Marola

E se as ondas me prendessem? Nunca tão solta, tão mar, e por isso atada. O mundo pronto para me tragar e eu submersa na euforia da madrugada de quarta-feira. Tentada a desfazer malas, cancelar planos, ficar. A seu lado. Do lado do sol. Da praia que desperta grão a grão. Do vestido disforme na areia.

Os primeiros rostos da manhã invadindo nosso território cavado na água salgada. Guto dançando na rebentação. E nós dois suspensos no oceano, cegos de tanto nos ver, despidos de olhos alheios. Repletos dos dias que foram o início do fim.

O corte no joelho já nem parece existir. Enfim, o que resolveu foi banho de mar. O mais longo banho de mar. Não funcionou, a vodca sobre o sangue. O tio disse: joga, é álcool, vai limpar. Mas só ardeu mais. Música alta, saliva, empurrões e o machucado latejando. Estava errado, o tio.

Dobraram o vergalhão sobre a calçada para rasgar quem passasse? Lembrança metálica do Carnaval paulistano.

Seria melhor ter vindo antes. Se bem que tem limite. Satura, tanto sal. Quando chegamos, eu mal via seu rosto. Agora essa luz que reflete nos dentes. Mas ainda a água fresca… E os cílios cobertos de orvalho.

Já muita gente na praia. Carrancas. Nos veem, eu, você e Guto. Que olhem. O melhor fim de festa. De nós dois. Porque vou mesmo. Nem você quer que eu fique; você não sabe, só eu sei. Essa gana é também por termos prazo para acabar. Mantemos o programado.

Guto não está bem.

Só um último mergulho e vamos, pingando pela estrada.

Você levanta o Guto?

Algodão enrosca no corpo molhado, os botões não alcançam as casas. Se eu soubesse que viríamos, tinha trazido toalha. Mas nossos rumos são assim. Acontecem. Aposto que sua mãe nem deu falta do carro. Engraçado foi seu primo acompanhar. Quatro dias com você na multidão dos blocos e, quando escapamos, ele vem junto. Na despedida. O resto da semana não conta, será limbo.

Gotas na pele evaporam rápido, mas a calcinha encharcada vai me incomodar até São Paulo. Se você encostar, desço e jogo no lixo.

O que a gente tem não seca, Vi.

Nos veremos sempre, duas férias por ano, Carnaval, Corpus Christi, Semana Santa. Mentira. Não posso deixar que você me pese. Logo vamos esquecer. Eu pelo menos vou. Ou esqueceria se tivesse tempo. Porque morremos hoje.

Não entendo mais do que seu pânico. Guto nem abre os olhos enquanto pairamos como ondas macias depois da rebentação. Desviamos para a encosta salpicada de marias-sem-vergonha. Tocadas, elas explodem suas bolsinhas intumescidas de sementes e se arremessam para a posteridade.

Sua mãe não vai gostar de ver o banco molhado.

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Foto: Luiz Deliz – https://flic.kr/p/beanUn

Nostalgia

Das três irmãs, Caridade, Paz, foi justamente Esperança a última que morreu, difícil falar sobre isso sem que alguém não solte o velho ditado. Tão simpática, sem falar o quanto era lindinha, coloquei uma moldura com o retrato dela na estante ao lado dos livros de poesia, foi uma forma que encontrei para não me esquecer de ambas, como se fosse uma chegada até a missa quase todo domingo olho para o quadro dela pela manhã, hoje não foi diferente, embora, tenha  sido despertado pelo canto de um galo antes das dez, acho que o bicho deve ser gringo vindo do oriente, ainda não se encaixou no fuso por outro lado, pode ser daqui mesmo, na mais pura demonstração que humanos e galináceos atravessam instantes conturbados de suas vidas. Já reparou na falta de humor dessa gente toda? Amizades indo para o ralo por coisas banais, sem falar nas tolices que rolam pelas vias por onde andamos? Ontem estava numa festa, onde em determinada rodinha um fulano esculhambava o genial Woody Allen, dizia que seus filmes estão repletos de piadinhas para uma intelectualidade burra, que Velozes e Furiosos é que é cinema de verdade, Los Angeles é mil vezes melhor que nova Iorque que deve ser a pior cidade da América, era feroz a discussão, também sentia vontade de esganar o desgraçado mas, puxei espelho interior para me ligar que estou feito essa gente, sem a capacidade de perceber que é preciso manter a medida das coisas que fazemos, puxei uma taça de vinho e acabei rindo da cara do povo que se emputecia de bobeira. Dizia tia Esperança que a vida é um nó, depois soltava uma gargalhada quase perdendo de vista os dentes postiços. Hoje, dobrando a curva da velhice acho que ela tinha razão, sinto saudade de sua casinha em Taubaté onde passávamos o final de ano, uma nostalgia boa do medo do galo ciscando no terreiro e de como desejava que ele fosse para a panela sempre que começava a cantar de madrugada.

passarinhos

passarinhos

mancha vermelha colore os bigodes do gato que dorme no pé da mangueira. restos de penas trançadas nos dentes paralisa as pernas do menino que corre. penas verdes. verdes como as penas do periquito australiano. hoje ele não cantou com a chegada do menino. não presta nem pra cuidar de meia dúzia de pássaros mesmo. é disperso como o avô. gaiolas espalhadas pelo quintal. os canários também se foram. a maritaca. a maritaca agonizante no vão entre duas pedras. menino petrificado com o inferno diante de si. crianças gargalham no muro, fazem troça do menino que chora. chamam o gato de volta. o pai surge na porta da cozinha. para de chorar, menino, seja homem! Ande, limpe toda essa sujeira e vem almoçar! 

mancha azulada colore a poeira da calçada cinza e faz brilhar os olhos da menina que corre. três quatro anos e ainda se impressiona com manchas azuladas em calçadas cinzas. olha o carro, menina, já disse pra olhar pros lados. homem aborrecido com a menina que corre, olha as horas. precisa trabalhar e o parque já tomou a manhã toda. venha cá, criatura, nossa casa é por ali. seus olhos já não reparam em manchas azuladas. passarinho, papai, olha só um passarinho dormindo ali!

menino que perdeu a fome tenta alimentar a maritaca morta, o grão de milho inerte no bico da ave. o peso da culpa em sua costas, não prestava nem para cuidar de aves. essa passarinhada toda só servia pra fazer barulho mesmo, pra me emporcalhar o quintal! Ande logo, rapaz! lágrimas do menino escorrem no corpo imóvel da ave em suas mãos. para de chorar seu menino maricas, não botei homem no mundo pra chorar por maritacas! era o pai furioso a lhe arrancar a maritaca das mãos. era a ave morta atirada aos cães que passavam. A maritaca, papai, era a maritaca do vovô… eu prometi pra ele…

o pai caminha em direção a menina e custa a descobrir o azul entre as folhas. menina se agacha e toma a pequena ave com as mãos em concha. olhos fechados da ave, a cabeça inclinada pro lado. meninos correm medrosos dali. somente o pai os percebe. correm diante da visão do homem e da menina, o estilingue toscamente escondido nos bolsos. quero levar ele pra casa, papai, a gente pode fazer uma caminha, brincar com ele, olha como dorme papai, deve estar com muito sono. o pai olha pros lados como em busca de um auxilio, ignora o que fazer, o que dizer para a menina que não sabe o que é a morte. ele também não sabe. a situação é urgente e ele desiste de ter pressa. querida, este passarinho… 

penas de todas as cores se juntam à poeira de um quintal em fim de tarde. menino empoleirado na mangueira já não chora. era homem e não devia chorar por simples maritacas. eram apenas passarinhos e ele nunca mais perderia seu tempo a brincar com passarinhos. o avô nunca tivera juízo mesmo, nunca foi um homem sério. barulho e sujeira, seu pai o ensinara, apenas barulho e sujeira e ele não devia se ocupar com essas coisas tolas. devia estudar, ser um homem que se ocupasse de coisas realmente importantes, um homem como seu pai, um homem que não se importasse com a morte de passarinhos.

…querida, este passarinho está morto. menina surpresa, o olhar demorado pra ave nas mãos, os dedos passando suave pela plumagem azul. os olhos vermelhos do pai, olhos que não podem chorar por passarinhos. como o pezinho de feijão, papai? menina olha séria pro homem que já não consegue falar. ele olha pra baixo, pra longe, olha pra dentro de si. olha pra uma tarde. para uma mangueira no centro de um quintal cheio de penas e gaiolas espalhadas. olha pro seu avô. sim, querida…como o pezinho de feijão. a voz embargada do pai, o olhar sereno da menina. terra, papai, vamos enterrar ele debaixo daquela árvore. obediente, o pai cava o buraco sob o olhar atento da menina, o buraco pro passarinho azul que some por baixo dos punhados que caem. silêncio. pai e menina não se olham, os olhares ocupados com o montinho de terra no chão.  finda a tarefa, as mãos sujas de terra, a menina abraça o pai em sábio silêncio. o passarinho está enterrado e o pai chora, chora no ombro da menina que afinal tudo sabe. chora como nunca chorou, chora por todas as coisas miúdas do mundo, o pranto feliz dos que aprendem a chorar pela morte de passarinhos.

Você sabe

Você sabe? Sabe? Enfim.

Eu de repente montinho de areia.

Mas você menor ainda. Mesmo eu sendo essa coisa minúscula que tem medo de você.

Satisfeita?

Sua boca. A expressão amarga, que bajula o chão. A superioridade enviesada da sobrancelha. Que prazer é esse?

Não acabou. Segura o gozo mais um instante. Porque eu também sei.

Descobri que você é menor do que essa caixa. Mais quadrada, mais polida. Seu segredo é só o vazio. O espaço dentro da caixa. Espaço pequeno, mas suficiente para o seu pouco ressecado. Folgado, aliás. Fecha a tampa, rápido, para nada escapar.

Nem vem se fazer de ostra. Eu tanto tempo querendo ser faca, mas cega, sem fio. Lembra? Você, útero, e eu, aborto. Você, silêncio, e eu, verborragia. Mas você só se fez concha porque me sabia sem corte. Fingiu ocultar pulso sob a craca que rasga mãos. A promessa: osso por fora e macia por dentro — mas na verdade osso e osso.

Agora reclama do disfarce, mas como eu entraria de cara limpa?

Olha pra mim. Sem tremer. Sem tremer porque eu sei que o tremor é tentativa de esconder que você não tem o que esconder. Diferente desse espasmo que repuxa sua bochecha esquerda a cada dois segundos. Isso, sim, é real. Seu. Percebe o quanto é ridículo? Pelo menos é seu.

Cuidado que se bate um vento você fica torta pra sempre.

Mas, sabe, eu ia querer te lamber mesmo torta. Arranhar de novo a língua até tirar todo o sal. Depois morder. Mastigar os olhos que veem que os meus não veem. Comer os ouvidos que me escutam dizer que sei que não há quando na verdade não sei ver o que há. Triturar buscas. Se não existe mistério, conheço o mundo. Nosso mundo sem sombra nem luz.

Quem é mais cruel: você, com seu eu-sei de riso oco, ou eu, que não vejo?

Se a gente fechasse os olhos, se encontraria?

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Sem piedade

A frase dita reverberou, invadiu a mente feito a erva da vez primeira esticados na areia, aquela pegada, puta trepada, doce era o suor, a vida um tapa na dobra do tempo. Pediu que repetisse, outra coisa saiu de sua boca. Meses passados desde que decidiram juntar os trapos, deram uma banana para os empecilhos da família, o sonho da felicidade compartilhada. Aquelas palavras soltas no nada, encheram seu rosto como se tivesse levado uma bofetada, se sentiu um farrapo qualquer atirado no lixo, o cheiro do que se transformara não era nada agradável, percebeu que carregava um peso maior sobre os ombros, a divisão deixou de ser igual, não era possível reciclar coisa alguma ou resgatar o que estava perdido. A casa aos poucos passou a receber acochambramentos cotidianos, com o tempo tudo necessita de certo retoque, ficaram assim feito portas e janelas destrambelhadas, empoeirada se tornou a poesia dos dias anteriores, o amor resultava em transpiração azeda, era um fim de caso, não seriam como os velhinhos que caminham de mãos dadas pela praça, nada de filhos, nem cães ou gatos, caixão não tem gaveta, espaço único, nada Romeu e Julieta, goiabada com queijo, que sabor acentua na boca, o que fica?

– O que você quiser imprestável. Foi o que falou diante dos frangos resfriados, na fila do açougue, naquele mesmo lugar já haviam escolhido o que serviriam para os amigos, chamavam os açougueiros pelo nome, não ousou repetir, isso era pior do que qualquer coisa. Pediu um bom filé, sussurrou no ouvido dele que faria a cavalo, por dentro ele se encheu de brio, se animou ainda mais quando ela mesma pagou pelo nobre pedaço de boi. Pegou em seu braço como nos tempos de namorados, flanavam pelo meio fio, nem se importavam com o aroma de bosque que exalava o córrego no caminho, contornos de uma paz que jamais houvera. Abriu a casa, foi para a cozinha, pegou velha faca que estava com a lâmina como nova, aparou com pequenos talos as pontas de gordurinha que ele tanto amava, frigideira quente, azeite, o filé, a fumaça invadindo as narinas, que sabor ganhava aquele espaço. Aproximou-se dela, encostou por trás, mastro armado, era ela o pendão, seria sim, diminuiu o fogo, o afastou um tanto para que não se queimasse, ficou de joelhos, pulcro genuflexório, desceu as vestes, passou a lamber delicadamente os testículos, gemido para a eternidade, quando percebeu que ele ergueu a cabeça, pegou novamente a faca, sem piedade, debaixo para cima meteu em seu frenesi, empurrou o corpo asqueroso, não se preocupou em apagar a carne que começava a queimar, limpou o sangue das mãos na toalhinha da mesa, sem olhar para trás pegou a carteira, as chaves, trancou a porta e partiu.

Não lugar algum

Por Airá Fuentes

Eu não saio do lugar
dentro do carro, do ônibus, do trem, do metrô
dentro de mim, não saio do lugar,
nem quando caio, caminho, corro ou fujo
não saio

mas num copo de café me afundo nos grãos de açúcar mal dissolvidos no buraco negro da xícara um colapso de tempo-espaço me invade as narinas e movo-me adentro de um cafezal em colheita de um terreiro em dia de sol de um fogão à lenha ao lado de um moedor acoplado à pia velha e volto arrependida em direção à cafeteria gourmet em que me encontro. Olho a atendente enojada de sentir aquele cheiro de café todas suas horas do dia e, se usam café em perfumarias para renovar o olfato, é possível dizer que esta moça certamente gostaria de inverter a situação e cheirar um perfume bem forte para esquecer que está ali, mas talvez fosse mais eficiente baforar lança-perfume nesse caso, eu acho. Já eu não uso drogas porque tenho medo de não voltar para casa, de me perder pelas ruas de São Paulo e bater uma bad monstra capaz de me fazer preferir enfiar-me em um bueiro fedido junto à comunidade de roedores nos subterrâneos da cidade. Não levo jeito para ratazana.

Por isso pago uma puta grana num expresso só para ter o direito ao olhar repressor dos funcionários pelo uso infinito da mesa enquanto passo o tempo ocioso entre uma coisa e outra, porque nunca compensa voltar para casa entre uma coisa e outra. E são esses momentos, esses vãos do dia, que descarrilam a linha de raciocínio de qualquer diabo, que depois tenta reencontrar o fio da meada em algum borrão de caneta sobre a palma da mão ou refazer trajetos mentais que insistem em agarrar-se a esquinas imaginárias para lembrar onde estava mesmo… onde eu estava mesmo? Ah, sim. Não levo jeito para perfumes.

Prefiro mais o cheiro do café que anula o cheiro do perfume, ou da água de cheiro, que seja. Hoje junto de meu café veio uma água saborizada para acompanhar, daquelas que tem gostinho diferente, mesmo que digam que água boa tem de ser insípida, inodora e incolor. Mas não está mais simples nem ser água hoje em dia. Não levo jeito para água.

E na água turva sempre pode ter algum bicho submerso que não se vê no rio, no mar verde-escuro, tanto faz, sempre pode ter algum animal para roçar a perna da gente ou uma alga para assustar qualquer coitado que fica ali paralisado enquanto a bicharada dá risada de sua cara de cidadão de cidade grande ou enquanto um bem-te-vi insensível, variando o vocabulário, diz ao longe, lá do fundo da minha cabeça: “E daí? E daí?”.

Daí, então, corro em falso atrás daquele raciocínio perdido, daquele fio da meada, daquele cafezal, daquele lança-perfume, daquela água turva, mas apenas me engastalho em algum lugar desconhecido com uma mesma pergunta inconsolável:

… onde eu estava mesmo? … onde eu estava mesmo? …onde eu estava mesmo?

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Automat, de Edward Hopper

O mendigo que tinha olhos de abismo

mendigo

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado pragueja. Pragueja contra a sovinice dos fabricantes de sacolas, malditos avarentos que não fazem sacolas decentes. Que usem eles sacolas transparentes! Todo mundo vê o que ele vai fazer, o que ele vai comer quando chegar em casa. Com que cara vai ficar quando o mendigo lhe pedir um trocado e ele lhe disser que está liso? E o mendigo sempre está ali. Maltrapilho na saída do mercado. Sentadinho, esperando. E o whisky, meu deus, quem está liso não compra whisky, ele vai perceber. Mas não é da conta do mendigo. O senhor de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado trabalha oito nove horas por dia, cinco dias na semana, paga todos seus impostos, iptu-ipva, como-a-classe-média-paga-imposto-nesse-país-meu-deus, pode muito bem tomar um whiskisinho de vez em quando e, convenhamos, pedir é fácil né, se esse homem trabalhasse não estaria nessa condição deplorável, meu deus. Todo santo dia plantado nesse canto imundo. Era só ele sair do mercado mais distraído que lá vinha o mendigo a lhe mendigar, justo a ele que não conseguia dizer não quando via cara de mendigo. Esses malditos fazem curso de atuação em Hollywood, não é possível. Por isso não olharia. Daquela vez não. Ao menor sinal de um vulto mendicante, ele fixaria o olhar pra frente, com cara de não-é-comigo e seguiria sua vida, contribuindo sem peso para a não proliferação daquela gente, não dê esmolas, não alimente este hábito, a gravação do metrô sempre o adverte. A polícia. Onde estava a polícia numa hora dessas?  A polícia é quem tinha que enxotar aquelas criaturas dali, era cada cara triste, meu deus, e ele não conseguia lidar bem com aquelas cara tristes. Do caixa do mercado já podia perceber a movimentação na calçada, a fila de passantes em linha reta balançando a cabeça e olhando pra frente, a linha de produção dos negadores de esmola e vez ou outra algum desavisado quebrando o fluxo e atirando uma moeda, um resto, uma sobra. Malditos alimentadores de mendigos, decerto tinham olhado. Decerto também eram suscetíveis a olhos de mendigo… ah, aqueles olhos… ficavam impregnados em sua mente pelo resto do dia, por isso não olharia, naquele dia não. Ainda no caixa, reforçou a compra com mais uma sacola, a transparência disfarçada, rótulos virados pra dentro, se orgulhava de sua sagacidade, não haveria olhos de mendigo que lhe agourasse o whisky. Andaria bem na beira da calçada, rente a rua, para não haver o risco de um atentado, sei lá, essa gente não tem nada a perder, né, podem muito bem se magoar – essa gente se magoa fácil – e tentar violentá-lo, essa gente agora está sempre com uma faquinha, um canivete escondido e sei lá, essa gente mata por quase nada. Se a gente não acaba com essa raça, essa raça há de acabar com a gente. Sim, a cidade precisava de mais policiais. A Rota. Isso, era preciso espalhar a Rota nas ruas. Sim, sem dúvida era isso. Passos decididos na porta do mercado. Um passo, dois passos, três. Não, não olharia. Pôde ver o vulto, imaginar o corpo magro, o olhar virado pra ele, lhe estudando, lhe medindo, lhe implorando para que virasse o rosto e caísse no abismo daqueles olhos de mendigo. Não. Não olharia. Ontem mesmo ele olhou. Olhou e viu o que não queria. Aqueles olhos, meu deus, aqueles olhos eram tão desgraçadamente iguais aos seus, aquele mendigo era tão desgraçadamente igual a ele, por isso não, de novo não, não olharia, por nada nesse mundo, aquele olhar de novo não.

Mas olhou.

Foi só o mendigo começar a falar que ele olhou, foi só sobrou-uma-moeda-qualquer-dez-centavos-serve-pra-eu-comprar-um-marmitex que ele olhou, aquela voz desgraçadamente tão humana. E pensar que faltava tão pouco. Mais dois ou três passos e o mendigo já não seria problema seu, mais cinco ou seis e ele já poderia ler as manchetes que adornavam o jornal esportivo e nem se lembraria mais do mendigo, mais dez ou doze e seus passos largos já teriam alcançado a esquina da rua em que estava seu carro. Com as sacolas no banco do carona, ele ligaria o rádio numa estação de músicas tranquilas e tomaria o rumo de casa. Em casa, beijaria a esposa e juntos tomariam whisky. Dormiria uma noite de sonhos serenos. Mas ele olhou. Um vacilo e ele olhou. Face a face com o homem que lhe pedia. Face a face consigo mesmo. E como era insuportável olhar para si mesmo.

A garrafa de whisky na sacola. A garrafa de whisky em suas mãos. O olhar triste do mendigo.

sobrou-uma-moeda e pá – era a garrafa estilhaçada na cabeça do mendigo.

qualquer-dez-centavos-serve e pá – era o olhar do mendigo, o olhar que também era o seu, todo marcado, ensaguentado, dilacerado pelos estilhaços da garrafa.

pra-eu-comprar-um-marmitex e pá – era o mendigo delirando, as pessoas se acercando e aquele olhar, aquele maldito olhar teimando em continuar ali.

Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Som de sirene ao fundo. Mais três ou quatro chutes dos passantes no mendigo. Solidariedade ao cidadão tão bem apessoado, tão brutalmente violado. A violência desta cidade não tem limites, meu deus. Não se pode nem fazer compras tranquilo. Homens fardados carregam mendigo delirante pro fundo do carro cinza. Nunca antes tanta gente olhou pra ele. Multidão se dispersa. Cheiro de álcool e sangue nauseiam os que ainda passam. Funcionários do mercado, vassoura, rodo, pano ligeiramente úmido e sabão, muito sabão, para limpar tudo aquilo, toda aquela fedentina. Os fregueses, essa catinga pode afastar os fregueses. Melodia de sirenes enervam cidadão de bem que bebe água com açúcar na porta do mercado. Gentileza gera gentileza. Respiração arfante pelo terrível esforço. Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar! Ele tentou me assaltar!

Cai a noite dormida sem whisky.

(…)

Uma a uma as compras vão entrando nas sacolas transparentes. O homem de cabelos grisalhos e profundamente bem apessoado já não pragueja. Sai do mercado aliviado e confiante. No canteiro da calçada, flores com espinhos recém plantadas. As pequenas gotas da chuva que agora se incia não atrapalham o caminhar leve do homem. Hoje ele não terá que lidar com o abismo.

E dai?

 

moreno

não é nada complicado, é só comprimir, sem medo, contato de peles, existem coisas bem mais difíceis você não acha? polegar com dedo médio, plá,plá, olha o trompete, a bateria de fundo, os dedos plá plá, Miles Davis. se liga no mar, a areia molhada, os caminhantes numa depressão paulistana e o instrumento do gênio reverberando sem limite. fazemos o dia como a gente deseja, tá dentro de nós essa radiação que afeta os insensatos. ébano, já atravessou bravas marés, já esteve assim como você, mergulhado no nada e vazio é espaço para se ocupar. vamos bebericar esse destilado, sem gelo, quente,  som, sabor, dedos plá plá, vamos animar nosso cordão, fluir nessa batida boa, fora toda neura, dentro a paz, mais um trago, dois, vaza pela dispersão qualquer sensação de infelicidade, não é o primeiro dia do resto de nossas vidas e sim, o de mais um carnaval, plá plá,

bonança

enchente

prefeitura vai mandar os botes. cabe quatro por vez. cinco quem sabe apertando seis. já têm gente no ginásio. na igreja tá lotado. a escola também encheu. é mesa-cadeira-caderno espalhado. aula só ano que vem. ou nem. o dinho veio e prometeu. dinho filho da puta. vai drenar o caralho. subiu vazou encheu. porra, dinho. vai pedir voto para puta que o pariu. é claro que perdi tudo, homi, num ta vendo. cama-armário-sofá tudo carcomido, enlamado tudo já. acabou. menina, sandália havaiana num pé, o outro nem. até o chinelo chuva levou. o irmão, lama até no peito. doença do rato, meu deus, moça do posto diz que mata. igual o outro, meu deus, num pode. helicóptero da tevê zumbindo no céu. tá ficando preto que nem. será que chove mais? volta aqui menina!

ele tá ali. agora eu achei. ali preso nas pedras. coitadinho dele, nem sabe nadar. volta aqui Ted, o que você tá fazendo aí, Ted. vou aí te buscar, vou aí te salvar, pera aí que já vou.

bota tudo pra cima. aquele ali talvez consegue salvar. caminhão da marabrás trouxe, o rio levou. ai, que tá começando a feder. que comprar novo o quê, homi. esses aí eu nem paguei ainda nem. dezoito prestações aquele ali, meu deus. dinho, filho da puta. cabe mais gente na igreja. pastor veio avisar. mulheres crianças primeiro. os velhos talvez dê pra encaixar. carai, homi, sai da frente. sim, homi perdi tudo, to fudida to na merda to na lama. vizinha vai ajudar a limpar. agora não, mais tarde talvez. urso de pelúcia, homem bom jacaré na camisa que deu, enganchado nas pedras, correnteza levou. raio pipoca no céu negrume da porra. vai voltar por bem ou a chinela vai ter que cantar, menina?

aguenta firme, Ted, tá dificil, mas eu já vou. tem muita lama aqui, Ted. minha perna tá afundando, mas calma que eu já vou. vou tentar me segurar ali. como é que você foi parar aí, menino?

rabo da ratazana passeia pelo pé do prematuro no berço. o colchão molhado fede as larvinhas começam aparecer. o menino nadando na água lama bosta que só cresce. os pingos de chuva voltam. corre. puxa que lá vem mais água. porra de céu preto. olha que lá vem raio trovão. agora fudeu de vez. e esse bote que não chega. vai para puta que o pariu, dinho. valei-me santa bárbara-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem. que cachorro, homi. cachorro morreu eu vou lá pensar em cachorro. cheiro da bosta chega a arder o nariz. cameramen pede pra parar. tanta água assim dá vontade de mijar. a correnteza só aumenta. urso de pelúcia desprende da pedra e se vai. para de berrar, menina. porra, menina… ela tá se afogando! ai, meu deus, socorro… alguém ajuda a menina!!!

Ted, tá dificil, eu não aguento. eu vou cair. a chuva voltou, Ted. a água tá muito forte, Ted. Ted? Ted, não. volta aqui, Ted. não vai embora, Ted! Ted, nããão! meu deus, quanta ág… socorro!

hoje já não chove nem. moça boa ajudou com as despesas tudo. hoje a tevê não veio. todo mundo em volta pra olhar. braços fechados da menina morta nem mesmo urso tem para abraçar.

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Foto de Ingo Penz – Enchente de 1974, em Tubarão.

Um ponto escuro

Antônio mastiga mexerica devagar. O sumo é azedo como o fim de tarde nublado que amargou meses da sua infância. Estava no sítio, tinha jogado metade da laranja no chão, pra irmã não chupar, quando a bisa veio com a ameaça: acaba de nascer um ponto escuro no seu coração. Se quisesse um peito limpo de novo, precisava fazer algo bom, como pedir desculpas e beijar a irmã. Mas, se de tanta maldade o coração já estivesse todo manchado, não tinha volta: seria podre pra sempre.

“Velha louca.”

O rádio toca alto. Ele gosta do trabalho. De ver os carros na margem enquanto segue outro ritmo. Nem o fedor do rio incomoda. Passa o dia na merda, sim, mas quem não passa?

O problema é depois. Tem medo de carregar o cheiro no corpo.

Cheiro de mexerica também gruda.

Há cinco meses, parou de pegar ônibus. Ficava confuso entre os odores de sabonetes, suores, salgadinhos e colônias, então decidiu trabalhar de bicicleta. Nem é tão longe, e pode se lavar no próprio banheiro, com calma, e não no vestiário da firma.

Pedala uma hora pra ir e uma pra voltar.

Em casa, deixa as botas no chão perto da porta. Tira a roupa ao lado do tanque, lava o macacão e as cuecas, pendura tudo no quintal e anda nu até o chuveiro. Aproveita a espuma do cabelo para limpar o rosto, as orelhas, o pescoço. Depois passa o sabonete em movimentos verticais, com cuidado para cobrir toda a pele, e se esfrega com uma esponja. Nas mãos, segue as instruções que viu no banheiro do posto de saúde.

Não cozinha, prefere ir ao bar. Cumprimenta todos, mas senta sozinho. Bebe cerveja, come qualquer coisa e espera Ana. Ela aparece logo, vinda do ponto de ônibus. Sempre tem história da viagem. Agora é a do bebê que mordeu forte o peito de uma mulher que amamentava no trem. Ana ri, toma três copos de cerveja e os dois seguem para a casa dele. Ela prefere jantar lá, pão com queijo, e às vezes só toma banho depois de transar.

Ele gosta do cheiro de sexo que fica no quarto e em Ana. Mas, nesta noite, fareja a podridão do rio no corpo ao lado. O que não percebe no próprio suor, percebe nela. Está estragado para sempre, como temia que estivesse seu coração. Ou como o pulmão da bisavó, que fumava e morreu de câncer.

Mesmo assim, se levanta e toma banho. Chega a desligar o chuveiro, mas não lembra se esfregou todas as áreas necessárias, então repete os procedimentos. Volta para a cama e ainda está acordado quando Ana sai lavada do banheiro. Por baixo do sabonete, permanece nela o cheiro do rio.

Antônio demora a pegar no sono, mas acorda às 5h, antes do despertador, com tempo para passar um café. Ela já está levantada. Depois de comer e escovar os dentes, os dois saem juntos, se beijam rápido no portão e seguem em sentidos opostos.

Na firma, Antônio bate o ponto, pega o rádio e anda até o píer. O chão está molhado, mas a chuva parou e parece que não volta. Se escorregasse,  ele poderia morrer ali, com o corpo cheio d’água. Ou já está mergulhado? Embarca para trabalhar.

Mais tarde, na bicicleta, volta a sentir o rio. Pedala mais rápido, mais rápido, mais rápido, aproveita o vento no rosto e chega em casa sem fôlego. No chuveiro, repete a lavagem três vezes.

Vai para o bar. Deixa o tempo passar, para ver se Ana aparece e para adiar a volta para casa. Apesar de beber mais do que de costume, não está bêbado quando o homem da mesa ao lado, vizinho de rua que ele cumprimenta todos os dias mas com quem nunca conversou, pergunta sobre a ausência de Ana. E, rindo, sobre o rio.

No instante seguinte, o homem da mesa ao lado está morto.

Com a garrafa quebrada na mão, Antônio corre duas quadras. Depois para, porque a água podre não vai mais embora.

Foto: Fernando Stankuns / Flickr

Foto: Fernando Stankuns / Flickr