desmemórias de menina

menina amuada de tranças
segue a turba de correntes-crianças
sem olhar pros lados.
tem medo-vergonha do que vão falar,
do que podem pensar
quando virem o tonho.
– hoje a mãe vai voltar tarde.
tonho te pega na escola.
respeite o tonho, se comporte.
agora o tonho é teu pai!
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar.
padrasto.
nada mais que padrasto.
o pai já morreu.
ela viu o caixão.
modelo jasmim da prefeitura.
quinze minutos pra despedidas.
o tonho estava lá.
sete oito pás de terra.
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro.
a mãe toda de preto.
vestido tia emprestou.
lágrimas secas.

– mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem.
camisa preta de sempre.
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças.
passos rápidos da menina,
mãos nos bolsos,
os passos trôpegos de tonho.
nossa senhora permita que ninguém tenha notado.
ônibus vazio,
no último assento, tonho esboça um sorriso.
com medo-vergonha-pavor menina retribui.
se encosta disfarçada para o extremo do banco.
– isso é roupa pra andar perto do tonho, menina?
motorista e cobrador discutem futebol.
as mãos de tonho em suas pernas.

– pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos.
banheiro no quintal.
colchão improvisado pra menina na cozinha.
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto.
ela sabe o que a espera.
– vem almoçar, menina.
depois de comer, tonho conta a história pra você.
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga.
se um dia a mãe descobre ela está morta.
não, a mãe não pode saber.
ainda se o enfrentasse.
as vizinhas.
será que as vizinhas sabem, meu deus?
som esganiçado do programa esportivo na tevê.
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço,
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca.
– come tudo que depois tem historinha,
tem a nossa brincadeira.
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

– pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos.
cadeado trancado no portão de madeira.
desenhos de giz na calçada.
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu.
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança.
– não conta nada pra sua mãe, senão ela morre.
menina amuada de tranças senta na calçada e espera.
espera a tarde acabar,
espera a mãe retornar,
espera.
tonho dorme.
brincadeira acabou.
as facas brilham no escorredor de louça.

– mãe, você sabe se morrer dói?

Antônio 10.820

Da primeira vez, ele contou noventa e oito carros. Esperava um telefonema. Da janela, via e ouvia o viaduto que era seu vizinho. O trânsito estava livre. Um, dois, três, quatro carros. Trinta e um, trinta e dois, trinta e três. Alguns passavam tão rápido e tão próximos que era difícil contar. Duas vezes, ele teve dúvida se tinha perdido algum. Quando chegou ao noventa e seis, o telefone tocou. Contou mais dois e foi atender.

Três dias depois, no começo da noite, voltou à janela. Na praça em frente ao prédio, um bêbado gritava. Ele olhou para baixo, viu o homem deitado no banco, gesticulando, e, à direita, o viaduto. Já tinha jantado um sanduíche de presunto e queijo prato, ido ao banheiro, tomado banho. Podia contar até cem.

Foi até cento e cinquenta no dia seguinte. Duzentos no outro. Duzentos e quinze. Sempre à noite. Precisava de um método. Cada vez, contaria mais dez. E assim foi. Todo dia, latinha de cerveja no parapeito, sentado em uma cadeira ao lado da cama, começava a contagem. Duzentos e trinta. Duzentos e quarenta. Duzentos e cinquenta. Bebia devagar, pra cerveja durar, sem tirar o olho da pista. 

Os domingos tinham ainda mais cara de domingo porque o viaduto fechava. No asfalto, famílias passeavam, esportistas corriam, cachorros latiam. Ele trancava a janela, ligava a TV, bebia mais. Saía, às vezes, para a padaria, o parque, o mercado ou a boate. Nunca subia a rampa do viaduto, onde ambulantes aproveitavam o movimento de pedestres para vender pipoca, cerveja e cheetos.

Uma segunda-feira, depois do domingo vazio, foi para a janela ainda antes do trabalho. De manhã, os carros eram diferentes, tinham cor e rostos. No trânsito quase parado, perdeu a conta e recomeçou várias vezes. Saiu tarde, irritado. 

Costumava ser o primeiro a chegar e esperava o gerente abrir a loja, mas nesse dia a porta já estava aberta quando virou a esquina vindo da estação de metrô. Não falou com ninguém. Guardou a mochila no depósito, trocou de camisa e se colocou ao lado dos outros dois vendedores que já esperavam clientes.

Fim de mês, vendeu pouco: duas camisas, quatro calças, uma gravata, sete pares de meia em promoção. Comprou um pacote de três cuecas. Pelo menos chegou rápido em casa e pôde se preparar com calma para a janela. Colocou no congelador as cervejas que comprou no boteco ao lado do prédio, esquentou resto da comida chinesa, comeu duas mexericas, tomou banho.

Tinha tempo até o viaduto fechar, às 9h30 da noite. Pegou quatro latinhas e deixou num isopor no chão, ao lado da cadeira. O trânsito fluía bem, um bafo quente entrava pela janela, o isopor mantinha a cerveja gelada. Lá pelo quatrocentésimo carro, um Gol, Antônio levou a mão direita da coxa até a virilha. Sentiu o pênis e enfiou a mão dentro da bermuda. Se masturbou devagar, concentrado no trânsito. Coordenava o movimento com os números na cabeça. Gozou um pouco antes de encerrar a contagem do dia, setecentos e vinte. 

Em uma noite de tráfego intenso, mas fluído, Antônio chegou a dez mil oitocentos e vinte. Nunca superou esse recorde, mas continua tentando. Há três anos, passa pelo menos uma hora na janela do quinto andar do prédio amarelo. Toda noite, conta milhares de carros. Mas quase ninguém vê.

Minhocão
foto: Daniel Castanho / Flickr

nota de rodapé

 

Diante daquela picanha sangrando na Churrascaria Passarinho, sentiu que deveria abandonar aquela vida, tão lindas as folhas verdinhas lavadas e como suculentas ficam bem temperadas, decidiu parar de comer carne. Esse tipo de decisão envolve muita coisa, a principal delas é de que você não é dono da sua vida, assim como existem os vigilantes do peso, também existem os caras que se preocupam quando você não curte mais aquele churrasquinho de domingo, nada mais triste do que uma bela churrasqueira cheia de abobrinha, berinjela e cebola. Nesses momentos bate certa solidão, todos os seres carnívoros estão ao seu redor, parece que todo mundo antes do peito ou da mamadeira chorou por uma bela carne ao ponto. Depois de deixar a namorada na casa dela, foi para o mercado comprar algumas hortaliças, queijo, passeou pelas prateleiras naturebas, coisas caras muito caras, tinha que entrar no Google para encontrar uma alternativa que não salgasse tanto no bolso, perambulou pelo lugar como aquele povo de cidade pequena passeia pela praça da igreja no sábado de noite, comprou pão integral, queijo fresco, sempre achou um horror esse negócio de pão integral na chapa com queijo fresco, dane-se pensou enquanto a operadora do caixa passava aquelas coisas olhando para ele, sentia certa censura naquele olhar,pagou, partiu. Sábado, noite fresca, pensava em comprar um cachorro, hábitos novos, no domingo futebol na casa do cunhado, carne, muita carne, um frango seria legal, um peixe talvez, caramba que dificuldade pensou, entrou na 23 de maio, avenida vazia, parecia feriado, de repente freou bruscamente, quase matou o pobre animal, colisão na traseira, nada muito sério, um cidadão exaltado veio interpelá-lo, ele abriu a porta do veículo ignorando os palavrões do sujeito um tanto ubriaco, foi em direção ao pobre animal assustado olhando para ele, era um porco, pegou o animal como se fosse um gato e o colocou no banco de trás, disse para o individuo se acalmar, não o porco, mas aquele que bateu na traseira, pediu que ligasse na segunda, acionou o carro, olhou pelo retrovisor para o porco sentindo-se feliz, o porco não, ele, é certo que o quadrúpede estava atônito com tudo aquilo, dia seguinte antes de entrar no Google deu com uma informação no site Terra, Vegetariano adota porco perdido na 23.Foto: Bia Lopes em Flickr

Esperança

15892I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir. Eram gritos horripilantes, pareciam uivos de animal a beira da morte, testemunhou um vizinho. A rua estava cheia pra ver. Dois homens saíram de dentro carregando a maca. Marcas de arranhões por todo o corpo.

– O melhor plano de saúde é viver. 

O segundo melhor é Unimed.

Gritava. Debatia-se. Convulsionava. Os mais atentos juravam que entre um espasmo e outro podiam ouvir uma canção de letra ininteligível, porém cadenciada, que saia da boca babada da criatura na maca. A melodia, porém, podia ser facilmente reconhecida por qualquer um. Um jingle. Era isso. Não restava dúvidas de que aquelas notas compassadas eram de um hipnótico jingle publicitário.

II.

Tudo começou com a carta e isso faz muito tempo. O apresentador do programa televisivo a convenceu. Ele olhava tão profundamente em seus olhos e falava tão aos seus ouvidos, que ela ficaria até constrangida em lhe dizer não. Há muito que não lhe tratavam com tamanha intimidade e simpatia. Respondeu-lhe num sussurro que esperasse um segundo, que só se ausentaria para buscar logo ali caneta e papel. Gentil como ele só, passou a resolver ali no palco algumas amenidades, com o objetivo claro de matar o tempo e esperá-la. No intervalo de um suspiro, ela voltou. Anotou tudo, de modo quase mecânico. Amanhã mesmo a carta estaria nos correios.

– Colorado RQ – imagem e som de presença total 

com Reserva de Qualidade

III.

O único inconveniente era que não sabia exatamente o que pedir. Olhou ao redor e constatou que não precisava de nada. Vivia só e feliz desde a morte do marido e nunca foi mulher de grandes extravagâncias. O televisor tinha sido quase uma exigência da filha para que não se sentisse tão sozinha. Até então nunca tinha dado importância a essas tecnologias da moda. Pediria algo para os netos. Sim, para o par de netos recém-nascidos. Gêmeos. Que ótima ideia! Podia antegozar o momento em que o apresentador com aquela voz profundamente aveludada sortearia sua carta, entre aquelas milhares de cartas, e falaria seu nome e sobrenome para todo o país. Podia antegozar o momento em que ela seria chamada ao palco, profundamente bem iluminado, e veria surgir emocionada, de todos os cantos do estúdio, caixas e mais caixas de brinquedos, peças e mais peças de roupas, dos mais variados tipos de roupas, além do elegante mobiliário infantil que certamente viria a seguir. Como os netos ficariam felizes! Podia antegozar o sorriso de inveja das vizinhas, diante de tanta elegância que ela certamente demonstraria na tevê, ao lado daquele apresentador tão bem apessoado. Teria apenas, é claro, que passar a acompanhar aquele programa todos dias, não queria correr o risco de deixar passar aquela oportunidade por um mero descuido.

– Não adianta bater que eu não deixo você entrar,

 nas Lojas Pernambucanas você vai aquecer o seu lar!

IV.

Estava cumprindo suas promessas com diligência. Depositara a carta na manhã seguinte e no mesmo dia, pelo fim da tarde, deu inicio à sua rotina diária. 

– Lojas Cem: felicidade encontra também! 

Ainda bem que tem Lojas Cem!

V.

Ela estava convicta: Mariano devia morrer. Trair a esposa com a amiga do casal tinha sido demais. E os filhos, meu Deus? A menina dedicava profunda devoção ao pai e agora sofria este trauma! E o que faria Mercedes com a morte tão prematura de Emanuel? O acidente, aquele maldito acidente, tinha que acontecer justo agora em que ela descobrira que estava grávida? Próximo capítulo-próximo capítulo-próximo capítulo! Como eles querem que a gente aguente até o próximo capítulo?

– Guarde o nome, não se engane:

Groselha vitaminada Milani! 

Também com sabor morango e framboesa!

VI.

Aquilo estava demorando demais: a carta já tinha sido enviada há mais de um mês e nada dela ser sorteada, mas não perderia as esperanças. Por nada no mundo deixaria de acompanhar todos os dias aquele espetáculo de luzes e cores e sorrisos. O bom é que logo depois começava a novela das seis, uma ótima distração para se manter bem desperta até a hora de dormir. Tinha dias em que o capítulo estava tão empolgante, que não ousava se levantar para preparar o jantar. Jamais. Poderia perder momentos decisivos se cometesse uma tolice dessas. 

– Compre Baton, o seu filho merece Baton!

VII.

A era das compras começou um pouco depois disso. Era incrível o poder daqueles espremedores e batedeiras e misturadores e torradeiras. Como facilitavam a vida aqueles acendedores e fritadeiras e amaciadores e furadeiras. A apresentadora do Show da Tarde, tão distinta, tão moderna, tão inteligente, tinha a alertado para a necessidade de se adquirir aqueles maravilhosos eletrodomésticos, supra-sumo da modernidade vigente. 

– Pensou eletrodomésticos, lembrou Arapuã.

– Arapuã: ligadona em você!

E como se facilitava-parcelava-predatava. Os-dez-primeiros-que-ligarem-ainda-ganham-um-brinde. Era tudo realmente muito exclusivo! E agora que os netos já ganhariam o deles no Show de Prêmios podia aproveitar a aposentadoria e se presentear, por que não? Ela merecia! Foi quando as caixas começaram a chegar, uma-duas-três por mês, e era um tal de vizinho aparecendo na janela pra ver. Ver e babar, se envenenar de tanta inveja. Que delicia! E nem havia mais tanto espaço assim para guardar tudo aquilo, toda aquela modernidade exuberante. Paciência. Isso se resolveria depois. No Show da Manhã sempre havia um especialista em domesticidades que a ajudaria com esta questão menor. Uma pena que não soubesse usar nada daquilo. Mas havia de aprender. E como havia! 

– Instituto Universal Brasileiro:

Quem quer, consegue!

VIII.

Um ano e nada. Mandaria mais cartas. Umas quinze, vinte talvez. Aproveitou a data e foi naquela tarde mesmo aos correios. Voltou a tempo de acompanhar o sorteio daquele dia. Não foi dessa vez.

– Café Seleto tem sabor delicioso!

Cafezinho gostoso é o Café Seleto!

IX. 

Foi então que vieram os instaladores. Uma gangue de salteadores e estupradores e contrabandistas e malfeitores estavam dominando a cidade. Ela viu no Show de Horrores – edição da manhã e ficou estupefata, realmente alarmada. Não falou disso com os vizinhos, porque àquela altura já não conhecia mais nenhum. Precisava ficar atenta às noticias, às novidades, às variedades e não poderia perder tempo com trivialidades entre vizinhos. Contratou os instaladores. 

– Intelbras: seu patrimônio cercado de segurança!

Era até bonito de ver a exuberante cerca elétrica serpentando altiva ao redor de toda sua residência. E como eram fascinantes as câmeras de segurança. Instalaram quatro. Uma em cada canto do portão de entrada e também nos fundos. Agora tinha um canal em seu aparelho televisor dedicado apenas à transmissão dessas imagens. Como se sentia protegida! O bom era que nem precisava mais sair de casa para ver a rua, podia fazer isso do conforto de seu sofá, sem nem mesmo mexer os pés. 

– Eu quero imagens! Cadê as imagens?

– Bandido bom é bandido morto!

– Porrada nele! Porrada nele! Porrada nele!

X. 

O nome de hoje até parecia com o seu. A respiração ficou suspensa até o último sobrenome. Mas era outra a maldita pessoa da carta. Uma viagem pra Disney, uma maldita viagem pra Disney era sorteada e seus míseros chocalhos e carrinhos de bebê não. Cinco anos de espera. Ao menos a programação era bastante atraente e ela podia se distrair bem enquanto esperava.

– Atenção agora para o resultado parcial da

Tele-Sena de Páscoa: zero-um, zero-sete,

 treze, vinte e nove, trinta e dois e quarenta e cinco!

XI.

O apresentador do programa de variedades anunciou que o galã coadjuvante da novela das sete estava tendo um caso com a protagonista da novela das oito que era casada com o vilão da novela das seis que transava com o apresentador do programa de variedades que jurava até a morte que nem tinha entrado na história.

– Quem bebe Sukita não engole qualquer coisa!


XII.

Há anos que não recebia uma visita. A última tinha sido justamente a dos netos gêmeos, que há muito não cabiam em carrinhos de bebê e que não precisavam mais de chocalhos e ursinhos de pelúcia.  Ela não os deu muita atenção, é verdade. Nem percebeu quando eles saíram, atabalhoados, tropeçando em uma pilha de caixas de eletrodomésticos que nunca tinham sido abertas. Nada mais compreensível: estava muito ocupada, afinal, com os olhos vidrados e os ouvidos atentos no apresentador de voz decrépita e cabelos pateticamente grisalhos, que tinha a constrangedora mania de nunca pronunciar seu nome. 

– Lojas Marabraz: preço menor ninguém faz!

– Visa: onde você quiser estar!

– Heinz: ninguém faz melhor que Heinz!

XIII

Foi então que deram a noticia fatal – Doriana – Devido a problemas internos, – Coca Cola – Nestlé –  acarretados pela grande crise econômica pela qual passava o país – Havaianas – Mc Donalds – Folha de S. Paulo – tornava-se impossível à emissora – Nutella – Avon – Casas Bahia – Honda Civic – continuar com o tradicionalíssimo Show de Prêmios – Jequiti, jequiti, jequiti, jequiti…

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I.

A ambulância chegou apenas pela manhã. Os gritos. Vieram pelos gritos. Mais de um vizinho alertou o Serviço de Emergência durante a noite. Não se podia dormir.

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Crédito da imagem:

Edvard Munch, litografia “O grito” (1900)

A gente se vê

Ela é tão linda, pode acreditar nessa fita que te digo agora sem compromisso nenhum, no fundo você não tem nada a ver com isso, nem expectora esse ambiente, ela despertando cheiro de hortelã coisa de amor que suporta qualquer odor, esse sentimento que carrega o desjejum para a cama, destila a manhã e puta papinho brega né não? o lance é que com tantos atributos ela não saca nada de Gal Costa, cara, isso é o fim podes crer assim como acreditar que ainda existe uma saída para esta canalha que impera o Congresso, viva o Barão de Itararé de que esse mundo é redondo mas tá ficando chato, sei lá não sei, sexo é vida e coisa e tal mas nem com a bandeira do MENGÃO na parede do quarto dá para suportar não curtir FA-TAL, é coisa da maior importância estar fora de casa e não ter compromisso em desplugar o MP3, bater pé, partir, deixando debaixo do  abajur um poema de adeus, porra, devia ter usado carbono afinal, o texto estava até bom, acho que ela não vai sacar essa partida por causa de Maria da Graça, querubim, marfim, na escola namorei uma Graça, sempre fui de poucos amores, tinha olhos lindos ela, era cheirosa e tivemos uma parada meteórica, curtimos cinema, nos amassamos no vão livre  da MASP, tremenda arquitetura, tudo era lindo, tinha inflação, a gente podia deitar o cabelo em qualquer canto, eu era hippie, ela não, queria futuro decente ainda sem concluir o colegial, era assim naquela época, o ensino era um pouco melhor, me trocou por um acara que tinha carro, uma máquina, ela foi, fiquei numa boa escutando Pink Floyd, teve um dia que até chorei mas, saquei que a solidão é boa, melhor sozinho vez em quando, estou de novo nessa de fazer a minha estrada, a filha está no  Japão ganhando uns trocados, me manda algum, as sobras me interessam, sempre gostei de reciclar manja?, a ex-mulher se casou com um cara que toca pandeiro no bar do Alemão, vou lá vez em quando ver o sorriso dela, ainda está límpido, impávido e no fundo bem no fundo paga uma rodada de cachaça e por dentro ri da minha cara, tudo bem não faz mal, se não preciso de muito dinheiro graças a deus, ainda gosto de caminhar pela avenida alimentando o colesterol do bem, hoje é domingo, dia de não se fazer nada, abrir a casa, deixar o sol entrar, esquecer de Luli que ainda não deve ter lido o que escrevi, deve achar que é um recado de que fui ao mercado, nunca lê o que eu escrevo melhor assim, vai ficar na espera do almoço, tem uma Baden guardado, vou chamar o Tibiu e o Ronaldo para uns tragos, uma massa, encher de aroma o quintal num dolce far niente colossal, a gente se vê em páginas futuras mas, se quiser pode aparecer ainda moro no mesmo lugar, evoé.

Dossiê Marco – Operação Saideira

marco

DO DIÁRIO DE MARCO, 15 DE JULHO DE 2013

Todas as escolhas que já fiz na vida combinam perfeitamente bem com cerveja. E com maconha também, é verdade, mas vou me ater à cerveja. Se eu fosse boêmio ou minimamente conseguisse tomar álcool sem ter a sensação de que estou tomando um remédio, e veja bem, não qualquer remédio, mas um remédio amargo, desses que a gente só toma quando é estritamente necessário, eu ia achar isso muito bom, realmente muito vantajoso. Mas não. Absolutamente não é assim. Eu preciso confessar, e minha crescente covardia só me permite fazê-lo aqui, que é absolutamente penoso para mim engolir um copo de cerveja e, se o faço – e sim, o faço – é apenas porque quero ser sociável, quero ter amigos, ser aceito num desses grupos de valdevinos que escolhi pra mim.


DA AGENDA DO CELULAR DE MARCO, SEMANA DE 14 A 20 DE JULHO DE 2013

  • dom_14:

14:00 – Encontro com o grupo de teatro (levar as coisas do Chico)

17:00 – Niver do Tuco no Bar da Ieda

  • qua_17:

21:00 – Futebol na TV (comprar comida)

  • qui_18:

19:00 – Oficina de escrita criativa (fazer o exercício do Caetano)

21:00 – Leitura de poemas no Bar do Tim

  • sáb_20:

11:00 – Oficina de escrita criativa

14:00 – Sarau

21:00 – Niver da Cecilia no Bar da Glória


DO DIÁRIO DE MARCO, 18 DE JULHO DE 2013

Acho que começo a perceber alguns padrões nos hábitos de meus amigos. Digo de meus amigos, mas talvez isso possa se estender a qualquer tomador de cerveja. Quando alguém te convida para assistir a uma partida de futebol, porque sim, esta pessoa é sua amiga e sabe que você gosta de futebol, na verdade esta pessoa está te convidando para tomar cerveja e para fumar maconha – mas vou me ater à cerveja, acho que já disse isso antes. Quando você chegar ao local combinado, todos estarão paramentados, é verdade, com a camisa de seus times de coração e você ficará empolgado com isso. Valeu a pena ter deixado o conforto de seu sofá para ver o jogo com pessoas tão animadas, com verdadeiros torcedores. Mas quando estiver chegando a hora do jogo e você ficar ansioso com a proximidade da peleja – afinal, você ingenuamente pensa que está ali para ver a uma partida de futebol – os torcedores já estarão tão animados consigo mesmos e com todos os preparativos que envolvem a partida, que provavelmente se esquecerão de ligar a tevê. Você, que gosta de futebol e que está ali para ver futebol e que até já tinha se programado todo para ver a partida no conforto de seu lar, provavelmente se sentirá constrangido em atrapalhar toda aquela alegria, em ser o único preocupado com uma coisa tão menos importante como uma partida de futebol. Provavelmente encherá seu copo e se unirá a turba de torcedores elevados, que não precisam de uma partida para torcer. Negará até a morte que você não está imensamente feliz com toda aquela patuscada, mas ficará atento a cada mínimo sinal de fogos que venha do vizinho – e como você ficaria feliz em ser amigo do vizinho nessas horas. É verdade que tudo pode ocorrer de uma forma um pouco menos drástica. Sempre pode haver um tio que se lembrará de ligar a tevê. Mas você pode ter certeza de que ela será uma tevê de tubo, de catorze polegadas, cheia de chuviscos – minorados talvez pelo chumaço de bom bril xuxado em cada haste de uma antena piramidal – e que provavelmente ficará lá esquecida em algum canto, longe o suficiente para que seu constrangimento e seu incorrigível senso de sociabilidade permita que você se aproxime.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 14 DE AGOSTO DE 2013

Eu juro que já tentei de tudo, doutora, mas a verdade é que não consigo me envolver com outro tipo de gente, com gente mais Fanta Uva, se é que a senhora me entende. Me chame de preconceituoso, doutora, mas ou você bebe Fanta Uva ou você é legal. Eu sou uma completa aberração. Alguma coisa certamente deu errado em algum ponto de minha formação. Eu bebo Fanta Uva E sou legal. Ao menos é assim que eu me vejo. Jamais, doutora. Ninguém jamais pode saber que eu faço isso e espero que a senhora mantenha essa informação no mais absoluto sigilo. Estou certo que o fará. Se não posso confiar numa doutora, em quem poderei confiar, não é mesmo? Faço tudo escondido, na calada da noite, bem longe dos meus amigos. E que delícia que é botar aquele treco roxo na boca, a sensação inebriante daquelas bolinhas descendo goela a baixo. A senhora toma Fanta Uva, doutora? Bom, não importa, mas estou certo de que não toma. Logo se nota de que a senhora é uma pessoa agradável. Esses dias li uma reportagem alertando para o risco de se ter câncer ao se consumir Fanta Uva. O cara que disse isso só pode ser do tipo que toma Fanta Uva, gente chata pra caralho. Eu nunca consegui me envolver com esse tipo de gente. Veja bem, na escola eu até tentei e era confortável. A gente se reunia e podia tomar nossa Fanta Uva a vontade, sem ter que esconder isso de ninguém, mas e depois, doutora? Depois era cada um pra sua casa antes das oito. Não haviam as gargalhadas espalhafatosas, as promessas de amizade eterna, as conversas desinteressadas entrando pela madrugada. Nada, doutora, nada disso combina com Fanta Uva. Tudo isso combina com aquela bebida amarga que eu me esforço tanto para tomar. Não se pode ter tudo, não é mesmo, doutora? Ou será que pode, doutora? Algum desses livros aí atrás da senhora diz que pode, doutora? Eu preciso de ajuda, poxa!


LISTA DE COMPRAS ENCONTRADA NA POCHETE DE MARCO EM 12 DE SETEMBRO DE 2013

  • 3 pães
  • 100 gramas de mortadela
  • pipoca para microondas (bacon, se não tiver, provolone)
  • 1 pote de Nutella
  • macarrão
  • Toddynho (a embalagem com 3 da promoção)
  • 2 litros de Fanta Uva
  • 1 caixa de bom bom (daquela que vem com o Sensação)
  • papel higiênico (pacote com 8)

DO DIÁRIO DE MARCO, 23 DE SETEMBRO DE 2013

Voltemos aos padrões de comportamento. Acho que estou ficando perito nisso, um antropólogo dos botequins. Mas nem é preciso tanto para perceber que um copo de cerveja sempre precisa estar cheio, copos vazios ou meio vazios (neste mundo não há copos meio cheios) são considerados verdadeiros disparates, um desrespeito ao grupo. É dever de todos ficar atento para que nenhum copo na roda esteja vazio. Ao menor sinal de escassez deve-se imediatamente pegar a garrafa mais próxima e proceder pelo preenchimento de todos os copos do grupo. Encher apenas o próprio copo e devolver a garrafa à mesa é a pior infâmia que se pode cometer. Negar que alguém complete seu copo vazio, a segunda pior. Amizades antigas terminam por coisas assim. Por isso, e admito que sou bastante ingênuo por só perceber isso agora, uma estratégia óbvia para não ter que beber doses insuportáveis de cerveja é manter o máximo de tempo possível o copo cheio. Nada de bancar o boêmio e descer tudo de uma vez. Não. Isso só fará com que alguma alma pretensiosamente caridosa encha meu copo imediatamente e eu tenha mais uma sessão de tortura pela frente (veja bem, ninguém faz isso com qualquer outra coisa. Ninguém vê seu pão na chapa pela metade e pede ao chapeiro pra já ir descendo outro pra você. Absolutamente, não. Isso só funciona com cerveja e com outras dessas coisas amargas). Então, devo bebericar aos poucos e até mesmo fingir uns goles. Ser o cara que serve a cerveja nos copos também me rende muitos pontos e ajuda a disfarçar minha artimanha.


DO DIÁRIO DE MARCO, 24 DE SETEMBRO DE 2013

Começo a me arrepender do que escrevi ontem (será que é isso que chamam de ressaca moral?). Ser o único sóbrio num antro de ébrios (e dissimular isso, santo Deus) não seria, no mínimo, desonesto?


DO DIÁRIO DE MARCO, 01 DE OUTUBRO DE 2013

Preciso parar com essa história de tomar suco em público. Ontem quase aconteceu o pior. A Simone almoçava na padaria e quase me pegou com a boca no canudo. Ia ser uma lástima.  Cobri a cena bem em tempo com o Jornal do Metrô.


DO DIÁRIO DE MARCO, 05 DE OUTUBRO DE 2013

Acho que ontem passei dos limites. Jogar cerveja fora escondido é um pouco demais. Até mesmo pra mim.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 07 DE OUTUBRO DE 2013

Chega uma hora nessa vida, doutora, que temos que tomar uma decisão, temos que mostrar, afinal, quem somos, pra que viemos, o que queremos nesse mundo. A senhora pediu e aqui estou eu, finalmente resoluto, por mais difícil e improvável que esta decisão seja, mas decido agora o que já não posso mais tardar: vou começar a beber! Pois posso repetir, caso a senhora não tenha entendido, caso o nervoso tenha embargado minha voz: vou começar a beber! Não, não desse modo vergonhoso como bebo hoje, quero ser um bebedor de verdade, como meus amigos, sim, quero ser como eles! Não, não acho que me diminuo com isso. Longe disso. Se escolhi segui-los, preciso do pacote todo. Não há como ser boêmio sem a boemia. Me entrego. Rirei com eles das piadas ébrias e dançarei nu se preciso for, só não quero mais manter-me sóbrio. Será que consigo, doutora? Estou delirando?


DO DIÁRIO DE MARCO, 12 DE OUTUBRO DE 2013

O orgulho transborda em mim. Ontem consegui tomar dois copos cheios. Sigamos. Um dia de cada vez.


DO DIÁRIO DE MARCO, 19 DE OUTUBRO DE 2013

Dois copos de novo. Sem avanços. Sem retrocessos. Um pequeno progresso, na verdade: emiti dois comentários minimamente razoáveis e convincentes sobre a superioridade das cervejas artesanais em relação às industrializadas. Obtive olhares respeitosos. Pesquisei na internet.


DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 23 DE OUTUBRO DE 2013

Tenho me esforçado muito, doutora. Acho que não tenho motivos para envergonhá-la. Esses nossos encontros têm sido realmente decisivos. Confesso que no começo achava tudo isso uma grande perda de tempo, quase uma charlatanice. Desculpe, doutora, se não confiei na senhora, mas acho que aqui posso falar a verdade, não posso? Bom, deixa pra lá. Mas o fato é que depois que passei a encarar a cerveja não mais como uma simples bebida, como algo que servisse apenas para me matar a sede, mas como a chave de um portal que me transportasse para um outro estado de espírito, como uma poção mágica que me desse acesso ao lado mais obscuro das pessoas que quero perto de mim, ah, doutora, quando passei a ter essa perspectiva das coisas, tudo ficou bem mais fácil. Afinal, poções mágicas não precisam ser docinhas, não é mesmo, doutora? Pelo contrário, se quero passar para uma outra dimensão, para um outro estágio de existência, tenho que ser submetido a um rito de passagem e ritos de passagem precisam ser bastante dolorosos, não é mesmo, doutora? Diga que sim, doutora! Por favor! Diga alguma coisa doutora, veja bem, qualquer coisa, doutora! Eu não estou indo bem? Estou, não estou?


DO DIÁRIO DE MARCO, 02 DE NOVEMBRO DE 2013

Amanhã… ah, amanhã! Aniversário do Wagner no Isca Bar. Acho que chegou a hora de queimar umas etapas.


DO DIÁRIO DE MARCO, 03 DE NOVEMBRO DE 2013

É hoje!


DESCRIÇÃO DA CÂMERA DE SEGURANÇA DO ESTABELECIMENTO “ISCA BAR” NA NOITE DE 03 DE NOVEMBRO DE 2013, FEITA PELA PERITA DRA. CAROLINA DO VAL

O investigado chega ao estabelecimento de nome “Isca Bar” por volta das 20h45. Está sozinho. Traja camisa polo branca, calça jeans e pochete. Encontra duas pessoas numa das mesas da calçadas e as cumprimenta. Aparenta estar sóbrio e com perfeito controle de suas ações. O investigado se senta junto às duas pessoas. Ato contínuo, o garçom aparece com um copo americano e enche seu copo de cerveja. O investigado sorri com discrição ao garçom e quando este sai, propõe um brinde. Todos riem e bebem juntos. O investigado esvazia seu copo em duas grandes investidas. Um pouco antes das 21h mais duas pessoas se unem ao grupo. O garçom é solicitado novamente. Chegam mais garrafas à mesa. O copo do investigado é enchido mais uma vez. Risadas. Após três investidas, o copo do investigado fica vazio. A pessoa que chegou por último, uma mulher, imediatamente enche o copo do investigado. Ele diz algo e todos riem. Ele ri muito. Dá uma primeira investida no copo e começa a tamborilar os dedos na mesa. Parece inquieto. Um segundo gole. Alguém diz algo e o investigado bate com a palma da mão na mesa e ri alto. Desta vez, ninguém o acompanha no gesto. Por volta das 22h, mais alguém chega à mesa. O investigado completa o terceiro copo. Olha para os lados. Parece muito inquieto. Segue tamborilando os dedos e passa a também a bater a perna direita no chão. Com um gesto, chama o garçom e solicita mais garrafas. Emite um comentário. Aparentemente só ele ri. O garçom chega com as cervejas. O investigado pega uma das garrafas e começa a encher todos os copos da mesa, aparentemente proferindo comentários chistosos a cada um. Alguns lhe sorriem de volta. Alguns parecem se incomodar. Enche seu próprio copo, deixando cair boa parte do conteúdo no chão. O investigado passa a dançar de forma descompassada com o copo na mão. O investigado ri de modo espalhafatoso. Duas das pessoas mais próximas se afastam do investigado com olhares aparentemente assustados. O investigado tira a pochete e a atira na mesa. Segue dançando sozinho com o copo nas mãos. São 22h30 quando ele termina o quarto copo. Todos estão de pé. O quinto copo é enchido. Um gole. O investigado fica em silêncio. O investigado vomita. O investigado desmaia. São 23h12 quando chega a ambulância.


DO ATESTADO DE ÓBITO DE MARCO EMITIDO PELA MÉDICA LEGISTA DRA. THAIS ROCHA, EM 04 DE NOVEMBRO DE 2013

Coma alcoólico diagnosticado às 0h12. O falecido era solteiro e não deixa herdeiros.

Gira-gira-pirilampo

O sangue escorre em grito mudo. Desfeito o coágulo, vaza o medo. Dispo a mancha, esparadrapo o peito, costuro o sorriso. Você corre e me acalma.

Passou. A voz ecoa longe, sem agudos. Eu sei, volta à noite, mas agora estamos sós. Dedos que zunem inventando histórias. Pés que giram, sobem nas pontas, se lançam ao ar. Sons desafinados de vontade.

Logo me torno escuro que não se importa, mas ainda enxergo. Dói não ver seu caminho. O absurdo do dia em que não estremeço com seu choro. O fio desatado, o nó esquecido. Você solto na claridade. Gira-gira-pirilampo-olha-a-luz-vai-se-queimar. E eu sem cabelos para afagar, sem perguntas desnudas. Sem nem chorar distâncias. Se faltam braços, falta tato para sentir ausência. Percebe a atrocidade?

Não quero que perceba. Menino que acredita em estrela ganha um ponto no céu. Para olhar, zelar, bisbilhotar, culpar. Você vai me odiar, um dia.

Estrela não abraça.

A serenidade de folha ao vento não é entrega, é apego. Aparece em mim, mas vem de você. Porque é na falta de continuidade que o egoísmo berra. Nesse mundo que orbita em torno do meu umbigo (o único que existe), você completa o vácuo. Fé pega, ou esfarelamos.

Não se zangue quando ele esvaziar meu armário. O que vivemos, sopro.

As roupas agora já me são estranhas. Nelas vejo olhos, mãos, o problema do que fazer com panos e couros e traças que esfriam de sentido e de mim. Acúmulos de vida e pó, a mesma massa. O chapéu desbeiçado de bons dias, o vestido de flores em tentativa de voltar os anos e agora transparente de descabimento. Sapatos feitos para andar.

De caixas abertas brotam suvenires de viagens apagadas. Pegue o que agradar, recorte e cole, distribua, venda sobras. Lembre-se: capim-cidreira em sachê perfuma e afasta insetos, depois mofa; o pequeno quadro da menina com o coelho passa de geração em geração sem dizer nada; já não se usam marfins, e paquidermes agradecem.

Não estranhe. Acenda a luz. Gire, por favor.

Foto: Bia Lopes em Flickr

(Foto: Bia Lopes em https://flic.kr/p/oMBhc)

Marcas na estrada

leila

m a r c a s n a e s t r a d a m a r c a s n a

Nuca na nuca na nu… palavra pontuda penetrou meus tímpanos, entrou fundo e revolveu a região das lembranças. A primeira vem lá dos anos 80. O repórter gritava na radio Capital: foi na nuca… na-nuca onde o tiro certeiro sem misericórdia de covardes sanguinários atingiu o caminhoneiro só para roubar a carga que ele levava mataram o homem, mataram, atiraram, atiraram seu corpo no barranco. O radialista falava de crimes e mortes às dúzias todas as manhãs, repetia altíssono as palavras como se fosse palhaço dirigindo espetáculos no circo. Soube então que os policiais encontraram meu pai orientando-se pelas marcas vermelhas impressas na faixa branca da margem da estrada.

De repente o fio da memória esticou-se bem lá para trás. A linha branca no asfalto remeteu-me às conversas animadas com meu pai quando viajávamos em férias para a Bahia na boleia do mercedão laranja. Na minha criancice dos 10 anos, via papai todo sabido, confiante e orgulhoso, especialmente quando se punha a nos falar das coisas misteriosas que aconteciam nas estradas de noite. Era impressionante sua paciência e gosto de nos contar histórias e explicar tintim por tintim quando estava abraçado ao enorme volante guiando o caminhão. Coisa difícil de viver lá em casa. Certa vez, viajando naquelas horas que a gente não sabe se é dia ou noite, e que já não se enxerga bem as coisas, perguntei-lhe: pai porque tem essa linha branca aqui do meu lado no chão. Pra orientar o motorista de noite, olha lá do outro lado da linha não tem mais asfalto e, no escuro, se o motorista não tiver a linha branca para se guiar pode jogar o caminhão no barranco. Fiquei com olho fixo naqueles traços brancos. Quanto mais o caminhão corria mais os traços se alongavam até virar linha, o caminhão diminuía a velocidade a linha voltava a virar traços. Como que hipnotizada, olhar grudado na linha, confiava no meu pai, vendo que as rodas do caminhão corriam sempre ali do ladinho dela.

Já adulta, sabendo dirigir na estrada escura, o que não sabia era me guiar na vida que escurecera de repente com o desaparecimento sinistro de meu pai. Percorrendo de carro a mesma BR 116 Rio Bahia, com minha mãe e irmãos, em sua procura, mostrávamos e pregávamos sua foto nos restaurantes, postos rodoviários, delegacias, hospitais, borracharias, mecânicos, corpo de bombeiro e tudo quando era ponto que pudesse ter visto caminhoneiros. Ativada por aquele tipo de coragem que nos põe em movimento em situação de desespero, orientava-me agora olhando a linha branca na escuridão do asfalto e do espírito.

O tempo fez seu trabalho de esmaecer a memória e com ela a dor aguda, mas a linha branca continua nítida dentro de mim. Nos dias difíceis da vida, tenho um tipo de sonho que se repete com pequenas variações. Em alguns fico cega de repente guiando na estrada, em outros perco a direção do carro, em outros estou andando na escuridão sem conseguir enxergar um palmo à frente do nariz. O final é sempre o mesmo: fixo os olhos no asfalto escuro à procura da linha branca que me dê orientação e alívio.

Leila Bomfim

 

Putz!

Na sonolência fui atender estridente obsoleto aparelho, que só está ali para diminuir o preço do combo, as coisas ultimamente tem que ser feitas desse jeito mas, o produto final é  lixo que não se recicla. Devia ser engano pensei, não era, também não se tratava de voz conhecida, Dejanira, psicóloga me disse, confesso que a fala dela puro veludo foi alento sol na manhã cinza. Sei que a vida não tá Freud prá ninguém, já cortaram o bolo da tarde na repartição, no que posso ajudar pessoa que estudou Lacan? Disse que minhas frases de efeito do tipo, tá no inferno abraça o diabo ou faz um lanchinho com toda viadagem, tira o miolo, e manda um mineiro quente com orégano e tomate, faziam com que seu paciente Ivan saísse da melancolia e desse umas gargalhadas. Nem preguntei quem era o dito cujo, logo me lembrei do poeta do guichê trinta e seis. Eu referência? fim dos tempos enfim, no que podia ajudar? Ela queria um lero qualquer (eficiente a moça pensei), quem sabe uma caipirinha? De pronto aceitei. Queria ver se de repente rolava uma parada Reicheana. Combinamos um butuiquim próximo ao trabalho. Trocamos algumas informações de como estaríamos vestidos para facilitar a coisa. Despertado daquele jeito, não era pedido de doação, nem Moacyr Franco vendendo ginkgo biloba, banho e pé na estrada.

Cheguei antes que ela, fiquei imaginando como seria a figura, tantos grilos de cucas alheias (desculpe, quando me empolgo utilizo gírias do passado), teria um batom ao menos nos lábios? Quando ela chegou já bateu um Reich em mim, como que diante daquela beldade, o fulano da cabine 36 podia falar das baboseiras que digo, algumas que nem me lembro, como as que ela relatou pela manhã? Não queria que tivéssemos um papo candinha ( tipo fofoqueira), só sabia do cara que ele escrevia e um dia pensou em usar batina. Com toda a habilidade barista, papinho furado, chopinho, petiscos, foi se soltando, falou do método que utilizava, que não escarafuncha o passado do paciente, o nome do psicanalista é parecido com o de uma cerveja preta artesanal, disse que fazia um bom tempo que pensava em fazer contato comigo, enquanto falava, só viajava no decote, nem ouvia direito. Piadinhas, outros traguinhos, a carne é fraca, em sua vida de análises, pessoa repleta de cultura, poucos caras vão se arriscar, assim fica a vida, não gira amor, ela estava naquela de dar dó, precisava de um ombro amigo, não era exatamente um amigo, um ogro, lobo babando, acabou topando conhecer o meu chatô. Tremendo frenesi, não sei se existe definição clínica para o que fizemos, tanto que a velhinha do 202 bateu no teto dela chão meu, não era qualquer batidinha que iria colocar fim naquela volúpia, até que de repente o que era bom chegou ao fim, aquele silêncio clássico no refrear da respiração, balões de pensamentos ocupando o espaço, foi aí que a porca torceu o rabo:

– Seu apartamento é bem organizado.

– Sempre gostei das coisas em seu devido lugar.

– Obrigada por não ter fumado, tenho renite, mas já tinha me preparado.

– Putz.

– Aconteceu alguma coisa?

– Você queria falar era com o Valmir

– Você me confirmou pelo telefone, no bar pintou uma química tão boa, que nem falamos os nossos nomes direito, como se a gente já se conhecesse.

– No sono confirmei, eu sou o Valdir, aluguei o apartamento dele tem seis meses.

Só para carecas

christophaigner

A primeira vez de Antônio foi numa loja de departamentos, numa dessas paredes espelhadas que utilizam para constranger más intenções. Antônio percorria as prateleiras a esmo, sem procurar nada específico, quando seu próprio reflexo o assustou. Faltava alguma coisa na imagem refletida no espelho. Aquele ali era certamente seu reflexo, mas faltava alguma coisa. Sim. E era no cabelo, percebeu confuso. Faltava-lhe o próprio cabelo. Não todo o cabelo, é verdade, mas sem dúvida um belo chumaço. Aquela parte de seu couro cabeludo não deveria estar assim tão a mostra, logo na frente. Sentiu-se como se, de repente, tivesse percebido a braguilha aberta. Sentiu-se nu, vergonhosamente nu. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém o observava, e rapidamente arrumou os fios com as mãos. Uma leve ajeitada e pronto. Lá estava seu cabelo no lugar de sempre. Um susto. Apenas um susto. Deve ter sido a luz, o ângulo ou até mesmo o espelho. Sim, era isso. Nunca acontecera aquilo no espelho de sua casa. Para economizar, as lojas compravam aqueles modelos vagabundos que deixavam algumas pessoas gordas e outras carecas. Carecas, não, despenteadas. Não queria nem pensar naquela palavra horrorosa, que não tinha e nunca teria nada a ver com ele. E ademais, Antônio tinha apenas vinte e três anos e nessa idade, qualquer ser minimamente dotado de inteligência sabe, ninguém no mundo fica careca.

Naquele dia, entretanto, Antônio saiu depressa da loja de departamentos e foi direto pra casa. Confiava que não havia nada de errado com ele, mas queria  ter certeza. Queria garantir que tudo não passara de um engano, de uma piada de mau gosto daquela loja mequetrefe, onde nunca deveria ter posto os pés. Entrou em casa esbaforido, sem nem olhar pro pai, que aquela hora ressonava no sofá da sala. Foi direto ao banheiro e colocou-se frente a frente ao espelho. Até aquele dia, tal objeto nunca representara nada de muito especial para Antônio. Era apenas mais um objeto como outro qualquer, uma interrupção reflexiva na sequência de azulejos coloridos. Os cabelos encaracolados nunca exigiram de Antônio grandes cuidados. Apenas os lavava e vez ou outra aparava suas pontas. Jamais os penteava. E de fato isso não era necessário, já que era um cabelo que se moldava perfeitamente à cabeça de Antônio e se mantinha em sua forma angelical desde a hora em que o rapaz acordava. Uma passada de mão aqui e ali eram mais do que suficientes. Por isso tudo, Antônio jamais se detivera por muitos minutos diante de um espelho.

Daquela vez foi diferente. Daquele vez Antônio se postou diante do espelho como um pecador diante de Deus, no dia do juízo final. Depois de uma olhada geral, onde sem dúvida não se percebia nada de diferente, Antônio foi abaixando pouco a pouco a cabeça, deixando o couro cabeludo se revelar. Com as mãos, foi afastando um pouco os cachos para ver a tragédia em toda sua completude. Um choque. Como não havia percebido aquilo antes, afinal? A sinuosidade dos cabelos encaracolados decerto vinham disfarçando a triste realidade, mas um olhar mais detido, como o que ele dava agora, era suficiente para perceber a lacuna, a clareira, o verdadeiro descampado que havia em seu couro cabeludo pateticamente branco, visivelmente mais pálido do que o resto de seu corpo. Calvo. Vinte e três anos e calvo, ridiculamente calvo. Calvo como nunca fora seu pai, como os dois avôs também nunca tinham sido. É certo que deve ter herdado um gene maldito de algum antigo ancestral, de algum maldito bisavô careca, que a uma hora dessas refestelava-se de alegria no caixão ou no inferno, orgulhoso da herança que tinha deixado ao bisneto. Justo a Antônio, o rapaz metido a comediante que tanta troça fazia de gordos, baixinhos, e por que não, carecas.

Olhou-se de novo no espelho. Dessa vez sem abaixar tanto a cabeça e, para falar a verdade, olhando até um pouco pra cima. Viu que nem tudo estava perdido. Era só  um esboço de calvície ou nem mesmo isso. Talvez só uma queda repentina, fruto de uma má ingestão de cálcio. Sim, ele vira algo parecido na tevê. Tomaria mais leite e os fios voltariam a crescer. E, além do mais, bastava ajeitar os cachos com a ponta dos dedos, que a clareira era coberta sem grande prejuízo ao conjunto. Era só preciso tomar cuidado para ninguém reparar, teria que garantir que nada estivesse a mostra. Chapéu? Era o chá dos carecas, diria o velho Antônio. Não, ele nunca usou chapéus, lhe pinicavam, lhe incomodavam, lhe faziam suar. Não, não era agora que usaria. E se não conseguisse esconder, como explicaria calvície tão prematura? Não, não precisaria explicar nada. Ele tomaria o devido cuidado até que tudo voltasse ao normal.

Foi por essa época que Antônio deixou de olhar pra frente.

Só olhava pros lados. Até então nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de espelhos. Os vidros fumês das lojas, os insulfilmes dos carros, as poças de água na rua e, por que não, as lentes dos óculos de seus interlocutores. Com a tola impressão de que as pessoas não reparavam, Antônio parava em absolutamente toda e qualquer superfície minimamente reflexiva e conferia se não faltava nada em seu couro cabeludo. Quase sempre faltava. E Antônio, sempre olhando pros lados para garantir privacidade, alinhava com os dedos os fios revoltos que, acidentalmente, haviam se deslocado do lugar de origem. Era sua famosa ajeitada, quase um tique nervoso recém adquirido. E assim, nova questão logo lhe ocorreu, se por um lado tinha que evitar a todo custo que qualquer pessoa reparasse no ridículo roçado que tinha sido aberto em sua cabeça, por outro lado, e com importância análoga, tinha que cuidar para que as pessoas não notassem suas cada vez mais constantes ajeitadas nos cachos. Não queria ser visto nem como careca, nem como esquisito. Por isso, a precaução se redobrou, se valia dos espelhos, sim, ajeitava os cachos, sim, mas com parcimônia e sobretudo com muita discrição, olhando sempre pros lados antes de cada nova investida capilar. Com o tempo, Antônio tornou-se perito nisso, valendo-se de técnicas cada vez mais sofisticadas como o uso da função selfie de seu aparelho celular, quando podia olhar-se a vontade para aquela sua nova versão de espelho, enquanto qualquer passante apenas pensava que se tratava de um jovem fotógrafo interessado em registrar a cidade.

O problema mesmo era quando ventava. Quando ventava  era realmente desafiador. Quando ventava, Antônio virava um verdadeiro autômato.  Não havia espelho que desse conta. A coisa virou intuitiva. A cada rufada, uma ajeitada. A cada ajeitada, uma rufada. A mão indo e voltando para o topo da cabeça num intervalo de microssegundos. Um movimento ridiculamente compassado e mecânico. Antônio estava se tornando o pior tipo de careca, o careca não assumido, aquele que Antônio sempre gozou em suas piadas. Aquilo não podia ficar assim. E o pior. Era nítido que suas ajeitadas não estavam mais sendo assim tão eficientes. Agora elas precisavam ser mais demoradas e meticulosas, uma bagunçadinha rápida já não bastava. Se pegava emprestado os cabelos de trás para cobrir os da frente, era o cocoruto que ficava desprotegido. Se puxava os cabelos das laterais para acobertar o topo desnudo, ficava com uma aparência bizonhamente artificial, um falso moicano completamente alheio aos seus costumes. Aquilo estava ficando realmente incontrolável, cada vez mais indisfarçável.

E assim passaram-se alguns anos, dois ou três, e Antônio ia tentando se adaptar àquela vida. É certo que não do jeito que mais gostaria. Os relacionamentos humanos minguaram nesse período. A calvice havia se escancarado. Antônio foi se retraindo, saia pouco de casa (os bicos de tradução que arrumou naqueles anos foram fundamentais em sua nova fase reclusa) e era conhecido pelos poucos que ainda o viam pelo singelo apelido de Che. Isso porque, coisa fácil de se supor, Antônio se rendeu ao desconforto seguro e passou a ser visto apenas de boina na cabeça, o que era bastante inconveniente no verão tropical em que vivia. Só em casa que era diferente. Em casa estava numa posição mais segura, com um espelho privativo sempre à disposição e as boinas eram dispensáveis. Foi quando numa tarde, num momento de pura distração e descuido quase infantil, Antônio se abaixou para pegar algo no chão. A mãe estava perto e viu. E ao ver, falou. Antônio, você está ficando careca, meu filho. E voltou aos seus afazeres, deixando Antônio desconsertado. Aquilo o apunhalou. A mãe decerto era a primeira de muitas pessoas que passariam a reparar em seu infortúnio. Não tinha mais volta. Foi quando decidiu pedir ajuda.

(…)

Na sala de espera do dermatologista chinês, Antônio brincava de adivinhar  as mazelas de cada um dos pacientes ao seu redor. Aquilo o acalmava, paciente sem paciência que era. Espinha. Pereba. Pereba. Espinha. Calvície. Pereba. Sem dúvida espinha. Calvície. Sem dúvida pereba. Eram dois calvos fora ele. Ambos uns quinze anos mais velhos ou mais. O mais azarado era ele mesmo. Pelo menos não tinha mais espinhas. Deus me livre ficar que nem o sujeito que está lendo a Contigo logo ali. Aquilo o acalmava. Dois perebentos mais tarde, Antônio foi chamado. Pode entrar, senhor Antônio, a recepcionista assim o disse. Se-nhor. O chamaram de senhor. Nunca antes na vida o haviam chamado de senhor. Tudo culpa daquela legítima vereda exposta em sua cabeça. Maldita recepcionista. Maldito bisavô careca.

Nem bem entrou no consultório e alguma coisa naquele médico despertou sua atenção. O chinês era absolutamente careca, nem um fio de cabelo. Aquilo não tinha começado bem. Não houve, entretanto, tempo para grandes lamentações. Antes mesmo de Antônio se sentar, o doutor foi tirando uma folha timbrada de um bloco e escrevendo com letras miúdas, porém legíveis: alopécia androgenética. Todo seu infortúnio rapidamente reduzido a apenas duas palavras. Alopécia Androgenética. E o chinês não parava de falar, sem olhar para Antônio, ia dizendo tudo aquilo que ele precisava parar de comer, todos os shampoos que precisava evitar, as boinas que jamais poderia usar e sobretudo, o remédio que teria que tomar, um miligrama por dia, por todos os dias de sua vida, se não quisesse perder o resto que tinha e, quem sabe, se tudo desse certo, se as recomendações fossem seguidas a risca, quem sabe assim uns trinta ou quarenta por cento do que já foi perdido talvez pudessem ser recuperados. Finasterida. Era o nome do remédio. E sim, é claro, não há remédio sem efeitos colaterais. Diminuição da libido, disfunção erétil e diminuição do volume ejaculado, estava lá escrito na bula, Antônio pôde conferir nela as palavras do doutor. Um cabeludo brocha, este era o futuro de Antônio.

Foi por essa época que Antônio voltou a olhar pra frente.

E tudo aconteceu logo após sua ida ao médico. Antônio saiu do consultório sem ter pronunciado uma palavra, já que o doutor careca jamais lhe deu a vez. Mal carimbou a receita e já foi chamando o próximo. Outro careca. Outro brocha que nem ele, coitado, logo ia descobrir. Antônio saiu triste, derrotado, guardou a boina na mochila e saiu pela rua com a cabeça desnuda. Era a primeira vez depois que a calvície havia se tornado indisfarçável. A careca estava ali, para quem quisesse ver, tão lustrosa e brilhante que poderia ser usada como espelho. Uma superfície perfeitamente polida, uma bola de bilhar que pedia pra ser alisada, acarinhada, por que não. E agora, pela primeira vez assim tão a mostra, tão a vontade, tão vulnerável, Antônio pôde sentir orgasmos capilares toda vez que uma rufada de vento entrava pelos seus poros livres. Na esquina, uma farmácia. A receita em suas mãos. Finasterida. Um miligrama. Trinta ou quarenta por cento de cabelos ou sua libido de volta. Se isso fosse mesmo bom, aquele chinês não seria careca, pensou, e com um movimento decidido rasgou de ponta a ponta a receita. Mil pedacinhos de Finasterida pelos ares. Sentiu-se nu, deliciosamente nu, um pelado sem culpa, vitimado por um gene que sabia das coisas. Oh! Bendito bisavô careca. As pessoas o olhavam, era difícil não se atentar para um sujeito em tamanho estado de êxtase, as mãos mecanicamente dirigindo-se à cabeça careca, os dedos alisando deleitosamente o topo nu. As pessoas o olhavam sim e eram gordos e eram feios e eram baixos e sim, também eram carecas, carecas de todos os tipos.

E Antônio, até então determinado a só olhar para os espelhos, nunca tinha reparado que a cidade é uma grande galeria de carecas.