Enquanto o infarto não vem…

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Preciso desabafar. Ontem mesmo eu vi uma reportagem no noticiário das dez dizendo que é muito importante desabafar, que as pessoas que não desabafam são mais propensas a desenvolver toda sorte de úlceras e cânceres, então eu vou desabafar, preciso falar, falar tudo, porque eu sou muito jovem e não quero ter câncer, não agora, quer dizer, não quero ter câncer nunca, Deus me livre! Um momentinho… tem alguma coisa de madeira neste ônibus? Preciso bater três vezes na madeira para afastar esses pensamentos, ah, eu nem devia ter pronunciado essa palavra, ontem mesmo, depois do noticiário eu fui dar uma coçadinha no pescoço, assim, como quem quer apenas ocupar um pouco os dedos, e senti um negocinho, um carocinho sabe? Hoje parecia até um pouco maior, talvez seja só uma saliência do osso, não sei, mas é justamente sobre isso que preciso desabafar. Não, não sobre as saliências dos ossos, mas sobre o fato de que sou muito influenciável, muito impressionável com as desgraças alheias, sabe? Sim, principalmente quando fico sabendo que alguém morreu, principalmente se quem morreu tiver mais ou menos a minha idade e mais ou menos meu tipo físico. Sim, é só eu ficar sabendo que alguém morreu, que começo a sentir todos os sintomas que levaram aquela pessoa a morte. É terrível! Tudo começ… sim, claro, vai lá, eu espero, segurar essas coisas é terrível, meu tio mesmo… bom, vai lá, vai lá, eu espero…

(…)

Imagine, essas coisas demoram mesmo, e ainda mais naquele aperto todo, com tudo chacoalhando, a gente vai pensando que vai ser rápido, mas sempre tem uma surpresa que faz a coisa ficar demorada, né, ah, me desculpe, é que eu já sofri muito com isso, quando soube que meu tio estava com pedras e urrava de dor sempre que ia mijar. Foi só saber disso que passei a ir ao banheiro de cinco em cinco minutos e sempre sentia um ardorzinho, uma pontada aguda em todo o canal da uretra, sabe… isso só foi passar quando fiquei sabendo de outra tragédia, do aborto espontâneo da minha vizinha, você acredita que comecei a sentir um rebuliço enorme na região do baixo ventre? Sim, é claro que sei que não tenho útero. É claro que sei que nenhum homem tem útero, e nem ovários e nem trompas de falópio, nem nada disso… sim, sim, eu vivo pesquisando na internet o nome dessas coisas todas, a gente precisa conhecer bem o nosso corpo, né? A gente nunca sabe que surpresas pode ter no dia de amanhã… enfim, eu dizia que por mais que não tivesse um útero, me imaginei tendo as dores no meu, digamos, útero virtual, na região em que eu teria um útero se eu fosse mulher, sabe? Não sei se estou sendo claro. Isso é horrível, horrível mesmo e é por isso que eu preciso desabafar. Eu não quero ter câncer. Não, jamais. Então eu preciso falar, falar, falar… mas eu ia dizer que tudo começou com o infarto do meu avô. Eu era menino ainda, tinha 14 ou 15 anos, não me lembro bem agora, devo estar com alzheimer, ultimamente eu não consigo me lembrar de nada direito, troco tudo, mas foi ainda adolescente que eu soube que eu estou destinado, fadado, sentenciado a morrer de infarto. É uma tradição familiar, pelo lado paterno, e que eu desconhecia totalmente até aquela data. Meu avô, meu bisavô, meu tataravô e toda uma linhagem a perder de vista havia morrido de infarto no miocárdio. Meu pai já tomava remédios a tempos e nunca me disse nada, imagine que vantagens eu teria se já tivesse me precavendo desde o nascimento? Sim, um belo dia meus antepassados estavam tranquilos em suas casas, ou na rua ou trabalho, vivendo apenas mais um dia, como tantos desses que venho vivendo e que vão se escasseando agora mesmo enquanto falo com você, e sentiram uma dorzinha, uma pontada, uma explosão dentro do peito e depois mais nada. E desde esse dia… sim, claro, pode ser importante, atenda, pode ter acontecido um acidente, uma tragédia, pode ser seu filho te ligando debaixo de algum escombro, Deus me livre, mas tudo pode acontecer, sim, atenda, eu espero, valha-me Deus…

(…)

Ah, que bom que era só telemarketing, digo, eu também odeio telemarketing, por mim morriam todos, quero dizer, não morrer-morrer, mas apenas sumir um pouco ou só deixar de encher meu saco que já estava bom, mas podia ser coisa pior né, a violência dessa cidade está terrível, mas eu dizia, sim, eu dizia que depois que soube que vinha de uma família de infartados, vivo sentindo uma dorzinha no peito, um incômodo. Em geral isso passa logo depois de ir ao banheiro, sabe como é, né, mas eu sempre penso que estou morrendo quando começo a sentir aquele incomodozinho aqui entre as costelas, bem na base do coração. Toda vez eu penso que enfim chegou a hora, que vou começar a ver tudo turvo, minha vida toda passando pelos olhos como num filme e aquela ladainha toda que ninguém sabe se é verdade porque nunca ninguém voltou pra contar. Meu médico não aguenta mais me ver chegando no consultório, com a mão no peito e cara de infartado e sair de lá com olhar aliviado depois de levar uns bons apertões na pança. Mas eu posso fazer o quê, né, se tenho essa linhagem maldita, essa tendência irreversível ao infarto, à morte prematura, a deixar a vida antes de tê-la vivido como eu gostaria, a minha vida agora é assim, é todo dia acordando com a expectativa de que aquele pode ser o último, o famoso dia do infarto, vai se fazer o que, né, enquanto o infarto não vem a gente vai levando como pode, se distraindo como pode, sempre achando que está doente, irremediavelmente doente… ainda se não me contassem de tantas tragédias, de tantas doenças estranhas, coisas do capiroto mesmo, você lembra aquela atri… ah, sim, que pena… digo que bom pra você que chegou, que pena pra mim que ainda vou pipocar em um monte de cidadezinhas que nem sei o nome, antes de chegar na casa dos velhos, sim dos meus pais, você acredita que o velho ainda não morreu? É sério. Tem 94 anos e o infarto dele ainda não chegou…  ah, mas vai chegar, tenho certeza, não dou mais dez anos pra isso acontecer, sou de uma família de infartados, você sabe, isso não vai demorar pra acontecer! 94 anos! Deve ser horrível viver tanto, né? Será que isso é genético, dona, será que vou viver que nem meu pai, esperando dia após dia pelo infarto, sempre aquelas pontadinhas até os 94 anos? Ainda nem cheguei nos setenta, meu Deus, o que vou fazer até lá, enquanto o infarto não vem? Que outras doenças será que ainda vou ter, hein, moça!? Ah, sim, claro, o motorista já está impaciente, corre lá dona, é horrível ficar esperando…

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Miojo

“O meu refrigerador não funciona.
Baby, meu refrigerador não funciona.
Eu tentei tudo, eu tentei de tudo.
Não funciona, não funciona!”

Sentada à mesa da cozinha, Ana balança ao som da música e brinca de criar desenhos com as migalhas do pão de ontem. Uma delas está na cadeira e pinica sua coxa.

Antônio continua a cantar enquanto prepara o miojo:
“Não, não, não!
O meu, o meu, o meu refrigerador não funciona.
Não…”

“Já pensou em comprar um novo, Antônio?”
“O quê?”
“Uma geladeira nova.”
“Com que dinheiro?”
“Já pensou em trabalhar?”
“Me deixa cantar. Meu refrigerador. Baby, baby, aaah…”

Ela ri. E lembra do pai. Ele diria que Antônio corta o nariz pra dar raiva na cara. É duro porque quer, não trabalha porque não quer. Não tinha paciência, o pai. Quer dizer, não tinha paciência com gente. Entendia de máquina. Passava horas desmontando, procurando o defeito, remontando, testando, desmontando de novo. Se estivesse aqui, ele daria um jeito na geladeira. Se não desse, era porque não tinha jeito mesmo.

Antônio divide o miojo em dois pratos e joga queijo ralado por cima.
“Meu refrigerador não funciona,
Meu refrigerador não funci… funci… ona!”

Na espreita

Uma vez por semana me fixo nessa via, chego cedo, me preparo e fico apostos, na pressa muita gente nem me vê, tenho a impressão de que alguns nem olharam para o céu, necessito de visibilidade, não quero ser o centro das atenções mas, parte do caminho de alguns rumo ao bolso pelo menos, vivo de migalhas assim como os pombos que ficam aos meus pés e não posso embora, a minha vontade seja de dar uma bica em todos eles.

Cada lugar tem o seu jeitinho, no centro além de pombos, uns caras cantando arroxa aqui e acolá com o povão ao redor, fico parado com uma vontade louca de dar um salto e gritar feito o cara barbudo com a bíblia na mão, só penso, eles podiam estar roubando, matando em vez disso ficam soltando sons quase gemidos num rebolado só.

Nessa calçada a musica é melhor, as pessoas desfilam cores, principalmente as mulheres, tem uma pequena que apareceu nas últimas duas semanas, na primeira ficou debaixo do toldo, óculos escuros, telefone na mão, impaciente, fumou dois cigarros, desistiu, foi embora e nem me viu. Na segunda, tentou ficar parada no mesmo lugar, acendeu o primeiro cigarro, o dono da loja é antitabagista, assim que ela encostou levantou a lona, a minha já estava armada só de olhar para ela, então, ela me viu, caminhou em minha direção, confesso que quase espirrei com a fumaça do cigarro naquela tarde, que graça, sussurrou fitando o poema lápide sob os meus pés, puxou uma nota de dez, jogou na caixa, se foi, caminhava linda sem ser notada, espero que hoje ela volte, desço da caixa e lhe dou um abraço.

Nada se moverá

tumblr_oqtp9ez5fZ1uhtmvho1_1280Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões. Ninguém a vê porque é madrugada, o parque está fechado e sabe-se lá porque este brinquedo está funcionando. As luzes do trenzinho são coloridas e não ficam menos vibrantes porque há uma menina morta dentro dele. Dona Maria, do prédio em frente, está dormindo, mas se lhe ocorresse acordar e abrir a janela, veria como dançam as luzes do trenzinho na madrugada, em plena escuridão, uma única linha contendo todas as cores do mundo, serpenteando insone por cima das cordilheiras sintéticas do parque. Mas Dona Maria não acordará. A noite está muito fria e ela dormirá sem culpas, o som do trenzinho a lhe embalar os melhores sonhos. Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões e nada, absolutamente nada, se moverá diferente por causa disso.

Há uma menina nua na tela do computador pessoal do vigilante do parque. A imagem está congelada mas ao redor dela tudo treme. Tremem os clipes de papel espalhados na mesa, tremem as canetas dispersas, treme o café frio dentro da xícara, tremem as chaves dos brinquedos atiradas sobre a pilha de relatórios. Treme também a foto da menina no porta-retratos em cima da mesa e que parece olhar para os olhos absortos do vigilante do parque, seu pai, o homem de mãos agitadas e decididas que fazem tudo ao redor tremer. O que também treme, só que de frio, é a menina que passa ao redor da guarita do vigilante do parque e o paralisa. É madrugada. O vigilante não sabe o que aquela menina faz ali e não faz a menor questão de saber. O parque está deserto e ele se enche de ideias. A menina é magra, suja, está quase nua e tem olhos alienados, mas tampouco com isso o vigilante se importa. O que realmente lhe interessa é que ela faria tudo por mais uma pedra de crack.

Há algumas meninas magras em frente ao tosco caixão da prefeitura. Ele é tão frágil que parece que vai se esfacelar ao menor contato. Elas também. São as únicas ali e olham absortas para o movimento elíptico que faz a pá do coveiro entre o monte de terra e o caixão da menina que não voltou do parque. A pá é fincada na terra, se enche toda, descreve uma curva no ar, esvazia-se na cova e retorna célere ao monte de terra. O movimento é rápido e repetido muitas vezes, tantas vezes que aquilo as hipnotiza. Logo serão elas que estarão ali e disso até o coveiro sabe. Aliás, todo mundo sabe e isso é mais previsível do que o movimento que faz a pá do coveiro. Algumas terão morte bem lenta, algumas serão violentadas até o fim, algumas sofrerão repetidas pancadas na cabeça por vigias desesperados, e logo, muito logo, todas elas estarão mortas. E sendo as meninas quem são, nada disso passará de mero acidente, nada disso sairá no jornal. Hoje é sábado e o parque está cheio. O vigilante está bem disposto e tudo seguirá como sempre. Nada se moverá.

Próxima parada

Talvez a queda tenha começado com os dedos espremidos. A mulher dormia, cabeça pendurada para a frente, franja sobre os olhos, pés inchados tentando escapar pela frente da sandália. Úmida de enxurrada, a tira de couro vermelho como as unhas estrangulava asperezas dos polegares. Uma freada do ônibus e a sandália invadiu o corredor à minha frente feito uma boca repleta de dentes encavalados. Meus pés se encolheram na escuridão das botas. Em vão, buscaram conforto no ambiente infiltrado pelas poças do caminho. Passariam a noite assim.

A sandália voltava para casa. A dona e toda aquela gente desmantelada pelo dia só aumentavam o cansaço pelo meu plantão noturno que nem tinha começado. Maldito gerente. Malditos dedos. Maldito motorista que não sabia frear ou freava forte de propósito pra ferrar quem podia ser ferrado. Maldita chuva que fechava janelas e concentrava bafos e doenças.

Pela janela, a farmácia. Apertei o botão, me esgueirei pelo corredor, pedi licença ao homem do fone de ouvido. Ele não ouviu. Cutuquei, mal olhou, forcei passagem, desci correndo.

Sempre achei que morreria de um jeito estúpido. Escorregão no banho. Carne entalada na garganta. Caí. E antes de apagar tive tempo de pensar na bolsa aberta que ia antes de mim e jorrava lenços sujos, no gerente que me esperava para o plantão, na pena de acabar assim, sozinha no asfalto em uma terça-feira chuvosa.

Quando abri os olhos, o pé boca despudorado sorria para mim.

Homens que cospem

Desvio de cuspes diariamente.

Saltitando por entre calçadas, ziguezagueando

os molhados recentes, os secos implícitos e os amarelados também.

Cuspir não é seu hábito exclusivo, mas os homens cospem por aí com mais prazer e com a propriedade de quem demarca com pequenas poças seus supostos territórios.

Há vezes em que quase atingem os próprios pés, num ato desajeitado de portar sua masculinidade, como se por poucos centímetros ela estivesse em risco e que, por poucos centímetros, ele não é apenas um homenzinho ridículo que cospe em si mesmo e que, por poucos centímetros, ele não é como aquele que falha na competição de cuspe a distância entre os amigos da quinta série.

Muitos homens gostam de cuspir por aí quase tanto quanto gostam de mijar por aí, são artes equivalentes, eu diria, com a diferença de que para o cuspe não há pudor algum de se fazer em público, se é que os homens têm algum pudor de mijar em público, se é que isso existe. Se existe, cuspir seria um pudor menor, certamente, nessa escala de coisas que saem do corpo e molham a rua.

Você já foi atingida por um cuspe?

Muitos não cospem. Gospem: o que é pior. Dão umas gusparadas com G em tudo quanto é coisa com aquele guspe encorpado, espumante, democrático.

Fazem isso para molhar. Para molhar o que está seco e não têm paciência para que seja molhado naturalmente, porque não têm calma para que as coisas se molhem de outros modos e por isso cospem e gospem para facilitar e se enganar, pois mesmo quando aguado à base de cuspe, nunca deixará de ser a seco. Nunca. E nós sabemos.

Sabemos a diferença entre cuspe, saliva e prazer.

Ao desviar dos pequenos lagos cintilantes nos passeios, sei do que me esquivo.

E, desviante, cavo meus espaços pelas ruas, desbravo brechas, ilhas, lugares onde eu possa ser úmida somente quando quero, onde possa ser arquipélago, onde possa ser torrencial

onde possa

A picada

Uma abelha picou meu braço causando um inchaço, até rima, pobre ou rica, mas rima. Ruim é o desconforto, de repente o braço parecia o do Popeye; num primeiro momento, porém, ficou parecido com o do Brutus; minha Olivia Palito, que não é tão palito assim, achou engraçado, mas fez carinho tão bom e até poetou alisando minhas mãos. André teve essa encheção do inchaço, mas não foi no braço que a abelha picou, foi justamente no rosto onde causa mais embaraço e tudo isso é muito chato, porque André é um menino que corre, brinca e é percussivo à beça e criança sabe como é? Costuma ser levada da breca e brincaram com o inchaço de André e André se encheu porque além da transfiguração do rosto, o treco coça, mas não se deve coçar porque a coisa engrossa, e André por alguns instantes ficou como eu, parado observando o nada, introspectivo em seus pensamentos, ouvindo as crianças lá fora. Em meio ao seu silenciozinho particular, caiu numa curta indagação enquanto a pele não se restaurava, por que a abelha que faz um mel tão doce veio fazer este mal comigo, justamente eu que não faço mal para ninguém?

desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

Antônio 10.820

Da primeira vez, ele contou noventa e oito carros. Esperava um telefonema. Da janela, via e ouvia o viaduto que era seu vizinho. O trânsito estava livre. Um, dois, três, quatro carros. Trinta e um, trinta e dois, trinta e três. Alguns passavam tão rápido e tão próximos que era difícil contar. Duas vezes, ele teve dúvida se tinha perdido algum. Quando chegou ao noventa e seis, o telefone tocou. Contou mais dois e foi atender.

Três dias depois, no começo da noite, voltou à janela. Na praça em frente ao prédio, um bêbado gritava. Ele olhou para baixo, viu o homem deitado no banco, gesticulando, e, à direita, o viaduto. Já tinha jantado um sanduíche de presunto e queijo prato, ido ao banheiro, tomado banho. Podia contar até cem.

Foi até cento e cinquenta no dia seguinte. Duzentos no outro. Duzentos e quinze. Sempre à noite. Precisava de um método. Cada vez, contaria mais dez. E assim foi. Todo dia, latinha de cerveja no parapeito, sentado em uma cadeira ao lado da cama, começava a contagem. Duzentos e trinta. Duzentos e quarenta. Duzentos e cinquenta. Bebia devagar, pra cerveja durar, sem tirar o olho da pista.

Os domingos tinham ainda mais cara de domingo porque o viaduto fechava. No asfalto, famílias passeavam, esportistas corriam, cachorros latiam. Ele trancava a janela, ligava a TV, bebia mais. Saía, às vezes, para a padaria, o parque, o mercado ou a boate. Nunca subia a rampa do viaduto, onde ambulantes aproveitavam o movimento de pedestres para vender pipoca, cerveja e cheetos.

Uma segunda-feira, depois do domingo vazio, foi para a janela ainda antes do trabalho. De manhã, os carros eram diferentes, tinham cor e rostos. No trânsito quase parado, perdeu a conta e recomeçou várias vezes. Saiu tarde, irritado.

Costumava ser o primeiro a chegar e esperava o gerente abrir a loja, mas nesse dia a porta já estava aberta quando virou a esquina vindo da estação de metrô. Não falou com ninguém. Guardou a mochila no depósito, trocou de camisa e se colocou ao lado dos outros dois vendedores que já esperavam clientes.

Fim de mês, vendeu pouco: duas camisas, quatro calças, uma gravata, sete pares de meia em promoção. Comprou um pacote de três cuecas. Pelo menos chegou rápido em casa e pôde se preparar com calma para a janela. Colocou no congelador as cervejas que comprou no boteco ao lado do prédio, esquentou o resto da comida chinesa, comeu duas mexericas, tomou banho.

Tinha tempo até o viaduto fechar, às 9h30 da noite. Pegou quatro latinhas e deixou num isopor no chão, ao lado da cadeira. O trânsito fluía bem, um bafo quente entrava pela janela, o isopor mantinha a cerveja gelada. Lá pelo quatrocentésimo carro, um Gol, Antônio levou a mão direita da coxa até a virilha. Sentiu o pênis e enfiou a mão dentro da bermuda. Se masturbou devagar, concentrado no trânsito. Coordenava o movimento com os números na cabeça. Gozou um pouco antes de encerrar a contagem do dia, setecentos e vinte.

Em uma noite de tráfego intenso, mas fluído, Antônio chegou a dez mil oitocentos e vinte. Nunca superou esse recorde, mas continua tentando. Há três anos, passa pelo menos uma hora na janela do quinto andar do prédio amarelo. Toda noite, conta milhares de carros. Mas quase ninguém vê.

Minhocão
foto: Daniel Castanho / Flickr

nota de rodapé

 

Diante daquela picanha sangrando na Churrascaria Passarinho, sentiu que deveria abandonar aquela vida, tão lindas as folhas verdinhas lavadas e como suculentas ficam bem temperadas, decidiu parar de comer carne. Esse tipo de decisão envolve muita coisa, a principal delas é de que você não é dono da sua vida, assim como existem os vigilantes do peso, também existem os caras que se preocupam quando você não curte mais aquele churrasquinho de domingo, nada mais triste do que uma bela churrasqueira cheia de abobrinha, berinjela e cebola. Nesses momentos bate certa solidão, todos os seres carnívoros estão ao seu redor, parece que todo mundo antes do peito ou da mamadeira chorou por uma bela carne ao ponto. Depois de deixar a namorada na casa dela, foi para o mercado comprar algumas hortaliças, queijo, passeou pelas prateleiras naturebas, coisas caras muito caras, tinha que entrar no Google para encontrar uma alternativa que não salgasse tanto no bolso, perambulou pelo lugar como aquele povo de cidade pequena passeia pela praça da igreja no sábado de noite, comprou pão integral, queijo fresco, sempre achou um horror esse negócio de pão integral na chapa com queijo fresco, dane-se pensou enquanto a operadora do caixa passava aquelas coisas olhando para ele, sentia certa censura naquele olhar,pagou, partiu. Sábado, noite fresca, pensava em comprar um cachorro, hábitos novos, no domingo futebol na casa do cunhado, carne, muita carne, um frango seria legal, um peixe talvez, caramba que dificuldade pensou, entrou na 23 de maio, avenida vazia, parecia feriado, de repente freou bruscamente, quase matou o pobre animal, colisão na traseira, nada muito sério, um cidadão exaltado veio interpelá-lo, ele abriu a porta do veículo ignorando os palavrões do sujeito um tanto ubriaco, foi em direção ao pobre animal assustado olhando para ele, era um porco, pegou o animal como se fosse um gato e o colocou no banco de trás, disse para o individuo se acalmar, não o porco, mas aquele que bateu na traseira, pediu que ligasse na segunda, acionou o carro, olhou pelo retrovisor para o porco sentindo-se feliz, o porco não, ele, é certo que o quadrúpede estava atônito com tudo aquilo, dia seguinte antes de entrar no Google deu com uma informação no site Terra, Vegetariano adota porco perdido na 23.Foto: Bia Lopes em Flickr