Na espreita

Uma vez por semana me fixo nessa via, chego cedo, me preparo e fico apostos, na pressa muita gente nem me vê, tenho a impressão de que alguns nem olharam para o céu, necessito de visibilidade, não quero ser o centro das atenções mas, parte do caminho de alguns rumo ao bolso pelo menos, vivo de migalhas assim como os pombos que ficam aos meus pés e não posso embora, a minha vontade seja de dar uma bica em todos eles.

Cada lugar tem o seu jeitinho, no centro além de pombos, uns caras cantando arroxa aqui e acolá com o povão ao redor, fico parado com uma vontade louca de dar um salto e gritar feito o cara barbudo com a bíblia na mão, só penso, eles podiam estar roubando, matando em vez disso ficam soltando sons quase gemidos num rebolado só.

Nessa calçada a musica é melhor, as pessoas desfilam cores, principalmente as mulheres, tem uma pequena que apareceu nas últimas duas semanas, na primeira ficou debaixo do toldo, óculos escuros, telefone na mão, impaciente, fumou dois cigarros, desistiu, foi embora e nem me viu. Na segunda, tentou ficar parada no mesmo lugar, acendeu o primeiro cigarro, o dono da loja é antitabagista, assim que ela encostou levantou a lona, a minha já estava armada só de olhar para ela, então, ela me viu, caminhou em minha direção, confesso que quase espirrei com a fumaça do cigarro naquela tarde, que graça, sussurrou fitando o poema lápide sob os meus pés, puxou uma nota de dez, jogou na caixa, se foi, caminhava linda sem ser notada, espero que hoje ela volte, desço da caixa e lhe dou um abraço.

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Nada se moverá

tumblr_oqtp9ez5fZ1uhtmvho1_1280Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões. Ninguém a vê porque é madrugada, o parque está fechado e sabe-se lá porque este brinquedo está funcionando. As luzes do trenzinho são coloridas e não ficam menos vibrantes porque há uma menina morta dentro dele. Dona Maria, do prédio em frente, está dormindo, mas se lhe ocorresse acordar e abrir a janela, veria como dançam as luzes do trenzinho na madrugada, em plena escuridão, uma única linha contendo todas as cores do mundo, serpenteando insone por cima das cordilheiras sintéticas do parque. Mas Dona Maria não acordará. A noite está muito fria e ela dormirá sem culpas, o som do trenzinho a lhe embalar os melhores sonhos. Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões e nada, absolutamente nada, se moverá diferente por causa disso.

Há uma menina nua na tela do computador pessoal do vigilante do parque. A imagem está congelada mas ao redor dela tudo treme. Tremem os clipes de papel espalhados na mesa, tremem as canetas dispersas, treme o café frio dentro da xícara, tremem as chaves dos brinquedos atiradas sobre a pilha de relatórios. Treme também a foto da menina no porta-retratos em cima da mesa e que parece olhar para os olhos absortos do vigilante do parque, seu pai, o homem de mãos agitadas e decididas que fazem tudo ao redor tremer. O que também treme, só que de frio, é a menina que passa ao redor da guarita do vigilante do parque e o paralisa. É madrugada. O vigilante não sabe o que aquela menina faz ali e não faz a menor questão de saber. O parque está deserto e ele se enche de ideias. A menina é magra, suja, está quase nua e tem olhos alienados, mas tampouco com isso o vigilante se importa. O que realmente lhe interessa é que ela faria tudo por mais uma pedra de crack.

Há algumas meninas magras em frente ao tosco caixão da prefeitura. Ele é tão frágil que parece que vai se esfacelar ao menor contato. Elas também. São as únicas ali e olham absortas para o movimento elíptico que faz a pá do coveiro entre o monte de terra e o caixão da menina que não voltou do parque. A pá é fincada na terra, se enche toda, descreve uma curva no ar, esvazia-se na cova e retorna célere ao monte de terra. O movimento é rápido e repetido muitas vezes, tantas vezes que aquilo as hipnotiza. Logo serão elas que estarão ali e disso até o coveiro sabe. Aliás, todo mundo sabe e isso é mais previsível do que o movimento que faz a pá do coveiro. Algumas terão morte bem lenta, algumas serão violentadas até o fim, algumas sofrerão repetidas pancadas na cabeça por vigias desesperados, e logo, muito logo, todas elas estarão mortas. E sendo as meninas quem são, nada disso passará de mero acidente, nada disso sairá no jornal. Hoje é sábado e o parque está cheio. O vigilante está bem disposto e tudo seguirá como sempre. Nada se moverá.

Próxima parada

Talvez a queda tenha começado com os dedos espremidos. A mulher dormia, cabeça pendurada para a frente, franja sobre os olhos, pés inchados tentando escapar pela frente da sandália. Úmida de enxurrada, a tira de couro vermelho como as unhas estrangulava asperezas dos polegares. Uma freada do ônibus e a sandália invadiu o corredor à minha frente feito uma boca repleta de dentes encavalados. Meus pés se encolheram na escuridão das botas. Em vão, buscaram conforto no ambiente infiltrado pelas poças do caminho. Passariam a noite assim.

A sandália voltava para casa. A dona e toda aquela gente desmantelada pelo dia só aumentavam o cansaço pelo meu plantão noturno que nem tinha começado. Maldito gerente. Malditos dedos. Maldito motorista que não sabia frear ou freava forte de propósito pra ferrar quem podia ser ferrado. Maldita chuva que fechava janelas e concentrava bafos e doenças.

Pela janela, a farmácia. Apertei o botão, me esgueirei pelo corredor, pedi licença ao homem do fone de ouvido. Ele não ouviu. Cutuquei, mal olhou, forcei passagem, desci correndo.

Sempre achei que morreria de um jeito estúpido. Escorregão no banho. Carne entalada na garganta. Caí. E antes de apagar tive tempo de pensar na bolsa aberta que ia antes de mim e jorrava lenços sujos, no gerente que me esperava para o plantão, na pena de acabar assim, sozinha no asfalto em uma terça-feira chuvosa.

Quando abri os olhos, o pé boca despudorado sorria para mim.

Homens que cospem

Desvio de cuspes diariamente.

Saltitando por entre calçadas, ziguezagueando

os molhados recentes, os secos implícitos e os amarelados também.

Cuspir não é seu hábito exclusivo, mas os homens cospem por aí com mais prazer e com a propriedade de quem demarca com pequenas poças seus supostos territórios.

Há vezes em que quase atingem os próprios pés, num ato desajeitado de portar sua masculinidade, como se por poucos centímetros ela estivesse em risco e que, por poucos centímetros, ele não é apenas um homenzinho ridículo que cospe em si mesmo e que, por poucos centímetros, ele não é como aquele que falha na competição de cuspe a distância entre os amigos da quinta série.

Muitos homens gostam de cuspir por aí quase tanto quanto gostam de mijar por aí, são artes equivalentes, eu diria, com a diferença de que para o cuspe não há pudor algum de se fazer em público, se é que os homens têm algum pudor de mijar em público, se é que isso existe. Se existe, cuspir seria um pudor menor, certamente, nessa escala de coisas que saem do corpo e molham a rua.

Você já foi atingida por um cuspe?

Muitos não cospem. Gospem: o que é pior. Dão umas gusparadas com G em tudo quanto é coisa com aquele guspe encorpado, espumante, democrático.

Fazem isso para molhar. Para molhar o que está seco e não têm paciência para que seja molhado naturalmente, porque não têm calma para que as coisas se molhem de outros modos e por isso cospem e gospem para facilitar e se enganar, pois mesmo quando aguado à base de cuspe, nunca deixará de ser a seco. Nunca. E nós sabemos.

Sabemos a diferença entre cuspe, saliva e prazer.

Ao desviar dos pequenos lagos cintilantes nos passeios, sei do que me esquivo.

E, desviante, cavo meus espaços pelas ruas, desbravo brechas, ilhas, lugares onde eu possa ser úmida somente quando quero, onde possa ser arquipélago, onde possa ser torrencial

onde possa

A picada

Uma abelha picou meu braço causando um inchaço, até rima, pobre ou rica, mas rima. Ruim é o desconforto, de repente o braço parecia o do Popeye; num primeiro momento, porém, ficou parecido com o do Brutus; minha Olivia Palito, que não é tão palito assim, achou engraçado, mas fez carinho tão bom e até poetou alisando minhas mãos. André teve essa encheção do inchaço, mas não foi no braço que a abelha picou, foi justamente no rosto onde causa mais embaraço e tudo isso é muito chato, porque André é um menino que corre, brinca e é percussivo à beça e criança sabe como é? Costuma ser levada da breca e brincaram com o inchaço de André e André se encheu porque além da transfiguração do rosto, o treco coça, mas não se deve coçar porque a coisa engrossa, e André por alguns instantes ficou como eu, parado observando o nada, introspectivo em seus pensamentos, ouvindo as crianças lá fora. Em meio ao seu silenciozinho particular, caiu numa curta indagação enquanto a pele não se restaurava, por que a abelha que faz um mel tão doce veio fazer este mal comigo, justamente eu que não faço mal para ninguém?

desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

Antônio 10.820

Da primeira vez, ele contou noventa e oito carros. Esperava um telefonema. Da janela, via e ouvia o viaduto que era seu vizinho. O trânsito estava livre. Um, dois, três, quatro carros. Trinta e um, trinta e dois, trinta e três. Alguns passavam tão rápido e tão próximos que era difícil contar. Duas vezes, ele teve dúvida se tinha perdido algum. Quando chegou ao noventa e seis, o telefone tocou. Contou mais dois e foi atender.

Três dias depois, no começo da noite, voltou à janela. Na praça em frente ao prédio, um bêbado gritava. Ele olhou para baixo, viu o homem deitado no banco, gesticulando, e, à direita, o viaduto. Já tinha jantado um sanduíche de presunto e queijo prato, ido ao banheiro, tomado banho. Podia contar até cem.

Foi até cento e cinquenta no dia seguinte. Duzentos no outro. Duzentos e quinze. Sempre à noite. Precisava de um método. Cada vez, contaria mais dez. E assim foi. Todo dia, latinha de cerveja no parapeito, sentado em uma cadeira ao lado da cama, começava a contagem. Duzentos e trinta. Duzentos e quarenta. Duzentos e cinquenta. Bebia devagar, pra cerveja durar, sem tirar o olho da pista.

Os domingos tinham ainda mais cara de domingo porque o viaduto fechava. No asfalto, famílias passeavam, esportistas corriam, cachorros latiam. Ele trancava a janela, ligava a TV, bebia mais. Saía, às vezes, para a padaria, o parque, o mercado ou a boate. Nunca subia a rampa do viaduto, onde ambulantes aproveitavam o movimento de pedestres para vender pipoca, cerveja e cheetos.

Uma segunda-feira, depois do domingo vazio, foi para a janela ainda antes do trabalho. De manhã, os carros eram diferentes, tinham cor e rostos. No trânsito quase parado, perdeu a conta e recomeçou várias vezes. Saiu tarde, irritado.

Costumava ser o primeiro a chegar e esperava o gerente abrir a loja, mas nesse dia a porta já estava aberta quando virou a esquina vindo da estação de metrô. Não falou com ninguém. Guardou a mochila no depósito, trocou de camisa e se colocou ao lado dos outros dois vendedores que já esperavam clientes.

Fim de mês, vendeu pouco: duas camisas, quatro calças, uma gravata, sete pares de meia em promoção. Comprou um pacote de três cuecas. Pelo menos chegou rápido em casa e pôde se preparar com calma para a janela. Colocou no congelador as cervejas que comprou no boteco ao lado do prédio, esquentou o resto da comida chinesa, comeu duas mexericas, tomou banho.

Tinha tempo até o viaduto fechar, às 9h30 da noite. Pegou quatro latinhas e deixou num isopor no chão, ao lado da cadeira. O trânsito fluía bem, um bafo quente entrava pela janela, o isopor mantinha a cerveja gelada. Lá pelo quatrocentésimo carro, um Gol, Antônio levou a mão direita da coxa até a virilha. Sentiu o pênis e enfiou a mão dentro da bermuda. Se masturbou devagar, concentrado no trânsito. Coordenava o movimento com os números na cabeça. Gozou um pouco antes de encerrar a contagem do dia, setecentos e vinte.

Em uma noite de tráfego intenso, mas fluído, Antônio chegou a dez mil oitocentos e vinte. Nunca superou esse recorde, mas continua tentando. Há três anos, passa pelo menos uma hora na janela do quinto andar do prédio amarelo. Toda noite, conta milhares de carros. Mas quase ninguém vê.

Minhocão
foto: Daniel Castanho / Flickr

nota de rodapé

 

Diante daquela picanha sangrando na Churrascaria Passarinho, sentiu que deveria abandonar aquela vida, tão lindas as folhas verdinhas lavadas e como suculentas ficam bem temperadas, decidiu parar de comer carne. Esse tipo de decisão envolve muita coisa, a principal delas é de que você não é dono da sua vida, assim como existem os vigilantes do peso, também existem os caras que se preocupam quando você não curte mais aquele churrasquinho de domingo, nada mais triste do que uma bela churrasqueira cheia de abobrinha, berinjela e cebola. Nesses momentos bate certa solidão, todos os seres carnívoros estão ao seu redor, parece que todo mundo antes do peito ou da mamadeira chorou por uma bela carne ao ponto. Depois de deixar a namorada na casa dela, foi para o mercado comprar algumas hortaliças, queijo, passeou pelas prateleiras naturebas, coisas caras muito caras, tinha que entrar no Google para encontrar uma alternativa que não salgasse tanto no bolso, perambulou pelo lugar como aquele povo de cidade pequena passeia pela praça da igreja no sábado de noite, comprou pão integral, queijo fresco, sempre achou um horror esse negócio de pão integral na chapa com queijo fresco, dane-se pensou enquanto a operadora do caixa passava aquelas coisas olhando para ele, sentia certa censura naquele olhar,pagou, partiu. Sábado, noite fresca, pensava em comprar um cachorro, hábitos novos, no domingo futebol na casa do cunhado, carne, muita carne, um frango seria legal, um peixe talvez, caramba que dificuldade pensou, entrou na 23 de maio, avenida vazia, parecia feriado, de repente freou bruscamente, quase matou o pobre animal, colisão na traseira, nada muito sério, um cidadão exaltado veio interpelá-lo, ele abriu a porta do veículo ignorando os palavrões do sujeito um tanto ubriaco, foi em direção ao pobre animal assustado olhando para ele, era um porco, pegou o animal como se fosse um gato e o colocou no banco de trás, disse para o individuo se acalmar, não o porco, mas aquele que bateu na traseira, pediu que ligasse na segunda, acionou o carro, olhou pelo retrovisor para o porco sentindo-se feliz, o porco não, ele, é certo que o quadrúpede estava atônito com tudo aquilo, dia seguinte antes de entrar no Google deu com uma informação no site Terra, Vegetariano adota porco perdido na 23.Foto: Bia Lopes em Flickr

Esperança

15892I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir. Eram gritos horripilantes, pareciam uivos de animal a beira da morte, testemunhou um vizinho. A rua estava cheia pra ver. Dois homens saíram de dentro carregando a maca. Marcas de arranhões por todo o corpo.

– O melhor plano de saúde é viver. 

O segundo melhor é Unimed.

Gritava. Debatia-se. Convulsionava. Os mais atentos juravam que entre um espasmo e outro podiam ouvir uma canção de letra ininteligível, porém cadenciada, que saia da boca babada da criatura na maca. A melodia, porém, podia ser facilmente reconhecida por qualquer um. Um jingle. Era isso. Não restava dúvidas de que aquelas notas compassadas eram de um hipnótico jingle publicitário.

II.

Tudo começou com a carta e isso faz muito tempo. O apresentador do programa televisivo a convenceu. Ele olhava tão profundamente em seus olhos e falava tão aos seus ouvidos, que ela ficaria até constrangida em lhe dizer não. Há muito que não lhe tratavam com tamanha intimidade e simpatia. Respondeu-lhe num sussurro que esperasse um segundo, que só se ausentaria para buscar logo ali caneta e papel. Gentil como ele só, passou a resolver ali no palco algumas amenidades, com o objetivo claro de matar o tempo e esperá-la. No intervalo de um suspiro, ela voltou. Anotou tudo, de modo quase mecânico. Amanhã mesmo a carta estaria nos correios.

– Colorado RQ – imagem e som de presença total 

com Reserva de Qualidade

III.

O único inconveniente era que não sabia exatamente o que pedir. Olhou ao redor e constatou que não precisava de nada. Vivia só e feliz desde a morte do marido e nunca foi mulher de grandes extravagâncias. O televisor tinha sido quase uma exigência da filha para que não se sentisse tão sozinha. Até então nunca tinha dado importância a essas tecnologias da moda. Pediria algo para os netos. Sim, para o par de netos recém-nascidos. Gêmeos. Que ótima ideia! Podia antegozar o momento em que o apresentador com aquela voz profundamente aveludada sortearia sua carta, entre aquelas milhares de cartas, e falaria seu nome e sobrenome para todo o país. Podia antegozar o momento em que ela seria chamada ao palco, profundamente bem iluminado, e veria surgir emocionada, de todos os cantos do estúdio, caixas e mais caixas de brinquedos, peças e mais peças de roupas, dos mais variados tipos de roupas, além do elegante mobiliário infantil que certamente viria a seguir. Como os netos ficariam felizes! Podia antegozar o sorriso de inveja das vizinhas, diante de tanta elegância que ela certamente demonstraria na tevê, ao lado daquele apresentador tão bem apessoado. Teria apenas, é claro, que passar a acompanhar aquele programa todos dias, não queria correr o risco de deixar passar aquela oportunidade por um mero descuido.

– Não adianta bater que eu não deixo você entrar,

 nas Lojas Pernambucanas você vai aquecer o seu lar!

IV.

Estava cumprindo suas promessas com diligência. Depositara a carta na manhã seguinte e no mesmo dia, pelo fim da tarde, deu inicio à sua rotina diária. 

– Lojas Cem: felicidade encontra também! 

Ainda bem que tem Lojas Cem!

V.

Ela estava convicta: Mariano devia morrer. Trair a esposa com a amiga do casal tinha sido demais. E os filhos, meu Deus? A menina dedicava profunda devoção ao pai e agora sofria este trauma! E o que faria Mercedes com a morte tão prematura de Emanuel? O acidente, aquele maldito acidente, tinha que acontecer justo agora em que ela descobrira que estava grávida? Próximo capítulo-próximo capítulo-próximo capítulo! Como eles querem que a gente aguente até o próximo capítulo?

– Guarde o nome, não se engane:

Groselha vitaminada Milani! 

Também com sabor morango e framboesa!

VI.

Aquilo estava demorando demais: a carta já tinha sido enviada há mais de um mês e nada dela ser sorteada, mas não perderia as esperanças. Por nada no mundo deixaria de acompanhar todos os dias aquele espetáculo de luzes e cores e sorrisos. O bom é que logo depois começava a novela das seis, uma ótima distração para se manter bem desperta até a hora de dormir. Tinha dias em que o capítulo estava tão empolgante, que não ousava se levantar para preparar o jantar. Jamais. Poderia perder momentos decisivos se cometesse uma tolice dessas. 

– Compre Baton, o seu filho merece Baton!

VII.

A era das compras começou um pouco depois disso. Era incrível o poder daqueles espremedores e batedeiras e misturadores e torradeiras. Como facilitavam a vida aqueles acendedores e fritadeiras e amaciadores e furadeiras. A apresentadora do Show da Tarde, tão distinta, tão moderna, tão inteligente, tinha a alertado para a necessidade de se adquirir aqueles maravilhosos eletrodomésticos, supra-sumo da modernidade vigente. 

– Pensou eletrodomésticos, lembrou Arapuã.

– Arapuã: ligadona em você!

E como se facilitava-parcelava-predatava. Os-dez-primeiros-que-ligarem-ainda-ganham-um-brinde. Era tudo realmente muito exclusivo! E agora que os netos já ganhariam o deles no Show de Prêmios podia aproveitar a aposentadoria e se presentear, por que não? Ela merecia! Foi quando as caixas começaram a chegar, uma-duas-três por mês, e era um tal de vizinho aparecendo na janela pra ver. Ver e babar, se envenenar de tanta inveja. Que delicia! E nem havia mais tanto espaço assim para guardar tudo aquilo, toda aquela modernidade exuberante. Paciência. Isso se resolveria depois. No Show da Manhã sempre havia um especialista em domesticidades que a ajudaria com esta questão menor. Uma pena que não soubesse usar nada daquilo. Mas havia de aprender. E como havia! 

– Instituto Universal Brasileiro:

Quem quer, consegue!

VIII.

Um ano e nada. Mandaria mais cartas. Umas quinze, vinte talvez. Aproveitou a data e foi naquela tarde mesmo aos correios. Voltou a tempo de acompanhar o sorteio daquele dia. Não foi dessa vez.

– Café Seleto tem sabor delicioso!

Cafezinho gostoso é o Café Seleto!

IX. 

Foi então que vieram os instaladores. Uma gangue de salteadores e estupradores e contrabandistas e malfeitores estavam dominando a cidade. Ela viu no Show de Horrores – edição da manhã e ficou estupefata, realmente alarmada. Não falou disso com os vizinhos, porque àquela altura já não conhecia mais nenhum. Precisava ficar atenta às noticias, às novidades, às variedades e não poderia perder tempo com trivialidades entre vizinhos. Contratou os instaladores. 

– Intelbras: seu patrimônio cercado de segurança!

Era até bonito de ver a exuberante cerca elétrica serpentando altiva ao redor de toda sua residência. E como eram fascinantes as câmeras de segurança. Instalaram quatro. Uma em cada canto do portão de entrada e também nos fundos. Agora tinha um canal em seu aparelho televisor dedicado apenas à transmissão dessas imagens. Como se sentia protegida! O bom era que nem precisava mais sair de casa para ver a rua, podia fazer isso do conforto de seu sofá, sem nem mesmo mexer os pés. 

– Eu quero imagens! Cadê as imagens?

– Bandido bom é bandido morto!

– Porrada nele! Porrada nele! Porrada nele!

X. 

O nome de hoje até parecia com o seu. A respiração ficou suspensa até o último sobrenome. Mas era outra a maldita pessoa da carta. Uma viagem pra Disney, uma maldita viagem pra Disney era sorteada e seus míseros chocalhos e carrinhos de bebê não. Cinco anos de espera. Ao menos a programação era bastante atraente e ela podia se distrair bem enquanto esperava.

– Atenção agora para o resultado parcial da

Tele-Sena de Páscoa: zero-um, zero-sete,

 treze, vinte e nove, trinta e dois e quarenta e cinco!

XI.

O apresentador do programa de variedades anunciou que o galã coadjuvante da novela das sete estava tendo um caso com a protagonista da novela das oito que era casada com o vilão da novela das seis que transava com o apresentador do programa de variedades que jurava até a morte que nem tinha entrado na história.

– Quem bebe Sukita não engole qualquer coisa!


XII.

Há anos que não recebia uma visita. A última tinha sido justamente a dos netos gêmeos, que há muito não cabiam em carrinhos de bebê e que não precisavam mais de chocalhos e ursinhos de pelúcia.  Ela não os deu muita atenção, é verdade. Nem percebeu quando eles saíram, atabalhoados, tropeçando em uma pilha de caixas de eletrodomésticos que nunca tinham sido abertas. Nada mais compreensível: estava muito ocupada, afinal, com os olhos vidrados e os ouvidos atentos no apresentador de voz decrépita e cabelos pateticamente grisalhos, que tinha a constrangedora mania de nunca pronunciar seu nome. 

– Lojas Marabraz: preço menor ninguém faz!

– Visa: onde você quiser estar!

– Heinz: ninguém faz melhor que Heinz!

XIII

Foi então que deram a noticia fatal – Doriana – Devido a problemas internos, – Coca Cola – Nestlé –  acarretados pela grande crise econômica pela qual passava o país – Havaianas – Mc Donalds – Folha de S. Paulo – tornava-se impossível à emissora – Nutella – Avon – Casas Bahia – Honda Civic – continuar com o tradicionalíssimo Show de Prêmios – Jequiti, jequiti, jequiti, jequiti…

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I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir.

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Crédito da imagem:

Edvard Munch, litografia “O grito” (1900)

A gente se vê

Ela é tão linda, pode acreditar nessa fita que te digo agora sem compromisso nenhum, no fundo você não tem nada a ver com isso, nem expectora esse ambiente, ela despertando cheiro de hortelã coisa de amor que suporta qualquer odor, esse sentimento que carrega o desjejum para a cama, destila a manhã e puta papinho brega né não? o lance é que com tantos atributos ela não saca nada de Gal Costa, cara, isso é o fim podes crer assim como acreditar que ainda existe uma saída para esta canalha que impera o Congresso, viva o Barão de Itararé de que esse mundo é redondo mas tá ficando chato, sei lá não sei, sexo é vida e coisa e tal mas nem com a bandeira do MENGÃO na parede do quarto dá para suportar não curtir FA-TAL, é coisa da maior importância estar fora de casa e não ter compromisso em desplugar o MP3, bater pé, partir, deixando debaixo do  abajur um poema de adeus, porra, devia ter usado carbono afinal, o texto estava até bom, acho que ela não vai sacar essa partida por causa de Maria da Graça, querubim, marfim, na escola namorei uma Graça, sempre fui de poucos amores, tinha olhos lindos ela, era cheirosa e tivemos uma parada meteórica, curtimos cinema, nos amassamos no vão livre  da MASP, tremenda arquitetura, tudo era lindo, tinha inflação, a gente podia deitar o cabelo em qualquer canto, eu era hippie, ela não, queria futuro decente ainda sem concluir o colegial, era assim naquela época, o ensino era um pouco melhor, me trocou por um acara que tinha carro, uma máquina, ela foi, fiquei numa boa escutando Pink Floyd, teve um dia que até chorei mas, saquei que a solidão é boa, melhor sozinho vez em quando, estou de novo nessa de fazer a minha estrada, a filha está no  Japão ganhando uns trocados, me manda algum, as sobras me interessam, sempre gostei de reciclar manja?, a ex-mulher se casou com um cara que toca pandeiro no bar do Alemão, vou lá vez em quando ver o sorriso dela, ainda está límpido, impávido e no fundo bem no fundo paga uma rodada de cachaça e por dentro ri da minha cara, tudo bem não faz mal, se não preciso de muito dinheiro graças a deus, ainda gosto de caminhar pela avenida alimentando o colesterol do bem, hoje é domingo, dia de não se fazer nada, abrir a casa, deixar o sol entrar, esquecer de Luli que ainda não deve ter lido o que escrevi, deve achar que é um recado de que fui ao mercado, nunca lê o que eu escrevo melhor assim, vai ficar na espera do almoço, tem uma Baden guardado, vou chamar o Tibiu e o Ronaldo para uns tragos, uma massa, encher de aroma o quintal num dolce far niente colossal, a gente se vê em páginas futuras mas, se quiser pode aparecer ainda moro no mesmo lugar, evoé.