no bole bole

De deus esse líquido que escorre pelos lábios, era gelado, escorre quente, ouriça serpente, que levanta cabeça, quer romper o ar, quando o olhar fita dedinho que impede que escorra pelo corpo baba sabor. Língua no bore bore, teleco teco, salve Baco! Transcendência a íris que baila na maré ébria desse dia pulcro pagão. Não é feriado, tem Papa peludo quase pelado,  alpercata de couro bom,  luxo só sem ser mulata. Diacho pobre diabo, fiquei assim como estou, sem dar primeiro passo, desgraçado fantasiado de homem santo, lambe suor da moça, dedos, vai chupar até o caroço, sou ruim não mas, espero que tenha gosto de fel.

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Ela é paulistana

Ela é paulista, she is paulistana, se encantou comigo quando soube que vim do Piauí, tem amigos bacanas, somos um na cama e chorou quando vimos La La Land. Sábado curti uma pizza, diversão comprada com cartão de crédito e tédio a perder de vista. Domingão numa bike, felizes lindinhos, paradas para um beijinho, Av. Paulista, arte livre, povo feliz, orla de comida japonesa, deslizamos num prato, hashi em punhos distantes das árvores para que não mosque escremento de pombos. Tem paladar refinado mas, não achou graça da buchada de bode quando conheceu mainha. Ela é paulistana, carro domingueiro, buzina antes de abrir o sinal. Tem humor típico da capital, ri de quase nada, ama cachorro e nem que saber de criança. Sou bichano dela mas, pediu que tirasse o excesso de pelos, atendo qualquer apelo dela afinal, ela é paulistana.

Na espreita

Uma vez por semana me fixo nessa via, chego cedo, me preparo e fico apostos, na pressa muita gente nem me vê, tenho a impressão de que alguns nem olharam para o céu, necessito de visibilidade, não quero ser o centro das atenções mas, parte do caminho de alguns rumo ao bolso pelo menos, vivo de migalhas assim como os pombos que ficam aos meus pés e não posso embora, a minha vontade seja de dar uma bica em todos eles.

Cada lugar tem o seu jeitinho, no centro além de pombos, uns caras cantando arroxa aqui e acolá com o povão ao redor, fico parado com uma vontade louca de dar um salto e gritar feito o cara barbudo com a bíblia na mão, só penso, eles podiam estar roubando, matando em vez disso ficam soltando sons quase gemidos num rebolado só.

Nessa calçada a musica é melhor, as pessoas desfilam cores, principalmente as mulheres, tem uma pequena que apareceu nas últimas duas semanas, na primeira ficou debaixo do toldo, óculos escuros, telefone na mão, impaciente, fumou dois cigarros, desistiu, foi embora e nem me viu. Na segunda, tentou ficar parada no mesmo lugar, acendeu o primeiro cigarro, o dono da loja é antitabagista, assim que ela encostou levantou a lona, a minha já estava armada só de olhar para ela, então, ela me viu, caminhou em minha direção, confesso que quase espirrei com a fumaça do cigarro naquela tarde, que graça, sussurrou fitando o poema lápide sob os meus pés, puxou uma nota de dez, jogou na caixa, se foi, caminhava linda sem ser notada, espero que hoje ela volte, desço da caixa e lhe dou um abraço.

A picada

Uma abelha picou meu braço causando um inchaço, até rima, pobre ou rica, mas rima. Ruim é o desconforto, de repente o braço parecia o do Popeye; num primeiro momento, porém, ficou parecido com o do Brutus; minha Olivia Palito, que não é tão palito assim, achou engraçado, mas fez carinho tão bom e até poetou alisando minhas mãos. André teve essa encheção do inchaço, mas não foi no braço que a abelha picou, foi justamente no rosto onde causa mais embaraço e tudo isso é muito chato, porque André é um menino que corre, brinca e é percussivo à beça e criança sabe como é? Costuma ser levada da breca e brincaram com o inchaço de André e André se encheu porque além da transfiguração do rosto, o treco coça, mas não se deve coçar porque a coisa engrossa, e André por alguns instantes ficou como eu, parado observando o nada, introspectivo em seus pensamentos, ouvindo as crianças lá fora. Em meio ao seu silenciozinho particular, caiu numa curta indagação enquanto a pele não se restaurava, por que a abelha que faz um mel tão doce veio fazer este mal comigo, justamente eu que não faço mal para ninguém?

nota de rodapé

 

Diante daquela picanha sangrando na Churrascaria Passarinho, sentiu que deveria abandonar aquela vida, tão lindas as folhas verdinhas lavadas e como suculentas ficam bem temperadas, decidiu parar de comer carne. Esse tipo de decisão envolve muita coisa, a principal delas é de que você não é dono da sua vida, assim como existem os vigilantes do peso, também existem os caras que se preocupam quando você não curte mais aquele churrasquinho de domingo, nada mais triste do que uma bela churrasqueira cheia de abobrinha, berinjela e cebola. Nesses momentos bate certa solidão, todos os seres carnívoros estão ao seu redor, parece que todo mundo antes do peito ou da mamadeira chorou por uma bela carne ao ponto. Depois de deixar a namorada na casa dela, foi para o mercado comprar algumas hortaliças, queijo, passeou pelas prateleiras naturebas, coisas caras muito caras, tinha que entrar no Google para encontrar uma alternativa que não salgasse tanto no bolso, perambulou pelo lugar como aquele povo de cidade pequena passeia pela praça da igreja no sábado de noite, comprou pão integral, queijo fresco, sempre achou um horror esse negócio de pão integral na chapa com queijo fresco, dane-se pensou enquanto a operadora do caixa passava aquelas coisas olhando para ele, sentia certa censura naquele olhar,pagou, partiu. Sábado, noite fresca, pensava em comprar um cachorro, hábitos novos, no domingo futebol na casa do cunhado, carne, muita carne, um frango seria legal, um peixe talvez, caramba que dificuldade pensou, entrou na 23 de maio, avenida vazia, parecia feriado, de repente freou bruscamente, quase matou o pobre animal, colisão na traseira, nada muito sério, um cidadão exaltado veio interpelá-lo, ele abriu a porta do veículo ignorando os palavrões do sujeito um tanto ubriaco, foi em direção ao pobre animal assustado olhando para ele, era um porco, pegou o animal como se fosse um gato e o colocou no banco de trás, disse para o individuo se acalmar, não o porco, mas aquele que bateu na traseira, pediu que ligasse na segunda, acionou o carro, olhou pelo retrovisor para o porco sentindo-se feliz, o porco não, ele, é certo que o quadrúpede estava atônito com tudo aquilo, dia seguinte antes de entrar no Google deu com uma informação no site Terra, Vegetariano adota porco perdido na 23.Foto: Bia Lopes em Flickr

A gente se vê

Ela é tão linda, pode acreditar nessa fita que te digo agora sem compromisso nenhum, no fundo você não tem nada a ver com isso, nem expectora esse ambiente, ela despertando cheiro de hortelã coisa de amor que suporta qualquer odor, esse sentimento que carrega o desjejum para a cama, destila a manhã e puta papinho brega né não? o lance é que com tantos atributos ela não saca nada de Gal Costa, cara, isso é o fim podes crer assim como acreditar que ainda existe uma saída para esta canalha que impera o Congresso, viva o Barão de Itararé de que esse mundo é redondo mas tá ficando chato, sei lá não sei, sexo é vida e coisa e tal mas nem com a bandeira do MENGÃO na parede do quarto dá para suportar não curtir FA-TAL, é coisa da maior importância estar fora de casa e não ter compromisso em desplugar o MP3, bater pé, partir, deixando debaixo do  abajur um poema de adeus, porra, devia ter usado carbono afinal, o texto estava até bom, acho que ela não vai sacar essa partida por causa de Maria da Graça, querubim, marfim, na escola namorei uma Graça, sempre fui de poucos amores, tinha olhos lindos ela, era cheirosa e tivemos uma parada meteórica, curtimos cinema, nos amassamos no vão livre  da MASP, tremenda arquitetura, tudo era lindo, tinha inflação, a gente podia deitar o cabelo em qualquer canto, eu era hippie, ela não, queria futuro decente ainda sem concluir o colegial, era assim naquela época, o ensino era um pouco melhor, me trocou por um acara que tinha carro, uma máquina, ela foi, fiquei numa boa escutando Pink Floyd, teve um dia que até chorei mas, saquei que a solidão é boa, melhor sozinho vez em quando, estou de novo nessa de fazer a minha estrada, a filha está no  Japão ganhando uns trocados, me manda algum, as sobras me interessam, sempre gostei de reciclar manja?, a ex-mulher se casou com um cara que toca pandeiro no bar do Alemão, vou lá vez em quando ver o sorriso dela, ainda está límpido, impávido e no fundo bem no fundo paga uma rodada de cachaça e por dentro ri da minha cara, tudo bem não faz mal, se não preciso de muito dinheiro graças a deus, ainda gosto de caminhar pela avenida alimentando o colesterol do bem, hoje é domingo, dia de não se fazer nada, abrir a casa, deixar o sol entrar, esquecer de Luli que ainda não deve ter lido o que escrevi, deve achar que é um recado de que fui ao mercado, nunca lê o que eu escrevo melhor assim, vai ficar na espera do almoço, tem uma Baden guardado, vou chamar o Tibiu e o Ronaldo para uns tragos, uma massa, encher de aroma o quintal num dolce far niente colossal, a gente se vê em páginas futuras mas, se quiser pode aparecer ainda moro no mesmo lugar, evoé.

Putz!

Na sonolência fui atender estridente obsoleto aparelho, que só está ali para diminuir o preço do combo, as coisas ultimamente tem que ser feitas desse jeito mas, o produto final é  lixo que não se recicla. Devia ser engano pensei, não era, também não se tratava de voz conhecida, Dejanira, psicóloga me disse, confesso que a fala dela puro veludo foi alento sol na manhã cinza. Sei que a vida não tá Freud prá ninguém, já cortaram o bolo da tarde na repartição, no que posso ajudar pessoa que estudou Lacan? Disse que minhas frases de efeito do tipo, tá no inferno abraça o diabo ou faz um lanchinho com toda viadagem, tira o miolo, e manda um mineiro quente com orégano e tomate, faziam com que seu paciente Ivan saísse da melancolia e desse umas gargalhadas. Nem preguntei quem era o dito cujo, logo me lembrei do poeta do guichê trinta e seis. Eu referência? fim dos tempos enfim, no que podia ajudar? Ela queria um lero qualquer (eficiente a moça pensei), quem sabe uma caipirinha? De pronto aceitei. Queria ver se de repente rolava uma parada Reicheana. Combinamos um butuiquim próximo ao trabalho. Trocamos algumas informações de como estaríamos vestidos para facilitar a coisa. Despertado daquele jeito, não era pedido de doação, nem Moacyr Franco vendendo ginkgo biloba, banho e pé na estrada.

Cheguei antes que ela, fiquei imaginando como seria a figura, tantos grilos de cucas alheias (desculpe, quando me empolgo utilizo gírias do passado), teria um batom ao menos nos lábios? Quando ela chegou já bateu um Reich em mim, como que diante daquela beldade, o fulano da cabine 36 podia falar das baboseiras que digo, algumas que nem me lembro, como as que ela relatou pela manhã? Não queria que tivéssemos um papo candinha ( tipo fofoqueira), só sabia do cara que ele escrevia e um dia pensou em usar batina. Com toda a habilidade barista, papinho furado, chopinho, petiscos, foi se soltando, falou do método que utilizava, que não escarafuncha o passado do paciente, o nome do psicanalista é parecido com o de uma cerveja preta artesanal, disse que fazia um bom tempo que pensava em fazer contato comigo, enquanto falava, só viajava no decote, nem ouvia direito. Piadinhas, outros traguinhos, a carne é fraca, em sua vida de análises, pessoa repleta de cultura, poucos caras vão se arriscar, assim fica a vida, não gira amor, ela estava naquela de dar dó, precisava de um ombro amigo, não era exatamente um amigo, um ogro, lobo babando, acabou topando conhecer o meu chatô. Tremendo frenesi, não sei se existe definição clínica para o que fizemos, tanto que a velhinha do 202 bateu no teto dela chão meu, não era qualquer batidinha que iria colocar fim naquela volúpia, até que de repente o que era bom chegou ao fim, aquele silêncio clássico no refrear da respiração, balões de pensamentos ocupando o espaço, foi aí que a porca torceu o rabo:

– Seu apartamento é bem organizado.

– Sempre gostei das coisas em seu devido lugar.

– Obrigada por não ter fumado, tenho renite, mas já tinha me preparado.

– Putz.

– Aconteceu alguma coisa?

– Você queria falar era com o Valmir

– Você me confirmou pelo telefone, no bar pintou uma química tão boa, que nem falamos os nossos nomes direito, como se a gente já se conhecesse.

– No sono confirmei, eu sou o Valdir, aluguei o apartamento dele tem seis meses.

Nostalgia

Das três irmãs, Caridade, Paz, foi justamente Esperança a última que morreu, difícil falar sobre isso sem que alguém não solte o velho ditado. Tão simpática, sem falar o quanto era lindinha, coloquei uma moldura com o retrato dela na estante ao lado dos livros de poesia, foi uma forma que encontrei para não me esquecer de ambas, como se fosse uma chegada até a missa quase todo domingo olho para o quadro dela pela manhã, hoje não foi diferente, embora, tenha  sido despertado pelo canto de um galo antes das dez, acho que o bicho deve ser gringo vindo do oriente, ainda não se encaixou no fuso por outro lado, pode ser daqui mesmo, na mais pura demonstração que humanos e galináceos atravessam instantes conturbados de suas vidas. Já reparou na falta de humor dessa gente toda? Amizades indo para o ralo por coisas banais, sem falar nas tolices que rolam pelas vias por onde andamos? Ontem estava numa festa, onde em determinada rodinha um fulano esculhambava o genial Woody Allen, dizia que seus filmes estão repletos de piadinhas para uma intelectualidade burra, que Velozes e Furiosos é que é cinema de verdade, Los Angeles é mil vezes melhor que nova Iorque que deve ser a pior cidade da América, era feroz a discussão, também sentia vontade de esganar o desgraçado mas, puxei espelho interior para me ligar que estou feito essa gente, sem a capacidade de perceber que é preciso manter a medida das coisas que fazemos, puxei uma taça de vinho e acabei rindo da cara do povo que se emputecia de bobeira. Dizia tia Esperança que a vida é um nó, depois soltava uma gargalhada quase perdendo de vista os dentes postiços. Hoje, dobrando a curva da velhice acho que ela tinha razão, sinto saudade de sua casinha em Taubaté onde passávamos o final de ano, uma nostalgia boa do medo do galo ciscando no terreiro e de como desejava que ele fosse para a panela sempre que começava a cantar de madrugada.

Sem piedade

A frase dita reverberou, invadiu a mente feito a erva da vez primeira esticados na areia, aquela pegada, puta trepada, doce era o suor, a vida um tapa na dobra do tempo. Pediu que repetisse, outra coisa saiu de sua boca. Meses passados desde que decidiram juntar os trapos, deram uma banana para os empecilhos da família, o sonho da felicidade compartilhada. Aquelas palavras soltas no nada, encheram seu rosto como se tivesse levado uma bofetada, se sentiu um farrapo qualquer atirado no lixo, o cheiro do que se transformara não era nada agradável, percebeu que carregava um peso maior sobre os ombros, a divisão deixou de ser igual, não era possível reciclar coisa alguma ou resgatar o que estava perdido. A casa aos poucos passou a receber acochambramentos cotidianos, com o tempo tudo necessita de certo retoque, ficaram assim feito portas e janelas destrambelhadas, empoeirada se tornou a poesia dos dias anteriores, o amor resultava em transpiração azeda, era um fim de caso, não seriam como os velhinhos que caminham de mãos dadas pela praça, nada de filhos, nem cães ou gatos, caixão não tem gaveta, espaço único, nada Romeu e Julieta, goiabada com queijo, que sabor acentua na boca, o que fica?

– O que você quiser imprestável. Foi o que falou diante dos frangos resfriados, na fila do açougue, naquele mesmo lugar já haviam escolhido o que serviriam para os amigos, chamavam os açougueiros pelo nome, não ousou repetir, isso era pior do que qualquer coisa. Pediu um bom filé, sussurrou no ouvido dele que faria a cavalo, por dentro ele se encheu de brio, se animou ainda mais quando ela mesma pagou pelo nobre pedaço de boi. Pegou em seu braço como nos tempos de namorados, flanavam pelo meio fio, nem se importavam com o aroma de bosque que exalava o córrego no caminho, contornos de uma paz que jamais houvera. Abriu a casa, foi para a cozinha, pegou velha faca que estava com a lâmina como nova, aparou com pequenos talos as pontas de gordurinha que ele tanto amava, frigideira quente, azeite, o filé, a fumaça invadindo as narinas, que sabor ganhava aquele espaço. Aproximou-se dela, encostou por trás, mastro armado, era ela o pendão, seria sim, diminuiu o fogo, o afastou um tanto para que não se queimasse, ficou de joelhos, pulcro genuflexório, desceu as vestes, passou a lamber delicadamente os testículos, gemido para a eternidade, quando percebeu que ele ergueu a cabeça, pegou novamente a faca, sem piedade, debaixo para cima meteu em seu frenesi, empurrou o corpo asqueroso, não se preocupou em apagar a carne que começava a queimar, limpou o sangue das mãos na toalhinha da mesa, sem olhar para trás pegou a carteira, as chaves, trancou a porta e partiu.

E dai?

 

moreno

não é nada complicado, é só comprimir, sem medo, contato de peles, existem coisas bem mais difíceis você não acha? polegar com dedo médio, plá,plá, olha o trompete, a bateria de fundo, os dedos plá plá, Miles Davis. se liga no mar, a areia molhada, os caminhantes numa depressão paulistana e o instrumento do gênio reverberando sem limite. fazemos o dia como a gente deseja, tá dentro de nós essa radiação que afeta os insensatos. ébano, já atravessou bravas marés, já esteve assim como você, mergulhado no nada e vazio é espaço para se ocupar. vamos bebericar esse destilado, sem gelo, quente,  som, sabor, dedos plá plá, vamos animar nosso cordão, fluir nessa batida boa, fora toda neura, dentro a paz, mais um trago, dois, vaza pela dispersão qualquer sensação de infelicidade, não é o primeiro dia do resto de nossas vidas e sim, o de mais um carnaval, plá plá,