O vão entre o trem e a plataforma

vaoEram só ele e ela no último dos trens noturnos com destino à Luz. Subiram no Butantã. Ele e ela no mesmo vagão. Ambos só desceriam no final. Ele perguntaria as horas, ela responderia. Ela perguntaria o nome, ele responderia. Para emendar, ele perguntaria o dela. Falariam da lentidão do veículo, do frio do ar condicionado, da sorte que tinham por terem conseguido pegar o último trem. Antes de chegar na Paulista, já saberiam onde um e outro moravam e o que gostavam de fazer nas tardes de domingo. Quando estivessem na República e o auto-falante anunciasse que a próxima era a última estação e que por gentileza desembarcassem todos, já teriam trocado os telefones e combinado algo para o fim de semana seguinte. Na Luz, se despediriam com um beijo no rosto e com a promessa de mais conversas como aquela. Próximo domingo, ela diria. Próximo domingo, ele diria. Formariam um belo casal, desses que a gente não imagina separado. Teriam filhos. Dois. Um casal de gêmeos lindos. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas antes mesmo de Pinheiros, ela tombou a cabeça sobre o vidro e se perdeu distraída lendo as placas de publicidade. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas assim que sentou no banco e ajeitou as pernas, ele levou mecanicamente a mão ao bolso e pegou seu telefone. Foi jogando cartas no aparelho durante todo o trajeto para não sentir o tempo passar. Ao chegar na Luz, cada um saiu por uma porta. Ela virou para a direita. Ele virou para a esquerda. Nunca se lembrarão de nada disso.
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no bole bole

De deus esse líquido que escorre pelos lábios, era gelado, escorre quente, ouriça serpente, que levanta cabeça, quer romper o ar, quando o olhar fita dedinho que impede que escorra pelo corpo baba sabor. Língua no bore bore, teleco teco, salve Baco! Transcendência a íris que baila na maré ébria desse dia pulcro pagão. Não é feriado, tem Papa peludo quase pelado,  alpercata de couro bom,  luxo só sem ser mulata. Diacho pobre diabo, fiquei assim como estou, sem dar primeiro passo, desgraçado fantasiado de homem santo, lambe suor da moça, dedos, vai chupar até o caroço, sou ruim não mas, espero que tenha gosto de fel.

A prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura

trevoDesde muito pequeno, Fortunato Dias de Ventura descobriu que tinha uma relação bastante estreita com a sorte. Foi logo em seu primeiro verão, na pequena cidade de Quimera, quando sua mãe lhe deixara desfrutar de seu primeiro picolé, que tal intimidade com as coisas do destino se revelou pela primeira vez. O menino refestelava-se com aquele bloco róseo de gelo, corante e açúcar (sobretudo açúcar, muito açúcar) quando sua mãe, a atordoada Sra. Lenora Dias, pôde ler no palito de madeira que o rebento tinha direito a outro sorvete igual aquele, numa daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece, mas que de fato, de verdade mesmo, ninguém nunca ganhou nada. A mãe, que aos trinta e tantos anos já se considerava pessoa bastante azarada, sobretudo quando se lembrava de suas escolhas matrimoniais (o que não vem ao caso neste relato) nunca tinha ganho nada nesta vida, além de maridos infames e contas para pagar. Enquanto pegava o menino lambuzado pelo braço e caminhava de volta à sorveteria para retirar o grande prêmio, lembrou-se da vez, muito parecida com aquela, em que era menina, cercada de outras tantas meninas, suas amigas, e dera um pulo de alegria ao perceber que tinha uma mensagem escrita no palito de sorvete. As meninas logo se acercaram e começaram a rir às gargalhadas, ao lerem que aquilo não dava direito a nada, a não ser a alguma sensação de consciência tranquila, já que o que estava escrito no pequeno palito lambuzado não era nada mais benfazejo do que um “Este palito foi feito com madeira de reflorestamento. Preserve a natureza: não o jogue em vias públicas”. A pobre Lenora, depois de meses sem ter coragem de botar a cara na rua, nunca mais dera bola para promoções e palitos. Até o dia em que nasceu o pequeno Fortunato Dias de Ventura.

O mais curioso, e o que talvez aqui ninguém acredite, é que o sorvete que Fortunato Dias de Ventura ganhou naquela manhã, também havia sido moldado em torno de um palito premiado, para grande azar do sorveteiro, que viu seu faturamento sensivelmente atingido por aquele acontecimento apoteótico. O fato é que a partir daquele dia todos os sorvetes que o menino ganhava vinham afortunadamente com o palito premiado (e olha que Fortunato gostava muito de sorvetes!). O dono da sorveteria, muito desconfiado, sensivelmente temeroso de sua falência iminente, teve como ideia abrir uma ou outra embalagem de sorvete, de modo aleatório, para ver se aquilo era mesmo sorte ou erro do fabricante, algum lote que viera desgraçadamente mais sortudo que os outros, quem sabe. Logo se viu, no entanto, que esta hipótese poderia ser facilmente descartada. O sorveteiro, a  esposa do sorveteiro e os netos do sorveteiro entupiram-se por dias e mais dias de sorvetes e de decepções, e nada mais liam ao final de cada uma daquelas guloseimas geladas, do que a decepcionante inscrição “tente outra vez” nos palitos de madeira. A tristeza estava estampada em seus rostos melados, sobretudo quando entre um fracasso e outro, viam entrar pela sorveteria aquela figura cada vez mais rechonchuda e rosada que apontava do colo da mãe para qualquer um dos picolés da geladeira que, invariavelmente, vinham premiados.

O sorveteiro, resignado, resolveu tirar proveito daquilo e apostou numa estratégia de marketing, palavra até então desconhecida entre os habitantes de Quimera. Botou na fachada da sorveteria, em letras vermelhas e garrafais, uma faixa com a seguinte inscrição “Sorvete premiado. O prêmio já saiu aqui 47 vezes!”. No começo até que deu certo. Os moradores de Quimera, sensivelmente atraídos por aquele dado expressivo e profundamente incomodados pelo forte calor que fazia naquele triste e tenebroso verão, fizeram filas na porta da sorveteria para adquirirem também o seu tão sonhado palito premiado. Só que todos os outros habitantes da cidade eram pessoas de sorte apenas mediana e, portanto, jamais conseguiam o direito a outro sorvete. Alguns saiam cabisbaixos, lamentando a pouca sorte, outros saiam furiosos, muito irritados, xingando o sorveteiro e toda sua família de embusteiros de uma figa, que não deviam brincar assim com a esperança das crianças. E foi assim que começou a guerra fria, a verdadeira, assim chamada pelo gelo com que os moradores de Quimera passaram a tratar toda a família do vendedor de gelados. Uma injustiça, é preciso que se diga, um comportamento realmente deplorável dessa gente, já que como se sabe, o sorveteiro não tinha poderes sobrenaturais que o permitisse conhecer de antemão onde estavam os palitos premiados. O único aspecto sobrenatural dessa história toda era realmente a prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura.

Chegou a hora, como haveria de chegar, que o menino cansou de tomar tanto sorvete e passou a recusar até mesmo os sabores mais extravagantes e açucarados, aqueles que sempre o atraiam. Seus pais resolveram então guardar como um troféu o último dos palitos premiados para se lembrarem no futuro daquela fase áurea do garoto. A sorveteria, no entanto, não resistiu ao verdadeiro boicote exercido por seus antigos clientes e fechou suas portas. O sorveteiro e sua família fizeram as malas e se mudaram para a Sibéria, de onde eram seus parentes mais próximos, e nunca mais voltaram para Quimera, de modo que nunca souberam que seu antigo estabelecimento havia se transformado numa espelunqueira lanchonete, dessas que mais parecem um botequim, com banquinhos no balcão e vitrine de coxinhas, torresmos e ovos azulados na entrada. O que distinguia o recente estabelecimento dos demais de sua espécie era a presença, um tanto sorrateira e disfarçada, nos fundilhos mesmo do recinto, já próximo aos banheiros, de uma bancada para o jogo do bicho, a nova tendência no submundo do entretenimento da cidade.

A viúva Noêmia nunca fora mulher de grandes vícios (e tampouco de grandes virtudes) mas apaixonou-se perdidamente pelo bicheiro, o atarracado Sr. Osório, desde a primeira vez que, saindo distraída do banheiro do bar, dera de cara com aquele sujeito que acabava de atender um cliente (um senhor que arriscou uma bolada no burro). Dona Noêmia, que era muito inteligente, decidiu apostar naquela relação e passou a frequentar o bar regularmente, nunca se esquecendo de fazer sua fezinha, nunca sem ver Osório. Isso seria apenas mais uma história, como tantas outras histórias, de alguém apaixonado que se vê cometendo insanidades nunca antes imaginadas, apenas pelo simples deleite de passar um tempo a mais ao lado da pessoa amada, não fosse a viúva Noêmia avó de um menino tão sortudo, o ditoso Fortunato Dias de Ventura, protagonista desta história.

Ciente das alvissareiras conquistas que o neto já realizara no mercado das guloseimas geladas, a viúva Noêmia resolveu contar com o garoto para suas ótimas intenções no mercado matrimonial. Todo sábado levava ao neto a cartela colorida do jogo de bicho e pedia ao menino rechonchudo que apontasse com os dedos para a imagem do animal que mais lhe apetecesse no momento, que fizesse uma escolha aleatória como outrora já fizera com os picolés. Não há quem não conheça a máxima que diz que um raio não cai mais de uma vez no mesmo lugar, mas como todos aqui já sabemos, essas coisas só funcionam para pessoas de fortúnio medíocre, como a grande maioria de nós. Para pessoas magistrais como Fortunato Dias de Ventura, o raio cai exatamente no local em que ele quiser e no momento em que ele quiser. Assim, como é fácil de se supor, a viúva Noêmia passou a ganhar no bicho absolutamente todos os sábados. E só não jogava todos os dias porque tinha pudores, tinha receio de que a boca pequena melasse o clandestino negócio de Osório, como já tinham feito antes com os açucarados sorvetes.

De tanto ganhar no bicho, a viúva Noêmia comprou uma modesta fazenda e chamou Osório para morar com ela. O atarracado Osório gostava muito de sua vida clandestina, sempre conhecendo gente nova, conversando com os apostadores de saída de banheiro, aquela gente aliviada que nunca fazia sua vida cair na rotina. Entretanto, a possibilidade de se unir a uma pessoa tão bem aventurada, tão primorosamente afortunada, fez com que Osório pesasse bem e decidisse pela vida no campo, longe dos bichos, ou melhor, longe do jogo do bicho e perto dos bichos de carne, osso e úberes e também perto da sorte da viúva Noêmia. Mas como a sorte de Noêmia não era de Noêmia, mas sim de seu neto, e como o seu neto não era algo que se pudesse carregar por aí, o interesseiro Osório acabou se desinteressando por Noêmia, que nunca mais ganhou nada fácil nessa vida, e viu o seu negócio agrário se desmoronando tão fácil quanto veio. Numa tarde de sábado, quando tudo parecia que não podia piorar, Osório caiu do burro. Era um burrinho pedrês, último bicho que sobrara na fazenda, já velho, sem dentes e que não aguentou o peso do atarracado Osório e o lançou longe. Osório morreu na hora e a viúva Noêmia ficou viúva de novo.

Enquanto isso, Fortunato Dias de Ventura crescia. Sua avó Noêmia foi morar com ele e com seus pais. A velhinha já não saia de casa, temerosa de se apaixonar de novo e de contrair uma nova viúves. Estava, digamos, um pouco confusa das ideias e passava o dia repetindo sequências de números e bichos e anotando obscuros hieróglifos em seu bloquinho cor de abóbora. Fortunato Dias de Ventura, agora um rapaz de pelos emergentes, olhava tudo aquilo muito assustado, mas buscava não contrariá-la. Deixava a velha senhora em paz – avestruz, águia, burro, borboleta – e saia todo dia para cuidar de sua própria sorte, sempre ao lado do pai, o agitado Sr. Eduardo de Ventura, porque a mãe, muito religiosa, não gostava de se envolver naqueles assuntos escusos, que já haviam levado à falência uma família de pessoas tão honestas, como era a do sorveteiro, além de ter deixado louca sua sogra, antes pessoa de ideias tão razoáveis, salvo pelo fato não desprezível de ter educado seu ignaro marido.

Se antes o menino Fortunato Dias de Ventura apenas se refestelava com inocentes picolés de palitos premiados ou gostava de apontar seu dedo roliço e rosado para uma cartela colorida cheia de animais – como teria gostado de fazer qualquer criança de dedos menos roliços e de sorte menos promissora – agora a coisa estava um pouco mais séria, um tanto mais profissional. O Sr. Eduardo de Ventura havia se tornado uma espécie de empresário, manipulando a sorte do filho em casas de apostas, em corridas de cavalos e até mesmo, por que não, no bingo da paróquia de nossa senhora de Monte Serrat, frequentado desde sempre pela Sra. Lenora (que se enchia de vergonha toda vez que via o marido, aquele desqualificado, chegando com o menino naquelas sagradas tertúlias dominicais). A estratégia do pai era bastante clara e sagaz. Por mais sorte que Fortunato tivesse, por mais certo que fosse que ele poderia ganhar o que quisesse e quantas vezes quisesse, isso não poderia acontecer sempre. A estupenda sorte chamaria muita atenção e poderia pôr a perder aquele negócio tão auspicioso. Então o segredo era manipular os palpites do rapaz e perder de vez em quando, às vezes até mesmo um dia inteiro, tudo para não causar suspeitas. Nesses dias inglórios, se Fortunato escolhia uma cartela, o pai logo tratava de substituí-la. Se o rapaz apostava num puro sangue lusitano, o pai declarava apoio a um quarto de milha qualquer. O segredo era sempre fazer apostas miúdas nestes casos de derrota certa e deixar os palpites polpudos para quando Fortunato tivesse a liberdade de escolha. Nessas horas eles quebravam a banca, como dizem nesses meios, e imediatamente voltavam pra casa, para grande desgosto de Fortunato, que não gostava de se ver tão castrado em suas venturas com o destino.

Nos primeiros meses do negócio a economia doméstica foi sensivelmente progredindo. A casa ganhou uma reforma de arquitetura primorosa, com três andares e um mirante com vista para as montanhas mais distantes. Até mesmo a viúva Noêmia saiu beneficiada dessa história toda. Construíram para ela um altar em um quartinho nos fundos da casa, onde ela adorava imagens em tamanho real dos vinte e cinco animais do jogo de bicho, inclusive o elefante que sozinho já ocupava quase a metade do ambiente. A velha senhora, cada vez mais enrugada e com olhar progressivamente mais sombrio, caminhava em círculos pelo recinto, carregando um castiçal de velas coloridas com nauseante odor de flores mortas. Repetia palavras impronunciáveis e quase não se alimentava mais. O prato de comida que a Sra. Lenora deixava todo dia na porta de seu quartinho, quase sempre voltava intocado. A mãe de Fortunato, aliás, a despeito do vertiginoso progresso econômico pelo qual passava sua família, não conseguia concordar com a origem sibilina daquela fortuna toda e se mantinha ainda mais afastada daquele ser abjeto que era seu marido, conforme ela fazia questão de lembrar. Aproveitando-se das grandes proporções que havia atingido sua residência e das grandes distâncias de corpos que isso proporcionava, certa vez mandou colocar os pertences de seu abominável cônjuge para fora do quarto e mandou a criatura se instalar em um dos novos dormitórios do terceiro andar, bem longe dela, que desde sempre havia se recusado a sair do térreo. Nem acreditava que depois de tantos anos conseguiria passar uma noite sem ter que ouvir aqueles barulhos – e os consequentes odores – que vinham dos mais recônditos buracos do marido.

Fortunato Dias de Ventura, por sua vez, a despeito de sua sorte tão prodigiosa, andava pela casa taciturno e cabisbaixo, tropeçando em trevos de quatro folhas que somente ele conseguia enxergar no jardim. Não tinha amigos e não ia para escola, já que o pai não queria que suas energias fossem desperdiçadas em expressões de álgebra e no estudo de línguas pouco úteis para os negócios do destino. O Sr. Eduardo de Ventura passava o dia longe do casarão, envolto em atividades nunca bem esclarecidas, sabido que sempre foi para todos que ele não trabalhava desde antes do nascimento do menino. A economia doméstica sempre fora capitaneada pela mãe, que mesmo agora com o advento dos prodigiosos desígnios do filho, continuava a produzir mandalas e filtros dos sonhos que vendia nas feiras de artesanato da cidade. O casarão passou tempos assim, da mais modorrenta rotina, com cada um de seus ocupantes suficientemente distantes uns dos outros, a ponto de mal se cumprimentarem quando, por ventura ou descuido, calhavam de se trombar em algum corredor. Com a vizinhança, tampouco, exerciam qualquer tipo de relacionamento desde os tempos já saudosos dos palitos de sorvete. A casa era uma ilha na cidade de Quimera e passaria despercebida pelos vizinhos, não fosse o quadradinho sempre iluminado do quarto da mãe no térreo, os estranhos ruídos que vinham do quartinho da viúva Noêmia nos fundos e as saídas furtivas do menino com o pai, sempre que este aparecia, vindo sabe-se lá de onde, mal a noite começava a se pronunciar, para buscar o menino e levá-lo cidade afora a fim de explorar sua estrondosa sorte.

Certa vez, no entanto, o Sr. Eduardo de Ventura não apareceu para buscá-lo. A lua aparecia no céu de Quimera e Fortunato já se mortificava ante a perspectiva de mais uma noite perdida em casas de apostas e mesas de pôquer. Chegou até mesmo a dormir no banco de cimento diante do portão do casarão, onde sempre esperava seu pai. Mas naquela noite ele não apareceu. E tampouco apareceu na noite seguinte e sequer mandou algum recado para explicar suas ausências nas noites e noites seguintes. Fortunato, sempre obediente, não deixou de esperá-lo, noite após noite, diante do casarão. Sua mãe, compadecida e sempre em silêncio, aparecia de tempos em tempos com um prato de comida, um cobertor para as noites frias e depois de algumas semanas, quando percebera que o filho passara a dormir a madrugada toda ao relento, trouxera-lhe um de seus filtros dos sonhos, para lhe proteger a noite.

Passados três ou quatro meses de espera ininterrupta, certa noite o menino foi novamente surpreendido pela figura da mãe, que de camisola branca e com uma vela na mão, apareceu diante dele, que já dormitava no banco de pedra, ao relento, e pronunciou solene “Já não se ouve mais nada. Ela também se foi”. Fortunato olhou para mãe confuso, sem saber se estava acordado ou ainda dormindo, mas logo deu-se conta de que tudo estava num absoluto silêncio, um silêncio inaudito, como há anos não se fazia. Já não se escutava mais os incompreensíveis murmúrios da viúva Noêmia. No quartinho dos fundos, apenas as chamas de velas pela metade e o olhar penetrante de vinte e cinco animais que agora poderiam dormir tranquilos.

Muito se especulou sobre o sumiço repentino da viúva Noêmia. A reinauguração do silêncio não poderia passar incólume na pequena Quimera, já que os murmurosos lamentos da velha senhora podiam ser escutados até mesmo das cidades vizinhas, assim como se podia sentir de longe o cheiro nauseabundo de suas velas coloridas. Alguns afirmavam, e juravam certeza, de que tinham avistado a viúva Noêmia se esvanecendo como fumaça, pela chaminé nos fundos do casarão, até se perder entre as nuvens mais distantes do céu noturno. Outros juravam que tinham visto Noêmia em uma praia do Marrocos, comprando tapetes e outras quinquilharias junto a um bem apessoado senhor, que muito parecia ser o pai de Fortunato Dias de Ventura. Nada disso, porém, conseguiu alterar a rotina de Fortunato, que noite após noite, sempre no mesmo horário, se punha diligente diante do portão de ferro para esperar atento o seu tão demoroso pai.

O tempo fizera do casarão um prédio decrépito e cinzento. A despeito da imensidão da casa e do pó que se acumulava nos móveis, a ponto de não ser mais possível vê-los, a mãe se recusara a ceder às pressões da especulação imobiliária. Em todos aqueles anos, após o sumiço do marido e da viúva Noêmia, sempre a atormentavam com milionárias propostas de compra do antigo imóvel, para construir em seu lugar um gigantesco shopping center, o arauto da modernidade que teimava  em contaminar a pequena Quimera. Os anos haviam passado e a sorte de Fortunato Dias de Ventura há tempos que não dava mostra de sua portentosa presença.  Há anos que ele não entrava em casa, temeroso de que o pai podia aparecer em algum momento de descuido, para se valer uma vez mais de sua prodigiosa sorte. A Sra. Lenora, mesmo com o alivio que sentia pela ausência do marido, passou a dormir ela também todas as noites ao relento, ao lado de Fortunato, o acompanhando naquela espera, revezando com o filho os momentos de sono e vigília. Certa vez, enquanto Fortunato dormia com a cabeça em seu colo, reparou que pela primeira vez na vida se sentia cansada. Olhou para as mãos, com a atenção que nunca costumava olhar, e notou que tinham lhe aparecido manchas marrons e veias calibrosas, que a vida sempre tão agitada e envolta no mais rigoroso trabalho, a tinha impedido de perceber. Ela envelhecera. Olhou também para as mãos do filho, para seus dedos magros de unhas encravadas e lembrou-se do menino de dedos roliços que apontavam certeiros para sorvetes de palitos premiados. Ele também envelhecera. Estavam velhos e sós, em uma cidade que não mais lhes pertencia. Eram somente os dois naquele imenso casarão abandonado, cercado por filtros dos sonhos e lembranças. Foi quando Lenora recordou-se da única boa ideia que seu desprezível marido um dia já teve na vida, que foi a de guardar como lembrança o último dos palitos premiados, na época em que o pequeno Fortunato Dias de Ventura passou a se desinteressar por sorvetes.

Na manhã seguinte, ainda antes do sol aparecer por inteiro no céu de Quimera, Fortunato Dias de Ventura despertou com o toque suave de sua mãe em seus cabelos ralos e grisalhos. Nem bem Fortunato a olhou e já compreendeu tudo. A Sra. Lenora lhe disse de forma terminante, sem margem para contestações “Vamos, venha comigo. Ele já não voltará mais”. Fortunato a olhou sério, tão fundo como jamais a tinha olhado, e nem por um segundo pôs em dúvida as palavras da mãe. Reparou que ela trazia o velho palito premiado nas mãos. A sorte é que essa era uma daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece e que nunca, absolutamente nunca acabam. E foi por isso, que mesmo quarenta e tantos anos depois, que Fortunato Dias de Ventura pôde entrar novamente em uma sorveteria, ao lado de sua mãe, para trocar um palito premiado por um sorvete. O já alquebrado Sr. Fortunato  hesitou um pouco diante da geladeira de picolés, com sabores ainda mais açucarados que os de sua infância, e resolveu não titubear muito, dando apenas vazão a sua antiga intuição. Escolheu o seu favorito, o de groselha, e saiu com sua velha mãe em direção à praça, onde sentaram no mais absoluto silêncio para tomar sorvete e mais nada, destreinados que estavam da prática do diálogo. Foi então, passadas algumas bocadas, dadas com cautela já que os dentes de Fortunato já não suportavam mais aquelas baixas temperaturas, que ele pôde ver incrédulo, que nenhuma letra havia impressa naquele palito totalmente desprovido de sorte, adornado apenas pelo logotipo da centenária fábrica de sorvetes de Quimera. A mãe não se assombrou. Pelo contrário, sem dizer uma só palavra, mas com o olhar que tudo evidencia, parecia já saber desde sempre que nada daquilo importava. Foi então que Fortunato Dias de Ventura olhou fundo nos olhos da mãe e se lembrou de tudo, de sua presença muda, porém tenaz, absolutamente eterna, até mesmo nos atos menos venturosos de sua vida. Foi quando teve a certeza, como jamais tivera antes, de que tinha realmente uma sorte prodigiosa.

Ela é paulistana

Ela é paulista, she is paulistana, se encantou comigo quando soube que vim do Piauí, tem amigos bacanas, somos um na cama e chorou quando vimos La La Land. Sábado curti uma pizza, diversão comprada com cartão de crédito e tédio a perder de vista. Domingão numa bike, felizes lindinhos, paradas para um beijinho, Av. Paulista, arte livre, povo feliz, orla de comida japonesa, deslizamos num prato, hashi em punhos distantes das árvores para que não mosque escremento de pombos. Tem paladar refinado mas, não achou graça da buchada de bode quando conheceu mainha. Ela é paulistana, carro domingueiro, buzina antes de abrir o sinal. Tem humor típico da capital, ri de quase nada, ama cachorro e nem que saber de criança. Sou bichano dela mas, pediu que tirasse o excesso de pelos, atendo qualquer apelo dela afinal, ela é paulistana.

Enquanto o infarto não vem…

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Preciso desabafar. Ontem mesmo eu vi uma reportagem no jornal das dez dizendo que é muito importante desabafar, que as pessoas que não desabafam são mais propensas a desenvolver toda sorte de úlceras e cânceres, então eu vou desabafar, preciso falar, falar tudo, porque eu sou muito jovem e não quero ter câncer, não agora, quer dizer, não quero ter câncer nunca, Deus me livre! Um momentinho… tem alguma coisa de madeira neste ônibus? Preciso bater três vezes na madeira para afastar esses pensamentos, ah, eu nem devia ter pronunciado essa palavra, ontem mesmo, depois do noticiário eu fui dar uma coçadinha no pescoço, assim, como quem quer apenas ocupar um pouco os dedos, e senti um negocinho, um carocinho sabe? Hoje parecia até um pouco maior, talvez seja só uma saliência do osso, não sei, mas é justamente sobre isso que preciso desabafar. Não, não sobre as saliências dos ossos, mas sobre o fato de que sou muito influenciável, muito impressionável com as desgraças alheias, sabe? Sim, principalmente quando fico sabendo que alguém morreu, principalmente se quem morreu tiver mais ou menos a minha idade e mais ou menos meu tipo físico. Sim, é só eu ficar sabendo que alguém morreu, que começo a sentir todos os sintomas que levaram aquela pessoa a morte. É terrível! Tudo começ… sim, claro, vai lá, eu espero, segurar essas coisas é terrível, meu tio mesmo… bom, vai lá, vai lá, eu espero…

(…)

Imagine, essas coisas demoram mesmo, e ainda mais naquele aperto todo, com tudo chacoalhando, a gente vai pensando que vai ser rápido, mas sempre tem uma surpresa que faz a coisa ficar demorada, né, ah, me desculpe, é que eu já sofri muito com isso, quando soube que meu tio estava com pedras e urrava de dor sempre que ia mijar. Foi só saber disso que passei a ir ao banheiro de cinco em cinco minutos e sempre sentia um ardorzinho, uma pontada aguda em todo o canal da uretra, sabe… isso só foi passar quando fiquei sabendo de outra tragédia, do aborto espontâneo da minha vizinha, você acredita que comecei a sentir um rebuliço enorme na região do baixo ventre? Sim, é claro que sei que não tenho útero. É claro que sei que nenhum homem tem útero, e nem ovários e nem trompas de falópio, nem nada disso… sim, sim, eu vivo pesquisando na internet o nome dessas coisas todas, a gente precisa conhecer bem o nosso corpo, né? A gente nunca sabe que surpresas pode ter no dia de amanhã… enfim, eu dizia que por mais que não tivesse um útero, me imaginei tendo as dores no meu, digamos, útero virtual, na região em que eu teria um útero se eu fosse mulher, sabe? Não sei se estou sendo claro. Isso é horrível, horrível mesmo e é por isso que eu preciso desabafar. Eu não quero ter câncer. Não, jamais. Então eu preciso falar, falar, falar… mas eu ia dizer que tudo começou com o infarto do meu avô. Eu era menino ainda, tinha 14 ou 15 anos, não me lembro bem agora, devo estar com alzheimer, ultimamente eu não consigo me lembrar de nada direito, troco tudo, mas foi ainda adolescente que eu soube que eu estou destinado, fadado, sentenciado a morrer de infarto. É uma tradição familiar, pelo lado paterno, e que eu desconhecia totalmente até aquela data. Meu avô, meu bisavô, meu tataravô e toda uma linhagem a perder de vista havia morrido de infarto no miocárdio. Meu pai já tomava remédios a tempos e nunca me disse nada, imagine que vantagens eu teria se já tivesse me precavendo desde o nascimento? Sim, um belo dia meus antepassados estavam tranquilos em suas casas, ou na rua ou trabalho, vivendo apenas mais um dia, como tantos desses que venho vivendo e que vão se escasseando agora mesmo enquanto falo com você, e sentiram uma dorzinha, uma pontada, uma explosão dentro do peito e depois mais nada. E desde esse dia… sim, claro, pode ser importante, atenda, pode ter acontecido um acidente, uma tragédia, pode ser seu filho te ligando debaixo de algum escombro, Deus me livre, mas tudo pode acontecer, sim, atenda, eu espero, valha-me Deus…

(…)

Ah, que bom que era só telemarketing, digo, eu também odeio telemarketing, por mim morriam todos, quero dizer, não morrer-morrer, mas apenas sumir um pouco ou só deixar de encher meu saco que já estava bom, mas podia ser coisa pior né, a violência dessa cidade está terrível, mas eu dizia, sim, eu dizia que depois que soube que vinha de uma família de infartados, vivo sentindo uma dorzinha no peito, um incômodo. Em geral isso passa logo depois de ir ao banheiro, sabe como é, né, mas eu sempre penso que estou morrendo quando começo a sentir aquele incomodozinho aqui entre as costelas, bem na base do coração. Toda vez eu penso que enfim chegou a hora, que vou começar a ver tudo turvo, minha vida toda passando pelos olhos como num filme e aquela ladainha toda que ninguém sabe se é verdade porque nunca ninguém voltou pra contar. Meu médico não aguenta mais me ver chegando no consultório, com a mão no peito e cara de infartado e sair de lá com olhar aliviado depois de levar uns bons apertões na pança. Mas eu posso fazer o quê, né, se tenho essa linhagem maldita, essa tendência irreversível ao infarto, à morte prematura, a deixar a vida antes de tê-la vivido como eu gostaria, a minha vida agora é assim, é todo dia acordando com a expectativa de que aquele pode ser o último, o famoso dia do infarto, vai se fazer o que, né, enquanto o infarto não vem a gente vai levando como pode, se distraindo como pode, sempre achando que está doente, irremediavelmente doente… ainda se não me contassem de tantas tragédias, de tantas doenças estranhas, coisas do capiroto mesmo, você lembra aquela atri… ah, sim, que pena… digo que bom pra você que chegou, que pena pra mim que ainda vou pipocar em um monte de cidadezinhas que nem sei o nome, antes de chegar na casa dos velhos, sim dos meus pais, você acredita que o velho ainda não morreu? É sério. Tem 94 anos e o infarto dele ainda não chegou…  ah, mas vai chegar, tenho certeza, não dou mais dez anos pra isso acontecer, sou de uma família de infartados, você sabe, isso não vai demorar pra acontecer! 94 anos! Deve ser horrível viver tanto, né? Será que isso é genético, dona, será que vou viver que nem meu pai, esperando dia após dia pelo infarto, sempre aquelas pontadinhas até os 94 anos? Ainda nem cheguei nos setenta, meu Deus, o que vou fazer até lá, enquanto o infarto não vem? Que outras doenças será que ainda vou ter, hein, moça!? Ah, sim, claro, o motorista já está impaciente, corre lá dona, é horrível ficar esperando…

Miojo

“O meu refrigerador não funciona.
Baby, meu refrigerador não funciona.
Eu tentei tudo, eu tentei de tudo.
Não funciona, não funciona!”

Sentada à mesa da cozinha, Ana balança ao som da música e brinca de criar desenhos com as migalhas do pão de ontem. Uma delas está na cadeira e pinica sua coxa.

Antônio continua a cantar enquanto prepara o miojo:
“Não, não, não!
O meu, o meu, o meu refrigerador não funciona.
Não…”

“Já pensou em comprar um novo, Antônio?”
“O quê?”
“Uma geladeira nova.”
“Com que dinheiro?”
“Já pensou em trabalhar?”
“Me deixa cantar. Meu refrigerador. Baby, baby, aaah…”

Ela ri. E lembra do pai. Ele diria que Antônio corta o nariz pra dar raiva na cara. É duro porque quer, não trabalha porque não quer. Não tinha paciência, o pai. Quer dizer, não tinha paciência com gente. Entendia de máquina. Passava horas desmontando, procurando o defeito, remontando, testando, desmontando de novo. Se estivesse aqui, ele daria um jeito na geladeira. Se não desse, era porque não tinha jeito mesmo.

Antônio divide o miojo em dois pratos e joga queijo ralado por cima.
“Meu refrigerador não funciona,
Meu refrigerador não funci… funci… ona!”

Na espreita

Uma vez por semana me fixo nessa via, chego cedo, me preparo e fico apostos, na pressa muita gente nem me vê, tenho a impressão de que alguns nem olharam para o céu, necessito de visibilidade, não quero ser o centro das atenções mas, parte do caminho de alguns rumo ao bolso pelo menos, vivo de migalhas assim como os pombos que ficam aos meus pés e não posso embora, a minha vontade seja de dar uma bica em todos eles.

Cada lugar tem o seu jeitinho, no centro além de pombos, uns caras cantando arroxa aqui e acolá com o povão ao redor, fico parado com uma vontade louca de dar um salto e gritar feito o cara barbudo com a bíblia na mão, só penso, eles podiam estar roubando, matando em vez disso ficam soltando sons quase gemidos num rebolado só.

Nessa calçada a musica é melhor, as pessoas desfilam cores, principalmente as mulheres, tem uma pequena que apareceu nas últimas duas semanas, na primeira ficou debaixo do toldo, óculos escuros, telefone na mão, impaciente, fumou dois cigarros, desistiu, foi embora e nem me viu. Na segunda, tentou ficar parada no mesmo lugar, acendeu o primeiro cigarro, o dono da loja é antitabagista, assim que ela encostou levantou a lona, a minha já estava armada só de olhar para ela, então, ela me viu, caminhou em minha direção, confesso que quase espirrei com a fumaça do cigarro naquela tarde, que graça, sussurrou fitando o poema lápide sob os meus pés, puxou uma nota de dez, jogou na caixa, se foi, caminhava linda sem ser notada, espero que hoje ela volte, desço da caixa e lhe dou um abraço.

Nada se moverá

tumblr_oqtp9ez5fZ1uhtmvho1_1280Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões. Ninguém a vê porque é madrugada, o parque está fechado e sabe-se lá porque este brinquedo está funcionando. As luzes do trenzinho são coloridas e não ficam menos vibrantes porque há uma menina morta dentro dele. Dona Maria, do prédio em frente, está dormindo, mas se lhe ocorresse acordar e abrir a janela, veria como dançam as luzes do trenzinho na madrugada, em plena escuridão, uma única linha contendo todas as cores do mundo, serpenteando insone por cima das cordilheiras sintéticas do parque. Mas Dona Maria não acordará. A noite está muito fria e ela dormirá sem culpas, o som do trenzinho a lhe embalar os melhores sonhos. Há uma menina morta no último vagão do trenzinho do parque de diversões e nada, absolutamente nada, se moverá diferente por causa disso.

Há uma menina nua na tela do computador pessoal do vigilante do parque. A imagem está congelada mas ao redor dela tudo treme. Tremem os clipes de papel espalhados na mesa, tremem as canetas dispersas, treme o café frio dentro da xícara, tremem as chaves dos brinquedos atiradas sobre a pilha de relatórios. Treme também a foto da menina no porta-retratos em cima da mesa e que parece olhar para os olhos absortos do vigilante do parque, seu pai, o homem de mãos agitadas e decididas que fazem tudo ao redor tremer. O que também treme, só que de frio, é a menina que passa ao redor da guarita do vigilante do parque e o paralisa. É madrugada. O vigilante não sabe o que aquela menina faz ali e não faz a menor questão de saber. O parque está deserto e ele se enche de ideias. A menina é magra, suja, está quase nua e tem olhos alienados, mas tampouco com isso o vigilante se importa. O que realmente lhe interessa é que ela faria tudo por mais uma pedra de crack.

Há algumas meninas magras em frente ao tosco caixão da prefeitura. Ele é tão frágil que parece que vai se esfacelar ao menor contato. Elas também. São as únicas ali e olham absortas para o movimento elíptico que faz a pá do coveiro entre o monte de terra e o caixão da menina que não voltou do parque. A pá é fincada na terra, se enche toda, descreve uma curva no ar, esvazia-se na cova e retorna célere ao monte de terra. O movimento é rápido e repetido muitas vezes, tantas vezes que aquilo as hipnotiza. Logo serão elas que estarão ali e disso até o coveiro sabe. Aliás, todo mundo sabe e isso é mais previsível do que o movimento que faz a pá do coveiro. Algumas terão morte bem lenta, algumas serão violentadas até o fim, algumas sofrerão repetidas pancadas na cabeça por vigias desesperados, e logo, muito logo, todas elas estarão mortas. E sendo as meninas quem são, nada disso passará de mero acidente, nada disso sairá no jornal. Hoje é sábado e o parque está cheio. O vigilante está bem disposto e tudo seguirá como sempre. Nada se moverá.

Próxima parada

Talvez a queda tenha começado com os dedos espremidos. A mulher dormia, cabeça pendurada para a frente, franja sobre os olhos, pés inchados tentando escapar pela frente da sandália. Úmida de enxurrada, a tira de couro vermelho como as unhas estrangulava asperezas dos polegares. Uma freada do ônibus e a sandália invadiu o corredor à minha frente feito uma boca repleta de dentes encavalados. Meus pés se encolheram na escuridão das botas. Em vão, buscaram conforto no ambiente infiltrado pelas poças do caminho. Passariam a noite assim.

A sandália voltava para casa. A dona e toda aquela gente desmantelada pelo dia só aumentavam o cansaço pelo meu plantão noturno que nem tinha começado. Maldito gerente. Malditos dedos. Maldito motorista que não sabia frear ou freava forte de propósito pra ferrar quem podia ser ferrado. Maldita chuva que fechava janelas e concentrava bafos e doenças.

Pela janela, a farmácia. Apertei o botão, me esgueirei pelo corredor, pedi licença ao homem do fone de ouvido. Ele não ouviu. Cutuquei, mal olhou, forcei passagem, desci correndo.

Sempre achei que morreria de um jeito estúpido. Escorregão no banho. Carne entalada na garganta. Caí. E antes de apagar tive tempo de pensar na bolsa aberta que ia antes de mim e jorrava lenços sujos, no gerente que me esperava para o plantão, na pena de acabar assim, sozinha no asfalto em uma terça-feira chuvosa.

Quando abri os olhos, o pé boca despudorado sorria para mim.

Homens que cospem

Desvio de cuspes diariamente.

Saltitando por entre calçadas, ziguezagueando

os molhados recentes, os secos implícitos e os amarelados também.

Cuspir não é seu hábito exclusivo, mas os homens cospem por aí com mais prazer e com a propriedade de quem demarca com pequenas poças seus supostos territórios.

Há vezes em que quase atingem os próprios pés, num ato desajeitado de portar sua masculinidade, como se por poucos centímetros ela estivesse em risco e que, por poucos centímetros, ele não é apenas um homenzinho ridículo que cospe em si mesmo e que, por poucos centímetros, ele não é como aquele que falha na competição de cuspe a distância entre os amigos da quinta série.

Muitos homens gostam de cuspir por aí quase tanto quanto gostam de mijar por aí, são artes equivalentes, eu diria, com a diferença de que para o cuspe não há pudor algum de se fazer em público, se é que os homens têm algum pudor de mijar em público, se é que isso existe. Se existe, cuspir seria um pudor menor, certamente, nessa escala de coisas que saem do corpo e molham a rua.

Você já foi atingida por um cuspe?

Muitos não cospem. Gospem: o que é pior. Dão umas gusparadas com G em tudo quanto é coisa com aquele guspe encorpado, espumante, democrático.

Fazem isso para molhar. Para molhar o que está seco e não têm paciência para que seja molhado naturalmente, porque não têm calma para que as coisas se molhem de outros modos e por isso cospem e gospem para facilitar e se enganar, pois mesmo quando aguado à base de cuspe, nunca deixará de ser a seco. Nunca. E nós sabemos.

Sabemos a diferença entre cuspe, saliva e prazer.

Ao desviar dos pequenos lagos cintilantes nos passeios, sei do que me esquivo.

E, desviante, cavo meus espaços pelas ruas, desbravo brechas, ilhas, lugares onde eu possa ser úmida somente quando quero, onde possa ser arquipélago, onde possa ser torrencial

onde possa