Marcas na estrada

leila

m a r c a s n a e s t r a d a m a r c a s n a

Nuca na nuca na nu… palavra pontuda penetrou meus tímpanos, entrou fundo e revolveu a região das lembranças. A primeira vem lá dos anos 80. O repórter gritava na radio Capital: foi na nuca… na-nuca onde o tiro certeiro sem misericórdia de covardes sanguinários atingiu o caminhoneiro só para roubar a carga que ele levava mataram o homem, mataram, atiraram, atiraram seu corpo no barranco. O radialista falava de crimes e mortes às dúzias todas as manhãs, repetia altíssono as palavras como se fosse palhaço dirigindo espetáculos no circo. Soube então que os policiais encontraram meu pai orientando-se pelas marcas vermelhas impressas na faixa branca da margem da estrada.

De repente o fio da memória esticou-se bem lá para trás. A linha branca no asfalto remeteu-me às conversas animadas com meu pai quando viajávamos em férias para a Bahia na boleia do mercedão laranja. Na minha criancice dos 10 anos, via papai todo sabido, confiante e orgulhoso, especialmente quando se punha a nos falar das coisas misteriosas que aconteciam nas estradas de noite. Era impressionante sua paciência e gosto de nos contar histórias e explicar tintim por tintim quando estava abraçado ao enorme volante guiando o caminhão. Coisa difícil de viver lá em casa. Certa vez, viajando naquelas horas que a gente não sabe se é dia ou noite, e que já não se enxerga bem as coisas, perguntei-lhe: pai porque tem essa linha branca aqui do meu lado no chão. Pra orientar o motorista de noite, olha lá do outro lado da linha não tem mais asfalto e, no escuro, se o motorista não tiver a linha branca para se guiar pode jogar o caminhão no barranco. Fiquei com olho fixo naqueles traços brancos. Quanto mais o caminhão corria mais os traços se alongavam até virar linha, o caminhão diminuía a velocidade a linha voltava a virar traços. Como que hipnotizada, olhar grudado na linha, confiava no meu pai, vendo que as rodas do caminhão corriam sempre ali do ladinho dela.

Já adulta, sabendo dirigir na estrada escura, o que não sabia era me guiar na vida que escurecera de repente com o desaparecimento sinistro de meu pai. Percorrendo de carro a mesma BR 116 Rio Bahia, com minha mãe e irmãos, em sua procura, mostrávamos e pregávamos sua foto nos restaurantes, postos rodoviários, delegacias, hospitais, borracharias, mecânicos, corpo de bombeiro e tudo quando era ponto que pudesse ter visto caminhoneiros. Ativada por aquele tipo de coragem que nos põe em movimento em situação de desespero, orientava-me agora olhando a linha branca na escuridão do asfalto e do espírito.

O tempo fez seu trabalho de esmaecer a memória e com ela a dor aguda, mas a linha branca continua nítida dentro de mim. Nos dias difíceis da vida, tenho um tipo de sonho que se repete com pequenas variações. Em alguns fico cega de repente guiando na estrada, em outros perco a direção do carro, em outros estou andando na escuridão sem conseguir enxergar um palmo à frente do nariz. O final é sempre o mesmo: fixo os olhos no asfalto escuro à procura da linha branca que me dê orientação e alívio.

Leila Bomfim

 

Senhora de Si

Nada é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso do que o homem… Respiro o pensamento de Montaigne sem sentir a menor ponta de orgulho de ser uma a mais, na fila de sempre. Lá vem mais uma.

Ela chega gingando, atirando os cabelos para trás, ombro à mostra de um lado, braço nu do outro, generoso decote ovalado realçando os seios querendo saltar. Poderia muito bem ser modelo das passarelas das grandes cidades. Não, não era só um simulacro de modelo. Na moda a democracia fizera seus milagres: deu conta de igualar o visual dos jovens de Paris, Milão, Tóquio, Moscou e de Campo Limpo.

Campo Limpo era o destino do ônibus cuja fila, num átimo, dobrara a esquina. Agora do meu lado, pertinho de mim, a garota dava mostras de que a democracia não avançou para o essencial da vida: hálito de fome ou dente doente, pele manchada, cabelos sem brilho, olheiras e outros vestígios, denunciavam faltas acumuladas. Trazia nas mãos um volante que abria e fechava de maneira irrequieta e, nos olhos, expressão ansiosa de quem queria me mostrar uma preciosidade.

Peguei o papel que passou as minhas mãos como uma relíquia todo enroladinho. Acolhi seu olhar e com ele a fala em jorro. Disse-me ter encontrado, ali pertinho no chão, o que sonhara e procurava há tempo, seria em breve a patroa de si mesma; faria seu próprio horário, andaria por onde quisesse, falaria com quem desejasse, não iria viver de salário, viveria do lucro de suas vendas. Ao perceber meus olhos arregalados de indagação, continuou explicando seu alívio porque agora sim, não repetiria a sina da mãe empregada doméstica que não voltava para casa no final do dia, e desconjurava o destino do pai pedreiro, preso num descuido, não sabia bem a razão.

Contou-me ter feito 18 anos ontem, agora sim seria senhora de si. Voltaria ao abrigo, sua casa até hoje cedo, só para pegar as roupas e visitar os quatro irmãos menores que lá ficaram. Ah! Esses filhos de rato que nascem pelados, precisava fazer alguma coisa pra tirá-los daquela vida…

Abri o volante devagar, incrédula com tal bem-aventurança nestes tempos sombrios. Em caixa alta estava escrito: ESTAMOS SELECIONANDO MOÇAS PARA TRABALHAR NA VENDA DE YAKULT. ESSA É UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE SER AUTÔNOMA. ÓTIMA MARGEM DE LUCRO.

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Leila Bomfim, assistente social, doutorou-se em psicologia social, atuando em projetos sociais e como perita no sistema judiciário, encontra na literatura uma das melhores chaves para mergulhar na realidade existente e imaginar realidades potenciais.