nota de rodapé

 

Diante daquela picanha sangrando na Churrascaria Passarinho, sentiu que deveria abandonar aquela vida, tão lindas as folhas verdinhas lavadas e como suculentas ficam bem temperadas, decidiu parar de comer carne. Esse tipo de decisão envolve muita coisa, a principal delas é de que você não é dono da sua vida, assim como existem os vigilantes do peso, também existem os caras que se preocupam quando você não curte mais aquele churrasquinho de domingo, nada mais triste do que uma bela churrasqueira cheia de abobrinha, berinjela e cebola. Nesses momentos bate certa solidão, todos os seres carnívoros estão ao seu redor, parece que todo mundo antes do peito ou da mamadeira chorou por uma bela carne ao ponto. Depois de deixar a namorada na casa dela, foi para o mercado comprar algumas hortaliças, queijo, passeou pelas prateleiras naturebas, coisas caras muito caras, tinha que entrar no Google para encontrar uma alternativa que não salgasse tanto no bolso, perambulou pelo lugar como aquele povo de cidade pequena passeia pela praça da igreja no sábado de noite, comprou pão integral, queijo fresco, sempre achou um horror esse negócio de pão integral na chapa com queijo fresco, dane-se pensou enquanto a operadora do caixa passava aquelas coisas olhando para ele, sentia certa censura naquele olhar,pagou, partiu. Sábado, noite fresca, pensava em comprar um cachorro, hábitos novos, no domingo futebol na casa do cunhado, carne, muita carne, um frango seria legal, um peixe talvez, caramba que dificuldade pensou, entrou na 23 de maio, avenida vazia, parecia feriado, de repente freou bruscamente, quase matou o pobre animal, colisão na traseira, nada muito sério, um cidadão exaltado veio interpelá-lo, ele abriu a porta do veículo ignorando os palavrões do sujeito um tanto ubriaco, foi em direção ao pobre animal assustado olhando para ele, era um porco, pegou o animal como se fosse um gato e o colocou no banco de trás, disse para o individuo se acalmar, não o porco, mas aquele que bateu na traseira, pediu que ligasse na segunda, acionou o carro, olhou pelo retrovisor para o porco sentindo-se feliz, o porco não, ele, é certo que o quadrúpede estava atônito com tudo aquilo, dia seguinte antes de entrar no Google deu com uma informação no site Terra, Vegetariano adota porco perdido na 23.Foto: Bia Lopes em Flickr

A gente se vê

Ela é tão linda, pode acreditar nessa fita que te digo agora sem compromisso nenhum, no fundo você não tem nada a ver com isso, nem expectora esse ambiente, ela despertando cheiro de hortelã coisa de amor que suporta qualquer odor, esse sentimento que carrega o desjejum para a cama, destila a manhã e puta papinho brega né não? o lance é que com tantos atributos ela não saca nada de Gal Costa, cara, isso é o fim podes crer assim como acreditar que ainda existe uma saída para esta canalha que impera o Congresso, viva o Barão de Itararé de que esse mundo é redondo mas tá ficando chato, sei lá não sei, sexo é vida e coisa e tal mas nem com a bandeira do MENGÃO na parede do quarto dá para suportar não curtir FA-TAL, é coisa da maior importância estar fora de casa e não ter compromisso em desplugar o MP3, bater pé, partir, deixando debaixo do  abajur um poema de adeus, porra, devia ter usado carbono afinal, o texto estava até bom, acho que ela não vai sacar essa partida por causa de Maria da Graça, querubim, marfim, na escola namorei uma Graça, sempre fui de poucos amores, tinha olhos lindos ela, era cheirosa e tivemos uma parada meteórica, curtimos cinema, nos amassamos no vão livre  da MASP, tremenda arquitetura, tudo era lindo, tinha inflação, a gente podia deitar o cabelo em qualquer canto, eu era hippie, ela não, queria futuro decente ainda sem concluir o colegial, era assim naquela época, o ensino era um pouco melhor, me trocou por um acara que tinha carro, uma máquina, ela foi, fiquei numa boa escutando Pink Floyd, teve um dia que até chorei mas, saquei que a solidão é boa, melhor sozinho vez em quando, estou de novo nessa de fazer a minha estrada, a filha está no  Japão ganhando uns trocados, me manda algum, as sobras me interessam, sempre gostei de reciclar manja?, a ex-mulher se casou com um cara que toca pandeiro no bar do Alemão, vou lá vez em quando ver o sorriso dela, ainda está límpido, impávido e no fundo bem no fundo paga uma rodada de cachaça e por dentro ri da minha cara, tudo bem não faz mal, se não preciso de muito dinheiro graças a deus, ainda gosto de caminhar pela avenida alimentando o colesterol do bem, hoje é domingo, dia de não se fazer nada, abrir a casa, deixar o sol entrar, esquecer de Luli que ainda não deve ter lido o que escrevi, deve achar que é um recado de que fui ao mercado, nunca lê o que eu escrevo melhor assim, vai ficar na espera do almoço, tem uma Baden guardado, vou chamar o Tibiu e o Ronaldo para uns tragos, uma massa, encher de aroma o quintal num dolce far niente colossal, a gente se vê em páginas futuras mas, se quiser pode aparecer ainda moro no mesmo lugar, evoé.

Putz!

Na sonolência fui atender estridente obsoleto aparelho, que só está ali para diminuir o preço do combo, as coisas ultimamente tem que ser feitas desse jeito mas, o produto final é  lixo que não se recicla. Devia ser engano pensei, não era, também não se tratava de voz conhecida, Dejanira, psicóloga me disse, confesso que a fala dela puro veludo foi alento sol na manhã cinza. Sei que a vida não tá Freud prá ninguém, já cortaram o bolo da tarde na repartição, no que posso ajudar pessoa que estudou Lacan? Disse que minhas frases de efeito do tipo, tá no inferno abraça o diabo ou faz um lanchinho com toda viadagem, tira o miolo, e manda um mineiro quente com orégano e tomate, faziam com que seu paciente Ivan saísse da melancolia e desse umas gargalhadas. Nem preguntei quem era o dito cujo, logo me lembrei do poeta do guichê trinta e seis. Eu referência? fim dos tempos enfim, no que podia ajudar? Ela queria um lero qualquer (eficiente a moça pensei), quem sabe uma caipirinha? De pronto aceitei. Queria ver se de repente rolava uma parada Reicheana. Combinamos um butuiquim próximo ao trabalho. Trocamos algumas informações de como estaríamos vestidos para facilitar a coisa. Despertado daquele jeito, não era pedido de doação, nem Moacyr Franco vendendo ginkgo biloba, banho e pé na estrada.

Cheguei antes que ela, fiquei imaginando como seria a figura, tantos grilos de cucas alheias (desculpe, quando me empolgo utilizo gírias do passado), teria um batom ao menos nos lábios? Quando ela chegou já bateu um Reich em mim, como que diante daquela beldade, o fulano da cabine 36 podia falar das baboseiras que digo, algumas que nem me lembro, como as que ela relatou pela manhã? Não queria que tivéssemos um papo candinha ( tipo fofoqueira), só sabia do cara que ele escrevia e um dia pensou em usar batina. Com toda a habilidade barista, papinho furado, chopinho, petiscos, foi se soltando, falou do método que utilizava, que não escarafuncha o passado do paciente, o nome do psicanalista é parecido com o de uma cerveja preta artesanal, disse que fazia um bom tempo que pensava em fazer contato comigo, enquanto falava, só viajava no decote, nem ouvia direito. Piadinhas, outros traguinhos, a carne é fraca, em sua vida de análises, pessoa repleta de cultura, poucos caras vão se arriscar, assim fica a vida, não gira amor, ela estava naquela de dar dó, precisava de um ombro amigo, não era exatamente um amigo, um ogro, lobo babando, acabou topando conhecer o meu chatô. Tremendo frenesi, não sei se existe definição clínica para o que fizemos, tanto que a velhinha do 202 bateu no teto dela chão meu, não era qualquer batidinha que iria colocar fim naquela volúpia, até que de repente o que era bom chegou ao fim, aquele silêncio clássico no refrear da respiração, balões de pensamentos ocupando o espaço, foi aí que a porca torceu o rabo:

– Seu apartamento é bem organizado.

– Sempre gostei das coisas em seu devido lugar.

– Obrigada por não ter fumado, tenho renite, mas já tinha me preparado.

– Putz.

– Aconteceu alguma coisa?

– Você queria falar era com o Valmir

– Você me confirmou pelo telefone, no bar pintou uma química tão boa, que nem falamos os nossos nomes direito, como se a gente já se conhecesse.

– No sono confirmei, eu sou o Valdir, aluguei o apartamento dele tem seis meses.

Nostalgia

Das três irmãs, Caridade, Paz, foi justamente Esperança a última que morreu, difícil falar sobre isso sem que alguém não solte o velho ditado. Tão simpática, sem falar o quanto era lindinha, coloquei uma moldura com o retrato dela na estante ao lado dos livros de poesia, foi uma forma que encontrei para não me esquecer de ambas, como se fosse uma chegada até a missa quase todo domingo olho para o quadro dela pela manhã, hoje não foi diferente, embora, tenha  sido despertado pelo canto de um galo antes das dez, acho que o bicho deve ser gringo vindo do oriente, ainda não se encaixou no fuso por outro lado, pode ser daqui mesmo, na mais pura demonstração que humanos e galináceos atravessam instantes conturbados de suas vidas. Já reparou na falta de humor dessa gente toda? Amizades indo para o ralo por coisas banais, sem falar nas tolices que rolam pelas vias por onde andamos? Ontem estava numa festa, onde em determinada rodinha um fulano esculhambava o genial Woody Allen, dizia que seus filmes estão repletos de piadinhas para uma intelectualidade burra, que Velozes e Furiosos é que é cinema de verdade, Los Angeles é mil vezes melhor que nova Iorque que deve ser a pior cidade da América, era feroz a discussão, também sentia vontade de esganar o desgraçado mas, puxei espelho interior para me ligar que estou feito essa gente, sem a capacidade de perceber que é preciso manter a medida das coisas que fazemos, puxei uma taça de vinho e acabei rindo da cara do povo que se emputecia de bobeira. Dizia tia Esperança que a vida é um nó, depois soltava uma gargalhada quase perdendo de vista os dentes postiços. Hoje, dobrando a curva da velhice acho que ela tinha razão, sinto saudade de sua casinha em Taubaté onde passávamos o final de ano, uma nostalgia boa do medo do galo ciscando no terreiro e de como desejava que ele fosse para a panela sempre que começava a cantar de madrugada.

Sem piedade

A frase dita reverberou, invadiu a mente feito a erva da vez primeira esticados na areia, aquela pegada, puta trepada, doce era o suor, a vida um tapa na dobra do tempo. Pediu que repetisse, outra coisa saiu de sua boca. Meses passados desde que decidiram juntar os trapos, deram uma banana para os empecilhos da família, o sonho da felicidade compartilhada. Aquelas palavras soltas no nada, encheram seu rosto como se tivesse levado uma bofetada, se sentiu um farrapo qualquer atirado no lixo, o cheiro do que se transformara não era nada agradável, percebeu que carregava um peso maior sobre os ombros, a divisão deixou de ser igual, não era possível reciclar coisa alguma ou resgatar o que estava perdido. A casa aos poucos passou a receber acochambramentos cotidianos, com o tempo tudo necessita de certo retoque, ficaram assim feito portas e janelas destrambelhadas, empoeirada se tornou a poesia dos dias anteriores, o amor resultava em transpiração azeda, era um fim de caso, não seriam como os velhinhos que caminham de mãos dadas pela praça, nada de filhos, nem cães ou gatos, caixão não tem gaveta, espaço único, nada Romeu e Julieta, goiabada com queijo, que sabor acentua na boca, o que fica?

– O que você quiser imprestável. Foi o que falou diante dos frangos resfriados, na fila do açougue, naquele mesmo lugar já haviam escolhido o que serviriam para os amigos, chamavam os açougueiros pelo nome, não ousou repetir, isso era pior do que qualquer coisa. Pediu um bom filé, sussurrou no ouvido dele que faria a cavalo, por dentro ele se encheu de brio, se animou ainda mais quando ela mesma pagou pelo nobre pedaço de boi. Pegou em seu braço como nos tempos de namorados, flanavam pelo meio fio, nem se importavam com o aroma de bosque que exalava o córrego no caminho, contornos de uma paz que jamais houvera. Abriu a casa, foi para a cozinha, pegou velha faca que estava com a lâmina como nova, aparou com pequenos talos as pontas de gordurinha que ele tanto amava, frigideira quente, azeite, o filé, a fumaça invadindo as narinas, que sabor ganhava aquele espaço. Aproximou-se dela, encostou por trás, mastro armado, era ela o pendão, seria sim, diminuiu o fogo, o afastou um tanto para que não se queimasse, ficou de joelhos, pulcro genuflexório, desceu as vestes, passou a lamber delicadamente os testículos, gemido para a eternidade, quando percebeu que ele ergueu a cabeça, pegou novamente a faca, sem piedade, debaixo para cima meteu em seu frenesi, empurrou o corpo asqueroso, não se preocupou em apagar a carne que começava a queimar, limpou o sangue das mãos na toalhinha da mesa, sem olhar para trás pegou a carteira, as chaves, trancou a porta e partiu.

E dai?

 

moreno

não é nada complicado, é só comprimir, sem medo, contato de peles, existem coisas bem mais difíceis você não acha? polegar com dedo médio, plá,plá, olha o trompete, a bateria de fundo, os dedos plá plá, Miles Davis. se liga no mar, a areia molhada, os caminhantes numa depressão paulistana e o instrumento do gênio reverberando sem limite. fazemos o dia como a gente deseja, tá dentro de nós essa radiação que afeta os insensatos. ébano, já atravessou bravas marés, já esteve assim como você, mergulhado no nada e vazio é espaço para se ocupar. vamos bebericar esse destilado, sem gelo, quente,  som, sabor, dedos plá plá, vamos animar nosso cordão, fluir nessa batida boa, fora toda neura, dentro a paz, mais um trago, dois, vaza pela dispersão qualquer sensação de infelicidade, não é o primeiro dia do resto de nossas vidas e sim, o de mais um carnaval, plá plá,

de passagem

sentada com a mãe no assento anterior ao meu, a criança lia em voz alta todas as placas, deve ser este o terceira estágio da existência, caminhar, falar, ler puxa, antes de tudo tem o pensar, se sentir dentro desse mundinho, de quantas etapas é composta a vida? esbaforida, se sentou ao meu lado a moça, pele repleta de sono, se ajeitou, abriu a bolsa, de lá retirou um estojo, uma base para corrigir a manhã, aos poucos com um pincel acertou o tempo, o batom pintou lábio nu que podia ter ficado como estava, acontece, que era no tom do esmalte, ela se cobria em tons harmônicos, era cinza a manhã, colocou óculos de grau, através de suas lentes viajava eu em versos buscando o sol, ofereceu o seu lugar para uma senhora, corado de vergonha ofereci o meu, a bondosa anciã recusou as ofertas, rimos os três, a distância entre nós se foi, podíamos percorrer nova via, mas era tarde, em segundos o ponto na estação de metrô. deu tchau, foi, não portava fragrância artificial, seu aroma era de tempo de inocência, a criança do banco da frente adormecia, se era menina, menino, não sei, assim como jamais saberei o nome da guria.

de-passagem

 

Elegia

Me tem na língua, meu aroma impregna teu corpo, no fundo você me evapora. Quando me cheira, mesmo cercado por tanta gente, é como se dançássemos sozinhos por essas calçadas fétidas que pisas, teu caminhar, viajantes olhos, tantos sonhos, teu níquel curto que se multiplica numa divisão de pães líquidos, acho lindo tudo isso sabia?. Fico excitada, sou toda água, quando você acaricia o bojo que me cerca, sedução que me pega enquanto destila versos. Logo escuto tua gargalhada tonta, de soslaio observo o puxar fundo no tabaco, que incensa de perfume a noite, você disseca vida em toda a sua plenitude. Guardo aquele retrato até hoje, para você deve ser uma passagem sem importância, não te culpo, sei que tua memória transita pelo tempo, seremos saudade um dia, estaremos juntos, ficaremos na eternidade. Ao som desse saxofone sem fim, cobertos por estrelas. Passeio por teu fluxo de pensamentos, uma brisa leve sopra, finalmente sós, se desprenda dessa pena e penetre pela ultima vez a sua Maria da Cruz.

 

 

 

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Morro amanhã

Valmir Junior

Não podia passar daquele dia, tanta gente já passou por essa experiência, alguns não tiveram sucesso, isso é terrível, além da solidão já existente é o olhar de pena dos outros. Primeiro aquele bom café na padaria, pãozinho fresco, o rebolado de Cibele, tão gentil garçonete, aquele jornal de sempre, que o antigo amor chama com certa razão de imprensa golpista, o rito de todos os dias, insuportável caminhada, voltou para casa com a cabeça no inevitável momento, como fazer? que tipo de instrumento? puxa, morava no primeiro andar, qualquer tentativa de salto impossível, o velho calibre guardado, perfeito, daria uma utilidade para aquela coisa, era sexta-feira, ia destruir o final de semana das pessoas mais chegadas, a família teria que se deslocar lá do sul, o churrasco do domingo é religioso, essas tradições todas que ele não era muito apegado mas, que morando longe e, ainda com os fundilhos doloridos pelo pé que levou da amada, acabava por sentir saudade daquela tosca reunião familiar. Adiou para o dia seguinte, achou o poeta num butiquim, amigo novo, ficaram deslizando numa Boazinha por horas, versos, poeminhas do Bandeira que pipocavam, um tema qualquer poesia pronta em guardanapo de bar, coisa ébria que não se aproveita diziam, a garrafa se foi, a noite também, nova manhã, não seria justo abandonar a causa justamente no dia da criação, ecoava em sua cabeça a declamação do santo Vinicius, após abrir a porta com certa dificuldade se atirou no estofado em sono profundo. Despertou lá pelo meio da tarde, o sol batia feroz na sala, foi até uma birosca comprar o almoço, se sentia um desses escritores que fazem da vadiagem uma arte, ria por dentro enquanto arrastava o chinelo pela calçada, decidiu comer por ali mesmo, não queria deixar louça suja, um corpo já era demais, como as pessoas são fúteis poderiam utilizar certo desleixo com a higiene para nem pesquisarem com mais atenção a causa pelo ato fatal, o povo do lugar era de doer, a comida boa, as coisas nunca são como a gente deseja né não? sacou do telefone um filme sobre um casal existencialista, chegando no apê jogou o filme em sua tv modernosa, abriu uma Baden Baden, acendeu o charuto, felicidade total, ficava pensando se a preparação de todos aqueles que talharam a vida teriam sido assim, uma despedida feliz e coisa e tal, abriu outra, última, não seria justo que bebessem a sua cerveja, ainda mais uma Red Ale, uma esticada num documentário sobre o filósofo Diógenes, fresca noite, certo cansaço lá se foi guiado pelo sono. Domingão azul, praia de paulistano, pastel na feira, a menina também estava lá, ela sempre sensual, óculos escuros, as marcas da noite, puxa já brincaram entre lençóis, palmito, legal, garapa doce, língua nos lábios, caiu na área é na cal, partiram os dois para a horizontal, ladinho da feira, a casa dela, sozinha, separada tinha bom tempo, essa gostosa brincadeira, passear pelado, almoçar o “restê dontê”, ouvir um Coltrane, chupar a fruta até caroço, fica pedia ela, não disse ele, amanhã volto das férias, nem ia, já sabia que era chegar em casa pegar o velho 22 e meter uma bala na cuca, foi uma maratona, o corpo, estava assim como diz a rapaziada, só o pó, pegou a arma na gaveta, sujo, barba por fazer, corpo assim não deve ser encontrado, barbeado, cheirosinho, foi ver os gols da rodada, dormiu, quando acordou com o despertador do telefone celular berrando, viu a arma sobre a mesa, não hesitou, colocou pronta para finalmente com um estampido se despedir de tudo, com um estrondo acordar a vizinhada chata, botar abaixo os alicerces de condomínio pacífico, era segunda e, por detestar esse dia, resolveu deixar para terça.

Valmir Junior escreve sobre vísceras abertas do nada. Mais textos do autor em: http://inacioval.blogspot.com.br/