. Esses malditos fazem curso de atuação em Hollywood, não é possível. Por isso não olharia. Daquela vez não. Ao menor sinal de um vulto mendicante, ele fixaria o olhar pra frente, com cara de não-é-comigo e seguiria sua vida, contribuindo sem peso para a não proliferação daquela gente, não dê esmolas, não alimente este hábito, a gravação do metrô sempre o adverte. A polícia. Onde estava a polícia numa hora dessas?  A polícia é quem tinha que enxotar aquelas criaturas dali, era cada cara triste, meu deus, e ele não conseguia lidar bem com aquelas cara tristes. Do caixa do mercado já podia perceber a movimentação na calçada, a fila de passantes em linha reta balançando a cabeça e olhando pra frente, a linha de produção dos negadores de esmola e vez ou outra algum desavisado quebrando o fluxo e atirando uma moeda, um resto, uma sobra. Malditos alimentadores de mendigos, decerto tinham olhado. Decerto também eram suscetíveis a olhos de mendigo… ah, aqueles olhos… ficavam impregnados em sua mente pelo resto do dia, por isso não olharia, naquele dia não. Ainda no caixa, reforçou a compra com mais uma sacola, a transparência disfarçada, rótulos virados pra dentro, se orgulhava de sua sagacidade, não haveria olhos de mendigo que lhe agourasse o whisky. Andaria bem na beira da calçada, rente a rua, para não haver o risco de um atentado, sei lá, essa gente não tem nada a perder, né, podem muito bem se magoar – essa gente se magoa fácil – e tentar violentá-lo, essa gente agora está sempre com uma faquinha, um canivete escondido e sei lá, essa gente mata por quase nada. Se a gente não acaba com essa raça, essa raça há de acabar com a gente. Sim, a cidade precisava de mais policiais. A Rota. Isso, era preciso espalhar a Rota nas ruas. Sim, sem dúvida era isso. Passos decididos na porta do mercado. Um passo, dois passos, três. Não, não olharia. Pôde ver o vulto, imaginar o corpo magro, o olhar virado pra ele, lhe estudando, lhe medindo, lhe implorando para que virasse o rosto e caísse no abismo daqueles olhos de mendigo. Não. Não olharia. Ontem mesmo ele olhou. Olhou e viu o que não queria. Aqueles olhos, meu deus, aqueles olhos eram tão desgraçadamente iguais aos seus, aquele mendigo era tão desgraçadamente igual a ele, por isso não, de novo não, não olharia, por nada nesse mundo, aquele olhar de novo não.

Mas olhou.

Foi só o mendigo começar a falar que ele olhou, foi só sobrou-uma-moeda-qualquer-dez-centavos-serve-pra-eu-comprar-um-marmitex que ele olhou, aquela voz desgraçadamente tão humana. E pensar que faltava tão pouco. Mais dois ou três passos e o mendigo já não seria problema seu, mais cinco ou seis e ele já poderia ler as manchetes que adornavam o jornal esportivo e nem se lembraria mais do mendigo, mais dez ou doze e seus passos largos já teriam alcançado a esquina da rua em que estava seu carro. Com as sacolas no banco do carona, ele ligaria o rádio numa estação de músicas tranquilas e tomaria o rumo de casa. Em casa, beijaria a esposa e juntos tomariam whisky. Dormiria uma noite de sonhos serenos. Mas ele olhou. Um vacilo e ele olhou. Face a face com o homem que lhe pedia. Face a face consigo mesmo. E como era insuportável olhar para si mesmo.

A garrafa de whisky na sacola. A garrafa de whisky em suas mãos. O olhar triste do mendigo.

sobrou-uma-moeda e pá – era a garrafa estilhaçada na cabeça do mendigo.

qualquer-dez-centavos-serve e pá – era o olhar do mendigo, o olhar que também era o seu, todo marcado, ensaguentado, dilacerado pelos estilhaços da garrafa.

pra-eu-comprar-um-marmitex e pá – era o mendigo delirando, as pessoas se acercando e aquele olhar, aquele maldito olhar teimando em continuar ali.

Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Som de sirene ao fundo. Mais três ou quatro chutes dos passantes no mendigo. Solidariedade ao cidadão tão bem apessoado, tão brutalmente violado. A violência desta cidade não tem limites, meu deus. Não se pode nem fazer compras tranquilo. Homens fardados carregam mendigo delirante pro fundo do carro cinza. Nunca antes tanta gente olhou pra ele. Multidão se dispersa. Cheiro de álcool e sangue nauseiam os que ainda passam. Funcionários do mercado, vassoura, rodo, pano ligeiramente úmido e sabão, muito sabão, para limpar tudo aquilo, toda aquela fedentina. Os fregueses, essa catinga pode afastar os fregueses. Melodia de sirenes enervam cidadão de bem que bebe água com açúcar na porta do mercado. Gentileza gera gentileza. Respiração arfante pelo terrível esforço. Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar!

Cai a noite dormida sem whisky.

(…)

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado já não pragueja. Sai do mercado aliviado e confiante. No canteiro da calçada, flores com espinhos recém plantadas. As pequenas gotas da chuva que agora se incia não atrapalham o caminhar leve do homem. Hoje ele não terá que lidar com o abismo.

bonança

enchente

prefeitura vai mandar os botes. cabe quatro por vez. cinco quem sabe apertando seis. já têm gente no ginásio. na igreja tá lotado. a escola também encheu. é mesa-cadeira-caderno espalhado. aula só ano que vem. ou nem. o dinho veio e prometeu. dinho filho da puta. vai drenar o caralho. subiu vazou encheu. porra, dinho. vai pedir voto para puta que o pariu. é claro que perdi tudo, homi, num ta vendo. cama-armário-sofá tudo carcomido, enlamado tudo já. acabou. menina, sandália havaiana num pé, o outro nem. até o chinelo chuva levou. o irmão, lama até no peito. doença do rato, meu deus, moça do posto diz que mata. igual o outro, meu deus, num pode. helicóptero da tevê zumbindo no céu. tá ficando preto que nem. será que chove mais? volta aqui menina!

ele tá ali. agora eu achei. ali preso nas pedras. coitadinho dele, nem sabe nadar. volta aqui Ted, o que você tá fazendo aí, Ted. vou aí te buscar, vou aí te salvar, pera aí que já vou.

bota tudo pra cima. aquele ali talvez consegue salvar. caminhão da marabrás trouxe, o rio levou. ai, que tá começando a feder. que comprar novo o quê, homi. esses aí eu nem paguei ainda nem. dezoito prestações aquele ali, meu deus. dinho, filho da puta. cabe mais gente na igreja. pastor veio avisar. mulheres crianças primeiro. os velhos talvez dê pra encaixar. carai, homi, sai da frente. sim, homi perdi tudo, to fudida to na merda to na lama. vizinha vai ajudar a limpar. agora não, mais tarde talvez. urso de pelúcia, homem bom jacaré na camisa que deu, enganchado nas pedras, correnteza levou. raio pipoca no céu negrume da porra. vai voltar por bem ou a chinela vai ter que cantar, menina?

aguenta firme, Ted, tá dificil, mas eu já vou. tem muita lama aqui, Ted. minha perna tá afundando, mas calma que eu já vou. vou tentar me segurar ali. como é que você foi parar aí, menino?

rabo da ratazana passeia pelo pé do prematuro no berço. o colchão molhado fede as larvinhas começam aparecer. o menino nadando na água lama bosta que só cresce. os pingos de chuva voltam. corre. puxa que lá vem mais água. porra de céu preto. olha que lá vem raio trovão. agora fudeu de vez. e esse bote que não chega. vai para puta que o pariu, dinho. valei-me santa bárbara-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem. que cachorro, homi. cachorro morreu eu vou lá pensar em cachorro. cheiro da bosta chega a arder o nariz. cameramen pede pra parar. tanta água assim dá vontade de mijar. a correnteza só aumenta. urso de pelúcia desprende da pedra e se vai. para de berrar, menina. porra, menina… ela tá se afogando! ai, meu deus, socorro… alguém ajuda a menina!!!

Ted, tá dificil, eu não aguento. eu vou cair. a chuva voltou, Ted. a água tá muito forte, Ted. Ted? Ted, não. volta aqui, Ted. não vai embora, Ted! Ted, nããão! meu deus, quanta ág… socorro!

hoje já não chove nem. moça boa ajudou com as despesas tudo. hoje a tevê não veio. todo mundo em volta pra olhar. braços fechados da menina morta nem mesmo urso tem para abraçar.

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Foto de Ingo Penz – Enchente de 1974, em Tubarão.

Só para gulosos

A Julio Ramón Ribeyro

gula

Saindo do consultório, com olhar decidido, entrou no primeiro bar que encontrou. Ela estava lá. Do jeito que ele gostava. A parte de baixo deliciosamente protuberante, já insinuando as delicias que continha em seu interior. A parte de cima afilava-se aos poucos, garbosa. O bico apontando para o infinito. João Roberto não pôde conter a torrente de saliva que se formava em sua boca, antecipando o gozo que seria abocanhar aquilo tudo.

– Eu quero aquela ali. A mais moreninha – disse indicando ao balconista.

– Boa escolha, meu rapaz. Essa aí está fresquinha.

Aquela seria sua última coxinha. Estava resoluto. Ou precisava estar. A doutora acabara de lhe informar os números. Glicose 103. Colesterol 242. Triglicerídeos 197. Estas eram suas novas medidas. Mais tarde faria uma fezinha. Há pouco passado dos 40, não fazia um exame médico desde o tempo em que era obrigado a fazer a educação física no colégio. Sua magreza incorrigível, além dos mais sofisticados apelidos, sempre lhe dera a certeza de que tudo corria bem. Era a maldita genética se manifestando, opinara a doutora. Não fosse pela exigência da repartição, que passara a cobrar de seus funcionários exames periódicos, jamais saberia que era um forte candidato a sofrer um infarto do miocárdio, sempre nas palavras da fatídica doutora. Aquela definitivamente seria sua última coxinha. E bem, já que seria sua última coxinha, que fosse também seu último refrigerante de cola. Ou melhor, um guaraná. Guaraná é fruta. Fruta é saudável. Teria de começar de algum lugar. Faltava pagar. Não sem antes um último chocolatinho, souvenir do tempo em que era comedor incontrolável de guloseimas. Agora não. Agora era saudável. Escolheu o menorzinho, com recheio de frutas secas. Orgulhou-se de sua escolha.

Despediu-se do bar rumo a uma vida mais leve, longe de açucares, gorduras e carboidratos. Iria emagrecer ainda mais, é verdade, mas estava na moda ser magro, lera na revista de atualidades que folheara na sala de espera da doutora. O dia era de folga. Depois da consulta, um dia livre e saudável pela frente. Inauguraria aquela sua nova fase fitness com uma caminhada pelo parque. No caminho pela rua, o olhar sempre para a frente. Olhar para os lados poderia ser muito perigoso para seus novos objetivos. Padarias, docerias, lanchonetes, rotisserias, pizzarias e bistrôs por todos os lados. Todos estes estabelecimentos, seus velhos conhecidos, tinham um único e bem claro objetivo: lhe empanturrar de gulodices até que seu coração estourasse. Mas não. Não conseguiriam. João Roberto não lhes dava bola. Mirava para frente. Para o futuro.

Até que ouviu. Nem bem andara cem metros e ouviu. Claras e retumbantes eram as vozes. Feira. Havia uma maldita feira em seu saudável caminho. No maldito caminho que escolhera para ir ao benfazejo parque naquela manhã. Pastel. Era alucinado por pastel. Bauru. Não resistiria a um maldito pastel de bauru. Assim como a coxinha, precisava se despedir também de um pastelzinho de bauru. Comer pastel na feira é algo cultural e ele não podia se safar assim de sua cultura. A cultura era algo que não se podia negar. Ao menos por uma última vez. A cultura não podia morrer. Não seria ele o arauto do fim de uma tradição de comer pastel na feira e, é claro, acompanhado de seu indissociável caldinho de cana com limão. O último, é claro.

Agora seguiria com fones de ouvido. Não daria mais atenção aos vendedores ambulantes, porta-vozes da obesidade desenfreada. O olhar fixo adiante e música de academia entrando pelo aparelho auditivo. Como era bom ser saudável. E além do mais, haviam os números. Eles precisariam cair muito se não quisesse sofrer sanções da repartição. Do jeito que a crise estava feia, temia até mesmo uma demissão. Seria o primeiro demitido por excesso de gordura no sangue, mas era bom não duvidar. A repartição estava em crise. O país estava em crise. O misto quente subira de preço duas vezes naquele ano e as fatias de queijo estavam cada vez mais finas. Era bom não duvidar de nada. Os números tinham que cair. E cairiam. Ele era agora um homem muito saudável que caminhava rumo ao parque.

Não fosse pelo fato de ser segunda-feira e o parque estar fechado, é claro.

Só lembrou-se deste pequeno inconveniente diante do cadeado trancado que parecia lhe sorrir sarcasticamente. Aquilo estava ficando difícil. É claro que os funcionários do setor lúdico precisavam descansar. Não havia sábado, domingo ou dia santo em que eles não estavam de prontidão, aguardando os saudáveis usuários como João Roberto, com um sorriso no rosto. Mas tinha que ser justo no dia em que ele resolvera mergulhar de cabeça num mundo sem calorias? Sim, aquilo estava ficando muito difícil.

A frustração lhe abrira o apetite.

Almoçaria. Em frente ao parque, santo Deus, um restaurante vegano. A coisa estava ficando mesmo séria. Lembrou-se dos números e atravessou a rua. Mas não. Estancou na porta do recinto. Aquilo podia ser perigoso. Seu organismo podia estranhar um baque tão forte. Teria que ir aos poucos. Devagar e sempre. Uma alimentação saudável tinha que ter constância, planejamento. Andou meia quadra e entrou num quilo. Ali podia controlar melhor o cardápio. Ter uma alimentação saudável, como não, mas com ligeiras notas lipídicas, com traços de carboidratos para trazer ao paladar um pouco de sua vida pregressa, aquela que tivera fim na manhã daquela segunda-feira sem parque. Avistou a couve com bacon. Por que não? Aquele restaurante sabia das coisas. Como era boa a sensação de estar comendo bacon sem culpa, podendo falar pra todo mundo que tinha almoçado um nutritivo prato de couve. Também comeu cenoura e pimentão, a dupla que recheava seu bife a role. Uma delicada fatia de bacon como adorno. Berinjela. Sim, comeria berinjela. Agora ele comia berinjelas. Ficavam ótimas sob queijo derretido e um suculento molho de tomates. Como era bom ser saudável. Para assentar melhor a comida, um cafezinho. A doutora não falara nada a respeito de cafezinhos. Açúcar ou adoçante? Açúcar, sim. Um fundinho de açúcar pra quebrar o amargo. Amarga já era a vida. E aspartame, a doutora certamente saberia, dava câncer. João Roberto não queria ter câncer. Açúcar, açúcar. Seguramente açúcar. Uma ou duas colherzinhas até lhe fariam bem, depois de tudo o que passou com a história do parque.

Já podia voltar para casa. Faria agora um caminho alternativo. Não queria dar de cara com a feira e seus pasteis novamente. Queria chegar logo em casa e tirar uma boa soneca. Não comeria nada até o fim daquele dia. Os números. Precisava baixar os números. Agora não tinha mais desculpas. Não depois daquele dia. Não depois de ter deixado uma vida inteira de gulodices para trás. Mas o problema estava na frente. Bem na sua frente. Com letreiros coloridos e luzes hipnotizantes, a duas quadras de sua rua, surgia em toda a sua glória o carro dos churros. Doce de leite, chocolate ou avelã. Com cobertura ou sem. Crocante por fora e macio por dentro. Embrulha-se para viagem. Não podia resistir a isso. Pediu três. Devoraria um agora, na frente do homem que o preparava. Na cara mesmo da sociedade. Devoraria de modo explícito. Lamberia a pontinha saliente de doce de leite, depois mordiscaria aquela massa crocante, deixando a canela se espalhar pelo rosto. Devoraria em homenagem à doutora. Uma mordida ao Colesterol, outra à Glicose e outra aos Triglicerídeos, aqueles danadinhos! E uma mordida farta ao infarto! Viva o miocárdio! Os outros dois levaria para comer à noite, antes de dormir. Nem mesmo escovaria os dentes.

Gota d’água

gotas
– Guarda-chuva, senhor?

– Um dos grandes, por favor.

– Vai um pro menino?

– Ah, não vê que ele quer ir abraçado comigo? Um só basta.

O avô tinha resposta pra tudo. Até mesmo para disfarçar sua sovinice. Pois bem, andariam abraçados.

A chuva lhes pegara de surpresa. Saíram rápido do parque, seguindo pela avenida em direção a casa do avô. Sorte ter aparecido um vendedor.

– Vô, de onde eles vêm? – o menino apontava para trás.

– Eles quem?

– Eles. Ali. Aqueles homens oferecendo guarda-chuvas…

– Ora, você não sabe? – perguntou o avô, um pouco para criar suspense, um pouco para ganhar tempo.

– Não, vovô. Estava sol e eles não estavam ali. Foi só começar a chover e eles apareceram. Parece mágica… já perguntei isso pro papai e ele mudou de assunto…

– Mas isso todo mundo sabe. Eles são gotas de chuva que se transformam em vendedores assim que caem na calçada. As pessoas estão tão preocupadas com suas coisas que nem percebem quando eles surgem. Por isso tem tantos desses por aí.

– Mas vô… – o menino ficou pensativo. Queria encontrar alguma falha na história do avô, mas não conseguiu.

O avô, afinal, tinha mesmo resposta pra tudo.

Cruzaram a esquina. Um homem se aproximou. Um saco plástico na cabeça fazia as vezes de guarda-chuva. Estendeu ao avô um chapéu com moedas.

– Uma moeda, senhor?

– Não tenho –  disse o avô a resposta automática.

Seguiram caminhando. O avô apressando o passo e obrigando o neto a fazer o mesmo. O menino olhando pra trás sem perder o ritmo. Mirava o homem das moedas cada vez mais longe.

– Você não tem moedas, vô?

– Não… – detestava mentir ao neto, mas não quis cair em contradição.

– Então porque não aceitou a moeda que aquele moço te ofereceu? Ele tinha tantas!

– Ele não estava me dando moedas, querido..

– Hum… é verdade… estava vendendo, né, vovô? Ele também deve ser gota de chuva. Deve ter se transformado em vendedor de moedas assim que caiu na calçada… As pessoas estão tão preocupadas com suas coisas que nem percebem quando eles surgem… por isso tem tantos desses por aí, não é, vovô?

Sem que houvesse resposta, chegaram em casa. Naquela tarde, o avô não quis brincar. Passou a tarde toda sentado, olhando pro vazio. O neto brincava tranquilo com seus jogos de montar.

Aquele menino tinha resposta pra tudo.

Tolstói na condução

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Enfim, começaria a ler o livro.

Sentou no único lugar vazio do ônibus e começou ali o ritual. Primeiro passava a ponta dos dedos pela capa, sentindo a suavidade que somente aquelas encadernações lisas e duras proporcionavam. Estancou no pequeno declive que havia entre a capa e a lombada. Percorreu a ranhura de alto a baixo com a ponta do indicador. De relance, olhou para os lados para assegurar-se que não estava sendo observado e só então levou o grosso volume em direção às narinas. Inalou fundo a fragrância que vinha do interior. Sem perceber estava de olhos fechados. A frequência cardíaca sensivelmente alterada. Deslizou o tomo em direção à boca, obedecendo ao desejo repentino de mordiscar, de lamber aquela capa. A brusca freada do coletivo o trouxe de volta. A senhora ao seu lado o olhava com um misto de reprovação e interesse. Enfim, começaria a ler o livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira. Adorava ler as primeiras frases dos livros, sobretudo as impactantes como aquela. Percorria estantes inteiras de bibliotecas e livrarias colecionando inícios. Muitos dos livros que leu, o fez motivado pela força da primeira linha. Julgava um bom critério. Não raro o livro desandava passadas algumas páginas, mas a força da frase inaugural compensava. A senhora ao seu lado se levantou pedindo licença. O ônibus já tinha vencido boa parte do caminho e ele nem percebera. Lá fora, as pessoas se acotovelavam no ponto para garantir seu lugar no coletivo. Trago seu amor de volta. Pague após resultado. A frase estampada no poste chamou sua atenção. Aquele podia ser outro bom começo de livro, de um livro que ele ia querer ler. Seguramente um livro sobre pessoas que, a sua maneira, eram infelizes. As operações comerciais envolvendo amores liquidados não lhe parecia fonte de grande felicidade, seja da parte que requeria de volta o amor, seja da parte que estava tendo o amor requerido. O único feliz da história toda parecia ser a pessoa remunerada para fazer a curiosa transação. Um senhor de pé junto ao seu banco, no corredor, lhe acertou com a maleta. Àquela altura, o ônibus já estava bem cheio. Ofereceu-se para carregar o objeto que lhe agredira. O senhor aceitou. Retornaria ao livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira. Não gostava de ser interrompido e tampouco de se perder em digressões. Aquela frase, contudo, solicitava ser mastigada, remoída, ruminada, ainda que a quantidade de páginas que tivesse pela frente não fosse encorajadora de longas divagações. Se eu tiver que voltar, eu paro no meio do caminho e compro uma faca para cortar a garganta dele. Virou-se para trás. A moça franzina diminuiu o tom de voz. Gritava ao celular. Que mania aquelas pessoas tinham de berrar ao celular. Agora ele sabia bem mais daquela mulher do que gostaria, do que seria necessário saber sobre alguém com quem apenas se divide a condução. Uma assassina. Uma infeliz assassina que compra facas para cortar gargantas alheias e que usa sua própria garganta para gritar em conduções lotadas, fazendo saber a todos que não passa de uma assassina infeliz. Qual teria sido o crime do candidato à degola? O hobbie de acumular prelúdios literários talvez só se equiparasse ao de tentar adivinhar biografias de desconhecidos. A moça não queria voltar. Decerto que tomara aquele ônibus buscando evadir-se para sempre. Aquele mundo que deixava não era mais o dela. Uma tolice ter deixado o celular ligado. Agora a solicitavam (a chantageavam?), mas ela não voltaria. Se tivesse que voltar, iria armada. Pararia no meio do caminho e compraria uma faca para cortar a garganta dele. Mas não, não voltaria. Agora ele teria que se virar sem ela. Mas ele nunca aprendera a ser independente. Usaria de todos os recursos para que ela voltasse. Nem que tivesse que recorrer a um desses anúncios de poste. Trago seu amor de volta. Pague após resultado. Mas não. Ela não voltaria.

O senhor de pé ao seu lado pediu a maleta de volta. Iria descer. Santo Deus! Já estavam ali! O ponto final já se aproximava e ele não tinha passado da primeira frase. Retornaria ao livro.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são… O tremor, que parecia vir de dentro de seu próprio corpo, o interrompeu no meio da frase. Também ele deixara o celular ligado. Pensou em ignorá-lo, mas a curiosidade não o permitiu. Podia ser algo importante. Além do mais, não suportaria sentir aquilo vibrando. Fechou o livro e apanhou o aparelho do bolso. Os cabelos brancos e o sorriso cansado do pai iluminavam a tela. Não atenderia. Com um toque, desligou a ligação e, ao fazê-lo, sentiu-se desligando o próprio pai. Mas também… por que sempre o ligava nos momentos mais inoportunos? O tempo, os remédios, a violência, eram sempre os mesmos assuntos, justo com ele que não se interessava nem pelo tempo, nem por remédios, nem por violência. Assim ele só murmurava concordâncias, mas nem lembrava da última vez que tinha prestado atenção ao que o pai falava. Justo com ele que tinha tantas coisas importantes pra fazer. Justo com ele que tinha aquele livro pra ler. Mas e se daquela vez fosse importante? E se ao pai tivesse ocorrido algo de urgente? E se não fosse ele quem lhe buscava, mas alguém que o encontrou na rua desacordado e localizou o contato do único filho na agenda do telefone? O pai sempre vinha com aquele papo de que pressentia a morte breve e que aquela sempre podia ser a última ligação. Claro que podia. Todas podem, ora. Mas teria que retornar. O remorso lhe incomodaria mais do que tempo, remédios e violência. Malditas relações pautadas pelo medo de perder. Malditas eram as famílias felizes, todas elas tão iguais entre si, todas elas tão diferentes da sua. Maldito era aquele livro.

O ônibus parou. Com o livro nas mãos, ele caminhou rápido em direção à porta e saiu. Junto à calçada, homens despejavam entulho em uma caçamba. Ele olhou mais uma vez para aquele livro e o lançou para junto do entulho. Deu às costas e seguiu o seu caminho.

Foi ser infeliz a sua maneira.


Créditos da imagem: Jhonatas Jesus Silva